Senadores trumpistas questionam exposição com fotos de Che Guevara

A exposição de retratos de Ernesto Che Guevara em museus dos Estados Unidos virou motivo de discussão no Congresso americano.

Dois senadores republicanos pediram explicações sobre os critérios de uma agência do governo para financiar uma mostra que, entre cem obras, exibe três com um dos líderes da revolução cubana.

Em documento enviado ao NEA (National Endowment for the Arts), instituição federal de incentivo à cultura, Marco Rubio e Rick Scott, aliados de Donald Trump, chamam Che de "bandido" e "açougueiro sádico" e afirmam que os americanos não podem pagar por ações que exaltem alguém que "odiava os Estados Unidos" e "assassinou inocentes".

"Não acreditamos que os dólares de contribuintes dos EUA que foram destinados pelo Congresso para o National Endowment of the Arts devam ser usados para glorificar ou romantizar pessoas que desdenharam abertamente dos princípios americanos, dos direitos fundamentais e da liberdade."

Enviada em 1º outubro à presidente do NEA, Mary Anne Carter, a carta pede detalhes de como a agência avaliou o conteúdo da exposição "Pop America 1965-1975", que reúne trabalhos sobre a América Latina.

A mostra foi inaugurada em outubro do ano passado no McNay Art Museum, no Texas, e passou por outras duas instituições do país --o Nasher, da Duke University, e o Block, da Northwestern University, na qual permanece até dezembro.

Um dia depois do requerimento dos senadores, a presidente do NEA encaminhou ao Congresso uma resposta dura, em que detalha o processo de seleção dos projetos subsidiados pelo governo e afirma que a arte é o foco da exposição em debate, e não "a imagem de um indivíduo ou a mensagem representada em uma obra específica".

Na carta obtida pela Folha, Carter diz que as orientações que servem de base para o NEA são públicas --e estão no site da agência-- e que todo o processo tem chancela do Conselho Nacional de Artes e revisão de um painel de especialistas.

Ainda de acordo com a presidente da instituição, os custos com a mostra ficaram em US$ 561,8 mil (cerca de R$ 2,3 milhões), que incluíram US$ 45 mil dos fundos da agência mais a participação e contrapartida do próprio museu.

"Para garantir a integridade de nosso processo de subsídios e administração dos dólares dos contribuintes, nossas diretrizes para pedidos de subsídios são atualizadas anualmente", completa Carter.

Na avaliação dos parlamentares, porém, o governo norte-americano não deveria repassar recursos à mostra sem esclarecer ao público que Che Guevara foi responsável por atrocidades.

"Pedimos que você garanta que indivíduos responsáveis por crimes de guerra ou contra a humanidade não sejam exibidos em nenhuma exposição financiada pelo NEA sem destacar clara e inequivocamente seus crimes hediondos em memória de suas vítimas."

Guerrilheiro nascido na Argentina, Che Guevara (1928-1967) foi um dos líderes da Revolução Cubana, que em 1959 derrubou o ditador Fulgêncio Batista e levou ao poder o também ditador Fidel Castro.

A exposição alvo dos republicanos tem em suas fileiras nomes como Andy Warhol, pintor e cineasta americano consagrado no movimento pop art, e conta ainda com artistas da Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Cuba e Porto Rico, além de oito brasileiros, entre eles Cildo Meireles e Hélio Oiticica.

A carta dos senadores não cita nenhum dos expositores, mas escolhe autores conservadores, como o cubano-americano Humberto Fontova, para ressaltar o que os republicanos classificam como atrocidades cometidas pelo guerrilheiro.

Rubio e Scott foram eleitos pela Flórida, reduto do eleitorado latino conservador dos Estados Unidos, com forte presença de cubanos contrários ao regime dos irmãos Castro.

O estado é um dos principais focos da campanha à reeleição de Trump e tem sido palco do presidente em busca de fortalecer os laços com sua base ancorado no discurso contra imigração ilegal.

A estratégia de energizar eleitores com ações no campo das artes também é usada pelo governo de Jair Bolsonaro, que tem tomado medidas de censura prévia e limitação de conteúdo cultural no Brasil.

Os dois senadores americanos são frequentemente elogiados pela família Bolsonaro, alinhada às críticas ao regime cubano, e já se reuniram com o clã brasileiro em duas ocasiões.

Em novembro do ano passado, Rubio esteve em Washington com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e candidato a embaixador em Washington. Scott, por sua vez, reuniu-se na terça-feira (8) com Eduardo e Bolsonaro em Brasília (Marina Dias/Folhapress)