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ONU aprova documento contra fome após protesto da América Latina

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Robin Pomeroy e Stephen Brown, REUTERS

ROMA - A cúpula alimentar da ONU terminou nesta quinta-feira, com a promessa de aliviar a fome que afeta ou ameaça 1 bilhão de pessoas, apesar das queixas de alguns países latino-americanos contra alguns termos da declaração final, o que quase impediu sua aprovação.

O texto afinal aceito promete um compromisso com 'a eliminação da fome e a garantia de comida para todos, hoje e amanhã'. Ativistas e delegados disseram que o documento tem o mérito de colocar a questão dos alimentos na ordem do dia.

- Pelo menos as nações se uniram para reconhecer o problema - disse o secretário norte-americano de Agricultura, Ed Schafer.

A FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura) convocou esta cúpula para discutir a crise alimentar mundial, provocada por diversos fatores - uso intensivo de terras para a produção de biocombustíveis, mudanças climáticas, aumento do preço dos combustíveis e crescimento da demanda, especialmente na Ásia.

Nos últimos dois anos, o preço de alimentos como milho, arroz e trigo mais do que dobrou, e o Banco Mundial diz que mais 100 milhões de pessoas podem passar a sofrer com a fome, que hoje já afeta 850 milhões no mundo. A FAO diz que a produção de alimentos precisaria crescer 50% até 2050 para acompanhar a demanda.

A ONG humanitária ActionAid elogiou a atenção dedicada pelo mundo ao evento, mas lamentou a falta de compromissos 'sérios de longo prazo' dos governos. Ativistas cobraram mais empenho dos países desenvolvidos durante a cúpula de julho do G8 no Japão.

- Há uma crescente conscientização de que os países ricos não podem continuar a dar com uma mão e a tirar com a outra - disse Barbara Stocking, da ONG Oxfam. - A menos que haja mudanças nas políticas injustas de comércio internacional, biocombustíveis e agricultura, a crise da agricultura nos países em desenvolvimento vai continuar.

PROTESTO LATINO

A Argentina, exportadora de carne e grãos, contestou o trecho da declaração final que criticava restrições a exportações - como o recente tributo que taxa as exportações argentinas de soja.

Os EUA defenderam na cúpula que tais restrições agravam a inflação mundial dos alimentos. A forte acumulação de estoques de arroz na Ásia seria também um dos principais fatores por trás da disparada dos preços do produto, que provocou até confrontos em países mais pobres.

- Entendemos que os países queiram proteger sua oferta de alimentos e assegurar alimentos suficientes para seus próprios cidadãos, mas quando há um fechamento do mercado, os preços na verdade sobem - disse Shafer a jornalistas em Roma.

Cuba, Venezuela, Argentina e outros países latino-americanos também fizeram outras objeções à declaração final, e o representante de Cuba, Orlando Requeijo Gual, disse que o texto 'negligencia francamente as necessidades vitais dos que sofrem com a fome'.

Criticando as sanções dos EUA à ilha, ele denunciou 'as sinistras estratégias de usar grãos para (produzir) combustível'.

Os EUA e o Brasil defenderam o uso do milho e da cana, respectivamente, para a produção de etanol, alegando que esse é um fator marginal no aumento global de preços. A declaração final cita apenas a existência de 'desafios e oportunidades' para os biocombustíveis.

(Reportagem adicional de Laura MacInnis, Phil Stewart e Alister Doyle em Roma)