Brasileiro condenado na Rússia por portar remédio para o sogro do patrão jogador de futebol

Defesa de Robson comemora sentença proferida por juíza na Rússia. Robson foi condenado por contrabando e tentativa de tráfico de drogas ao trazer remédio para sogro do seu ex-patrão, o volante Fernando.

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Credit...Sputnik / Aleksei Philippov

O julgamento de primeira instância na Rússia condenou Robson Nascimento de Oliveira, ex-motorista do jogador Fernando Lucas Martins, a pena mínima de três anos de prisão por contrabando e tentativa de tráfico de drogas. Aconteceu nessa quarta (9)

Robson foi detido no aeroporto internacional de Moscou quando agentes de segurança encontraram caixas do remédio Mytedom 10mg em uma das malas do brasileiro. O composto do medicamento, cloridrato de metadona, é proibido na Rússia.

A defesa de Robson alega que a bagagem era da família do ex-volante da seleção brasileira e atual jogador do Beijing Guoan, Fernando Lucas Martins, para quem Robson trabalhava.

"Essa sentença vai entrar para a história", disse o advogado de Robson, Pavel Gerasimov, à agência (russa) de notícias Sputnik Brasil. "É a primeira vez na história da Rússia que a pena mínima é concedida nesses casos."

Como Robson já cumpriu um ano e nove meses de prisão na detenção de Kashira, a defesa acredita que ele poderá ser libertado em até um ano e meio.

"Caso essa condenação entre em vigor [...] em junho do ano que vem poderemos entrar com um pedido de liberdade condicional, se Robson se portar bem na prisão", explicou Gerasimov.

Segundo ele, a procuradoria russa, que havia pedido 12 anos de prisão para Robson, deve apelar para sentença e solicitar uma pena mais dura contra o brasileiro.

Os crimes de contrabando e tráfico são punidos severamente na Rússia. Cenários pessimistas apontavam que Robson poderia pegar até 25 anos de prisão.

"Mas a defesa conseguiu provar a particularidade desse caso", disse o advogado. Na condição de contratado do jogador Fernando, Robson sequer tinha conhecimento de que o remédio proibido estava na sua bagagem.

"Robson chorou de alegria, ficou muito emocionado quando se deu conta do que tinha acontecido, eu também sinto alívio e alegria com o fato de que ele poderá voltar para casa, para junto dos seus entes queridos", comemorou Gerasimov.

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Tribunal Consitucional da Rússia (Foto: Sputnik/Aleksei Danichev)

Transferência para o Brasil
De acordo com o advogado de Robson no Brasil, Olímpio da Silva Soares, a defesa também trabalha com a possibilidade de solicitar que o réu cumpra o restante da pena no Brasil.

"Como aqui não é crime [posse de cloridrato de metadona], nós vamos entrar com um habeas corpus, um pedido de liberdade, enfim, vamos colocá-lo em liberdade aqui no Brasil. Nossa estratégia é essa", disse Soares.

No entanto, pedidos de transferência de Robson só devem ser iniciados quando a sentença do brasileiro for definitiva, terminada a fase de recursos na Rússia.

O caso gerou comoção no Brasil, com o próprio presidente Jair Bolsonaro indicando que pediria ao seu homólogo russo, Vladimir Putin, que perdoasse Robson. Não se sabe oficialmente se pediu.

Jogadores de futebol, como o atacante Richarlison Andrade, não esconderam sua frustração com a falta de apoio que Robson vem recebendo de seu ex-patrão, o volante Fernando.

Apesar das alegações do volante de que enviaria dinheiro para a defesa de Robson, os advogados de Robson em Moscou negam terem recebido apoio financeiro do jogador.

"Não temos relações financeiras com o Fernando [...], não trabalhamos com ele e ele não é nosso cliente de fato", disse Gerasimov. "O dinheiro que ele deveria ter enviado para nós no início do processo, nunca recebemos."

Em nota, a assessoria de imprensa da sogra de Fernando, Sibele Rivoredo, expressou satisfação com o resultado do julgamento em primeira instância de Robson.

"Ficamos com a esperança de que, com a sentença, a liberdade do Robson seja conquistada o quanto antes por meio da relação diplomática entre os governos do Brasil e da Rússia", diz a nota.

