Nobel coroa trajetória de conto de fadas para país africano

O prêmio Nobel da Paz para Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, coroa uma trajetória de conto de fadas para um dos maiores e mais importantes países da África.

O século 20 foi trágico para os etíopes, um povo orgulhoso, que nunca foi colonizado.

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Abiy Ahmed, primeiro ministro etíope e ganhador do Nobel da Paz de 2019 (Foto: REUTERS/Tiksa Negeri)

Invadida pelos fascistas na década de 1930 e submetida a um regime marxista fanático a partir dos anos 1970, e Etiópia virou sinônimo de pobreza e instabilidade.

As imagens de crianças esquálidas, mostradas pela TV, chocaram a consciência mundial e levaram à mobilização de artistas pop que culminou no concerto Live Aid.

A intenção pode ter sido boa, mas foi devastadora para a imagem de um país que teve dificuldades para se projetar como a nação dinâmica que é, dona de uma das culturas mais ricas da África.

É o único país africano que não usa uma língua europeia como seu primeiro idioma, mas sim o amárico, com seu alfabeto peculiar.

Também tem sua própria variante do cristianismo ortodoxo, seguida por 60% da população, e uma grande minoria muçulmana. Livre da ditadura de esquerda nos anos 1990, a Etiópia viveu novos dissabores.

A traumática independência da Eritreia levou a uma guerra civil entre os dois países por questiúnculas de fronteira.

O regime se fechou durante o período do primeiro-ministro Meles Zenawi (1995-2012), uma figura carismática e vista com bons olhos em alguns círculos internacionais por reformas importantes que fez, sobretudo na área de desenvolvimento rural.

Mas internamente o comportamento do governo era autocrático, com prisão de dissidentes e repressão a manifestações.

A economia seguia sendo uma das mais fechadas do continente, completamente estatizada.

Há meros dez anos, enquanto a África vivia sua revolução digital baseada na telefonia celular, a Etiópia seguia na Idade da Pedra da internet.

No poder desde o ano passado, Ahmed aproveitou-se da saída de cena de Zenawi (morto em 2012) e de um novo ambiente social e político no país, que tem uma população jovem e crescente e uma classe média estabelecida.

A fadiga do conflito com o vizinho eritreu (que, aliás, segue sendo governado de forma ditatorial) abriu caminho para a paz. Opositores foram libertados e o cerco à imprensa, relaxado. 

O prêmio é merecido, mas o grande teste para a Etiópia ainda está por vir.

O EPRDF (Frente Democrática e Revolucionária do Povo Etíope), partido de Ahmed que há décadas governa o país, é uma coalizão de chefes locais e ex-líderes militares que está enraizada nos negócios do Estado e não largaria esse privilégio de forma tão fácil em caso de uma vitória da oposição.

Apenas quando houver alternância de poder a fábula etíope estará completa. (Fábio Zanini/Folhapress)