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Extremista se apresenta à Justiça após massacre na Nova Zelândia

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O extremista de direita que filmou a si próprio invadindo duas mesquitas na pacata cidade neozelandesa de Christchurch, onde matou 49 fiéis muçulmanos, se apresentou à Justiça neste sábado (noite de sexta, 15, no Brasil) para responder por homicídio.

O australiano Brenton Tarrant, de 28 anos, apareceu no banco dos réus usando algemas e uma camisa branca de presidiário, sentado impassível enquanto o juiz lia a acusação de um homicídio feita contra ele. Uma série de outras acusações ainda devem ser apresentadas.

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Policiais vigiam ruas de Christchurch (Foto: MICHAEL BRADLEY / AFP)

O ex-instrutor de ginástica e fascista confesso ocasionalmente se voltava para olhar os jornalistas presentes na corte durante a curta audiência que foi celebrada a portas fechadas por motivos de segurança.

Ele não pediu fiança e foi levado sob custódia até a próxima aparição na corte, prevista para 5 de abril.

Quarenta e duas pessoas ainda estão hospitalizadas, inclusive uma criança de quatro anos, depois de um ataque considerado o mais mortal vinculado a muçulmanos no Ocidente na era moderna.

Do lado de fora da corte, guardada por policiais fortemente armados, os filhos do afegão 71 anos Daoud Nabi pediam justiça.

"É revoltante, o sentimento é de revolta", disse um deles. "É além da imaginação", acrescentou.

A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, disse que as vítimas eram de todo o mundo muçulmano, e que entre os países que prestaram assistência consular estavam Turquia, Bangladesh, Indonésia e Malásia.

Um cidadão saudita foi morto e outro ficou ferido, segundo a emissora de TV saudita Al-Arabiya.

Ao menos dois jordanianos estão entre os falecidos, segundo o ministério das Relações Exteriores da Jordânia, enquanto o porta-voz da chancelaria paquistanesa, Mohammed Faisal, disse que cinco cidadãos de seu país estavam desaparecidos.

Ardern descreveu o massacre como um ato terrorista e disse que o atirador - que não constava de nenhuma lista de vigilância e não tinha registro policial - havia comprado legalmente as armas semiautomáticas usadas no ataque, duas espingardas e dois rifles semiautomáticos.

"O atacante estava em posse de uma licença para arma de fogo", obtida em novembro de 2017, e ele começou a comprar as armas no mês seguinte, afirmou ela.

"Enquanto está sendo feito o trabalho de construção da cadeia de eventos que levou tanto à obtenção desta licença, quanto da posse destas armas, eu posso dizer-lhes uma coisa agora: nossa legislação sobre armas vai mudar", prometeu a premiê.

O suspeito documentou sua radicalização e os dois anos de preparativos para o ataque em um longo e rebuscado 'manifesto', repleto de ideias conspiratórias.

A chocante filmagem que ele fez ao vivo mostra um atirador implacável indo de sala em sala, matando uma vítima de cada vez, atirando nos feridos à curta distância enquanto eles tentavam rastejar para longe na principal mesquita de Christchurch.

Outras duas pessoas estão sob custódia, embora seus vínculos com o massacre sejam desconhecidos. Uma terceira pessoa que havia sido detida mais cedo foi apontada como alguém comum com arma de fogo que tentou ajudar.

Dois dispositivos explosivos improvisados foram encontrados em um carro e neutralizados pelos militares, enquanto a Polícia realizou buscas em uma residência em Dunedin, onde Ardern disse que o suspeito estava baseado.

Homenagens vieram de todas as partes do mundo.

O presidente americano, Donald Trump, condenou o que chamou de "massacre horrível", no qual "pessoas inocentes foram assassinadas de forma insensível", mas negou que o problema do extremismo de direita seja generalizado.

Falando de Sydney, o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, descreveu o atirador como "um extremista, um terrorista de direita violento".

Os dois alvos do atirador foram as mesquitas Masjid al Noor, onde 41 pessoas foram mortas, e uma menor, situada no subúrbio de Linwood, onde outras sete pessoas faleceram. As outras vítimas não resistiram aos ferimentos e morreram no hospital.

Entre os mortos, há mulheres e crianças, segundo informes.

Entre os sobreviventes estão 17 membros de um time de críquete de Bangladesh, cuja partida contra a Nova Zelândia no sábado foi adiada, e um palestino que fugiu e conseguiu se salvar após ver uma vítima ser baleada na cabeça.

"Eu ouvi três disparos rápidos, e então depois de dez segundos começou de novo", contou o homem, que não quis ser identificado.

"Então, as pessoas começaram a correr. Algumas, cobertas de sangue", relatou à AFP.

A Polícia neozelandesa descreveu a filmagem feita pelo assassino - cuja autenticidade foi verificada pela AFP, mas não compartilhado - como "extremamente angustiante" e alertou usuários da internet de que podem ser condenados a até dez anos de prisão por compartilhar este conteúdo.

O ataque chocou os neozelandeses, acostumados com índices de violência de 50 homicídios ao ano em todo o país, de 4,8 milhões de habitantes, orgulhoso de viver em um lugar seguro e receptivo.

A Polícia alertou muçulmanos de todo o país a não visitar mesquitas "em nenhum lugar da Nova Zelândia" após os ataques em Christchurch. Sexta-feira é o dia santo para os muçulmanos.

O ataque também chocou a população muçulmana local, formada em grande parte por refugiados.

Uma testemunha contou ao site noticioso Stuff que estava rezando quando ouviu os tiros e então viu sua esposa caída morta enquanto fugia.

Outro homem contou ter visto crianças ser baleadas.

"Havia corpos por toda parte", contou.

Ataques maciços a tiros são muito raros na Nova Zelândia, que tornou mais duras suas leis para armas para restringir o acesso a rifles semiautomáticos em 1992, dois anos depois de um homem com problemas mentais matar 13 pessoas a tiros na cidade de Aramoana, na Ilha Sul.

No entanto, qualquer pessoa acima dos 16 anos pode aplicar para tirar uma licença padrão para armas de fogo após fazer um curso de segurança e se submeter a uma checagem da Polícia.


Christchurch, uma cidade relativamente pequena na ilha sul neozelandesa, ocupou as manchetes dos jornais em 2011, quando foi atingida por um terremoto mortal, que deixou mais de 180 mortos.