Robson do Nascimento Oliveira, de 48 anos, está detido há um ano e meio no presídio de Kashira, na Rússia, acusado de tentativa de tráfico ilegal de drogas e contrabando. (com agência Sputnik Brasil)

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Após sentença, advogado comenta estratégia para libertar Robson Oliveira

POR RENAN LÚCIO

Nesta quarta-feira (9), Robson Nascimento de Oliveira, ex-motorista do jogador de futebol Fernando Lucas Martins, foi condenado a três anos de prisão na Rússia por contrabando e tentativa de tráfico de drogas.

A condenação se dá pelo fato de o brasileiro ter entrado no país com caixas de um medicamento à base de cloridrato de metadona, substância proibida pela legislação russa.

Robson está preso na Rússia desde março de 2019, apesar de alegar desconhecimento sobre o remédio que carregava em uma mala fornecida pela família de Fernando durante o embarque no Rio de Janeiro. O produto pertencia a William Pereira de Faria, sogro do atleta, que não chegou a prestar depoimento às autoridades russas sobre o assunto. Seu advogado, segundo o Globo Esporte, afirma que o depoimento de William não foi pedido enquanto ele estava na Rússia e que a Justiça russa não aceita interrogatório à distância.

Desde a prisão de Robson, o caso tem despertado grande interesse no Brasil, mobilizando diversas personalidades e autoridades, inclusive no mais alto escalão da República.

No julgamento desta quarta-feira (9), havia uma grande expectativa porque, somadas as penas máximas dos crimes pelos quais o brasileiro foi acusado, ele poderia pegar uma pena de até 25 anos. A promotoria, por sua vez, pediu 12 anos de reclusão, e prometeu recorrer da decisão final.

A pena mínima de três anos pegou de surpresa a defesa de Robson, que comemorou a sentença. Como já está preso há um ano e nove meses, ele só precisaria cumprir mais 15 meses. Um recurso, no entanto, deve ser apresentado nos próximos dias, para que um novo julgamento seja realizado, em segunda instância.

"O Ministério Público [russo] ficou bastante insatisfeito com essa sentença de três anos que a juíza deu para o Robson. E, provavelmente, eles vão entrar com um recurso de apelação. A partir da sentença, eles têm dez dias para ingressar com esse recurso de apelação", afirmou em declarações à Sputnik Brasil o advogado Olímpio da Silva Soares, que representa Robson Oliveira no Brasil.

De acordo com Soares, a defesa do brasileiro também planeja entrar com um recurso pedindo que o réu seja transferido para que cumpra o resto da pena em sua terra natal, o que, na prática, poderia significar a libertação do motorista.

"Como aqui não é crime [posse de cloridrato de metadona], nós vamos entrar com um habeas corpus, um pedido de liberdade, enfim, vamos colocá-lo em liberdade aqui no Brasil. Nossa estratégia é essa."
Em outra frente, segundo o advogado, ainda há esperança de que o brasileiro obtenha um perdão do governo russo. Mas, para isso, é preciso que a situação esteja definida, já com a divulgação da sentença referente ao provável recurso que deve ser apresentado pela acusação.

"Após o recurso de apelação, nós vamos apelar também, junto com esse recurso do Ministério Público, tentar diminuir ainda mais essa pena dele, para que ele venha o mais rápido de volta para o Brasil. Mesmo que a sentença dele seja aumentada pela juíza, através do recurso de apelação do Ministério Público, isso não é empecilho para ele ser transferido para o Brasil ou para obter o perdão do governo russo."
Em nome da família do jogador Fernando, sua sogra, Sibele Rivoredo, também se manifestou sobre a decisão da Justiça russa, expressando esperança de que a sentença possa ajudar nos esforços empreendidos em prol de um retorno de Robson Oliveira ao Brasil.

"Ficamos com a esperança de que, com a sentença, a liberdade de Robson seja conseguida o quanto antes por meio da relação diplomática entre os governos do Brasil e da Rússia. Desde o começo, estamos fazendo todo o possível para que ele seja liberto e possa voltar ao Brasil e torcemos para que o resultado do julgamento possa acelerar isso", disse ela por meio de nota enviada por sua assessoria à Sputnik Brasil.



Fernando, o patrão algoz
Tribunal Consitucional da Rússia