Otan se reúne para comemorar seus 70 anos com Rússia e Trump na agenda

Os ministros das Relações Exteriores dos 29 países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se reunirão nesta quarta e quinta-feira, em Washington, para celebrar os 70 anos de sua criação que teve como objetivo contrabalançar o poder da extinta União Soviética.

O ressurgimento do poder russo será o tema central do encontro, em um contexto internacional de uma falsa nova Guerra Fria.

Além disso, a Aliança Atlântica também enfrenta outro problema mais inesperado: as críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, disse, em declarações ao Congresso, esperar que os países possam "anunciar outra série de ações" comuns "para contrabalançar o que a Rússia está fazendo na Crimeia", península ucraniana anexada em 2014 por Moscou.

Mas se conter a Rússia é algo comum para a Otan, sua nova dinâmica interna não o é, com o presidente Donald Trump sugerindo de forma constante que seus aliados se aproveitam dos Estados Unidos.

Trump, que repreendeu no ano passado os aliados em uma cúpula na sede da Otan, em Bruxelas, tem pressionado os Estados-membros a alcançarem a meta estabelecida em 2014 de destinar 2% do PIB à Defesa.

Regularmente, inclusive, renova dúvidas sobre seu compromisso com este pilar das relações dos Estados Unidos com a Europa como quando, de forma sarcástica, perguntou se valia a pena defender pequenos Estados-membros como Montenegro.

Pompeo defendeu a postura de Washington, afirmando que se trata de "assegurar que a Otan esteja presente nos próximos 70 anos".

O chefe da diplomacia americana disse que discutirá o gasto e voltou a apontar para a Alemanha, que planeja destinar à área da defesa menos de 2% do PIB e reduzir este percentual em 2023.

"Quando falei com meus contrapartes, começaram dizendo que 'os Estados Unidos precisam fazer X e Y porque a Rússia representa uma ameaça", disse Pompeo em um fórum da revista conservadora National Review.

"Então, você pergunta a eles, 'Bem isto é incrível. Diga o que está disposto a fazer'. E eles dizem 'É difícil. Nossos eleitores simplesmente não querem gastar dinheiro com defesa militar", disse Pompeo, entre risos.

 

 

Os líderes da Otan celebrarão em dezembro, em Londres, sua cúpula anual, mas as comemorações do 70º aniversário são especialmente discretas.

Isto marca um forte contraste com o cinquentenário, em 1999, que sacudiu a Rússia e conseguiu fechar as ruas de Washington de forma tal que os moradores da capital americana continuam falando disso.

Chefes de Estado visitaram o então presidente americano, Bill Clinton, na Casa Branca, foram incorporados novos membros como a República Tcheca, a Hungria e a Polônia, enquanto os líderes planejavam o passo seguinte na campanha de bombardeios da Otan na Sérvia.

Este ano, os ministros das Relações Exteriores terão conversações no The Anthem, novo espaço para música, preparado para a ocasião. O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, se encontrará na terça-feira com Trump e no dia seguinte, se dirigirá ao Congresso.

Derek Chollet, que chefiou a política militar dos Estados Unidos na Otan durante a Presidência de Barack Obama, disse que espera que os membros da Otan destaquem as vantagens da aliança.

"Mas a preocupação é Trump, cuja 'nuvem paira' sobre o futuro da organização", disse Chollet, atual vice-presidente executivo da Fundação German Marshall nos Estados Unidos.

Aos demais países-membros, "preocupa-lhes que um membro fundador da aliança tenha se tornado o mais imprevisível, e talvez o menos confiável".

 

 

Enquanto a direita populista intensifica os ataques à Otan, a aliança tem sido durante muito tempo um pesadelo para a esquerda, que planeja protestar por ocasião do aniversário.

Grupos pacifistas planejam marchar ao redor de Washington e realizar uma contra-conferência sobre alternativas à Otan.

A aliança "deveria ter se retirado ao invés de se reprogramar para dominar no século 21", avaliou Joseph Gerson, coordenador de desarmamento do American Friends Service Committee.

Sem se mostrar indulgente com o presidente russo, Vladimir Putin, acredita que era de se esperar que a Rússia "reagisse" à expansão da Otan.

"Só pensa em como os Estados Unidos estão preocupados com um par de aviões indo para a Venezuela", afirmou. "Queremos também que o povo entenda que a Otan se tornou uma aliança global de uma forma que tem muito pouco a ver com a defesa da Europa".

De fato, recentemente Trump propôs incorporar o Brasil na aliança, ao dar as boas-vindas ao presidente Jair Bolsonaro.

Derek Chollet disse que os eventos recentes demonstram que a Rússia continua sendo a principal ameaça para a Otan, embora espere ver os países da aliança discutir cada vez mais os desafios que apresenta a China.