América do Sul vive outubro caótico; relembre as crises em curso na região

Outubro de 2019 deverá ficar marcado como um dos meses mais turbulentos da história recente da América do Sul. Ao longo do último mês, crises pipocaram em diferentes cantos do subcontinente, chacoalhando as peças do tabuleiro regional e reacendendo temores sobre o estado de saúde da democracia em alguns países sul-americanos.

O ritmo acelerado das transformações em curso na região torna mais difícil acompanhar o noticiário e pode gerar confusão. Tendo isso em vista, a reportagem preparou um resumo dos últimos acontecimentos na vizinhança.

Relembre as principais crises do mês de outubro na América do Sul:

1. Revoltas populares encurralaram os governos do Equador e do Chile

No dia 3 de outubro, uma onda de protestos eclodiu no Equador após o governo extinguir subsídios sobre combustíveis, atendendo a exigências de ajuste fiscal em troca de empréstimos do FMI (Fundo Monetário Internacional). Assim como em outros momentos de turbulência, foram os grupos indígenas que ocuparam a linha de frente das mobilizações.

Em meio aos enfrentamentos entre manifestantes e policiais, o presidente Lenín Moreno decretou um estado de emergência e transferiu a capital do país de Quito para Guayaquil. Mas os manifestantes não cederam, e Moreno se viu forçado a suspender a retirada dos subsídios no dia 14.

Enquanto a crise arrefecia no Equador, estudantes chilenos passaram protestar contra o aumento da tarifa do transporte público. Após algumas estações de metrô serem depredadas, o presidente Sebastián Piñera decretou um estado de emergência e impôs um toque de recolher em partes do país no dia 19. A violência nas ruas deixou ao menos 20 mortos.

A reação desproporcional do governo colocou lenha na fogueira da revolta popular: na última sexta-feira (25), mais de 1 milhão de pessoas tomaram as ruas da capital, Santiago, no maior protesto desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973- 1990). Acuado, Piñera suspendeu as medidas de exceção e a anunciou um plano de reformas para combater a desigualdade econômica.

2. Líderes de Peru e Bolívia esgarçaram os limites da ordem constitucional

O Congresso do Peru amanheceu fechado em 1º de outubro, um dia depois de o presidente Martín Vizcarra acionar um dispositivo constitucional que permite a suspensão do poder Legislativo. A medida foi uma resposta aos esforços da oposição fujimorista, que tentava emplacar juízes alinhados a seu projeto político no Tribunal Constitucional do país.

O Congresso não reconheceu a legitimidade da decisão de Vizcarra e votou por seu afastamento; em meio ao impasse institucional, o país chegou a ter dois presidentes em exercício por algumas horas. Enfim, Vizcarra conseguiu se manter no poder, e agora o país se prepara para novas eleições legislativas a serem realizadas em janeiro.

Na Bolívia, o presidente Evo Morales conquistou a reeleição para um quarto mandato consecutivo no pleito do dia 20. Após idas e vindas na apuração dos votos, o Tribunal Supremo Eleitoral do país declarou Morales vencedor já no primeiro turno, mas o candidato opositor Carlos Mesa enxergou partidarismo na decisão dos magistrados e não reconheceu o resultado. Houve protestos em diferentes cidades, e ao menos 30 pessoas ficaram feridas.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) e a ONU (Organização das Nações Unidas) recomendaram a realização de um segundo turno, e o governo convidou observadores internacionais a realizarem uma auditoria eleitoral. Antes mesmo do impasse, a candidatura de Morales já era alvo de controvérsia, pois ele fez vista grossa às regras constitucionais e ao resultado de um plebiscito realizado em 2016 que negavam ao presidente o direito de concorrer ao cargo indefinidamente.

3. Esquerda deu sinais de vida em eleições na Argentina e na Colômbia

O peronismo se prepara para voltar ao poder na Argentina após a vitória da chapa composta por Alberto Fernández e pela ex-presidente Cristina Kirchner nas eleições de domingo (27). Eles derrotaram o presidente Mauricio Macri no primeiro turno, impulsionados pelo descontentamento da população com o aumento dos níveis de inflação e de pobreza. Após trocarem ofensas durante a campanha, Fernández e Macri foram cordiais ao iniciar a transição do governo; a posse está marcada para 10 de dezembro.

A animosidade com o resultado veio do Brasil, após o presidente Jair Bolsonaro –que passou os últimos meses fazendo campanha aberta contra Fernández– declarar que não pretendia parabenizar o candidato vencedor. O desentendimento entre os líderes dos dois maiores países sul-americanos pode pôr em risco as parcerias comerciais do Mercosul.

Já na Colômbia, a ex-senadora Claudia López venceu a eleição para a prefeitura da capital, Bogotá, que também foi realizada no domingo. Ela será a primeira mulher e a primeira lésbica a ocupar o cargo, considerado o segundo principal do país, atrás apenas da Presidência. Além de López, candidaturas opositoras saíram vitoriosas nas disputas pelas prefeituras de Medellín e Cáli, respectivamente a segunda e a terceira maiores cidades do país.

Os resultados são amargos para o presidente Iván Duque e sua coalizão de centro-direita. As eleições locais foram marcadas por ameaças e ataques contra candidatos; ainda assim, o pleito foi considerado um dos mais pacíficos dos últimos tempos no país, que vive incertezas ao tentar colocar em prática o acordo de paz firmado em 2016 com as Farc (antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). (Daniel Avelar / FolhaPress SNG)