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Enfraquecida por pandemia, Cuba pede ao Clube de Paris suspensão do pagamento de dívida

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Enfraquecida economicamente pelo novo coronavírus, Cuba quer suspender até 2022 o pagamento de sua dívida com o Clube de Paris, com a esperança de se beneficiar da mesma tolerância do G20 em relação aos países africanos.

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Evolução da dívida externa cubana desde 2004 e as principais dívidas de Cuba perdoadas nos últimos anos (Foto: AFP / Nicolas Ramallo)

Com este objetivo, o vice-premier Ricardo Cabrisas escreveu ao grupo dos 14 países credores de Cuba, que inclui França, Espanha, Canadá e Japão, pedindo uma moratória para 2019, 2020 e 2021 e voltar a pagar em 2022", relatou uma fonte diplomática, cuja informação foi confirmada por outras duas fontes.

O acordo com o Clube de Paris é crucial para a ilha: em 2015, o país negociou com o órgão a reestruturação de sua dívida com 14 países, que concordaram em perdoar 8,5 dos 11,1 bilhões devidos. O saldo foi convertido em projetos de investimento ou o pagamento foi escalonado até 2033.

O acordo normalizou as relações financeiras de Cuba com esses países, após o cancelamento quase total de sua dívida por China em 2011 (US$ 6 bilhões), México em 2013 (US$ 500 milhões) e Rússia em 2014 (US$ 35 bilhões).

Afetada pelos atrasos na reforma de seu sistema econômico de corte soviético e pela intensificação do embargo aplicado pelos Estados Unidos, Cuba já havia solicitado, no início deste ano, uma primeira moratória da dívida de 2019 e prometeu concluir seus pagamentos até fim de maio de 2020.

- Alerta econômico -

As consequências da pandemia também geraram um alerta econômico na ilha. O turismo, maior fonte de receita do país, representou 3,3 bilhões de dólares em 2018.

Desde 24 de março, Cuba fechou suas fronteiras, uma paralisação que ameaça um terço dos empresários privados da ilha (restaurantes, aluguel de quartos), ou quase 200 mil trabalhadores, segundo um estudo da consultoria Auge.

Em relação às remessas feitas por cubanos residentes no exterior a suas famílias na ilha, estimadas pelo economista Carlos Mesa-Lago em 3,5 bilhões de dólares em 2017, elas representam um apoio diário valioso para muitas famílias.

"Se os estragos econômicos no estado americano da Flórida forem significativos, a chegada de remessas cairá com força, o que terá um forte impacto na vida das pessoas", previu o centro de análises Diálogo Interamericano, com sede em Washington, temendo uma crise humanitária.

A exportação de serviços de saúde, outra fonte importante de divisas, sofreu com o retorno de 9 mil médicos em um contexto de disputas políticas, principalmente com o Brasil, país com o qual Cuba não honra suas dívidas desde meados de 2018.

O envio recente de equipes médicas a 24 países para ajudar contra o coronavírus pode ser infuficiente para compensar a perda de receita cubana.

- Queda nas importações -

A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) previu uma queda no PIB cubano de 3,7% em 2020. A ilha, que importa 80% do que consome, "cortou cerca de 75% das importações no primeiro trimestre" por falta de verba, assinalou o economista Omar Pérez. "É pior que durante o período especial", como é conhecida a crise econômica dos anos 1990, resumiu.

A situação piora a escassez de alimentos e aumenta a fila nos mercados, já recorrentes. Diante da emergência alimentar, "o governo incentivou cultivos de ciclos curtos", para uma colheita em três meses, mas "estamos entrando na temporada de furacões, potencialmente devastadora para a agricultura", considerou Pérez.

Ao pedir uma moratória, Cuba quer evitar cair no não-cumprimento total, como em 1986. A ilha espera aproveitar um perdão do Clube de Paris, em busca de um respiro semelhante ao que o G20 proporcionou aos países mais pobres, incluindo 40 na África.

O Banco Mundial e o FMI prometeram estar ao lado dos países mais frágeis, mas Cuba não faz parte de nenhuma destas duas instituições.(AFP)