Berlim: Dia da Mulher vira feriado

BERLIM - Enquanto toda a Alemanha trabalha normalmente hoje, a capital resolveu parar no Dia Internacional da Mulher. É a primeira vez que Berlim tem a data como feriado, iniciativa do SPD (Partido social-democrata alemão). As mulheres políticas comemoraram a conquista. Ines Schmidt, do Partido Linken, de esquerda, disse que o novo feriado deve lembrar as injustiças contra as mulheres.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, na Europa, a cada seis mulheres, uma sofre violência doméstica. Na Alemanha, o Ministério para a Família, Terceira Idade, Mulheres e Juventude relata que 25% das mulheres da Alemanha de 16 a 80 anos já sofreu algum tipo de abuso, seja físico ou sexual. E de cada quatro mulheres, uma sofre agressões domésticas.

Em Berlim, além dos 15 mil casos de violência doméstica registrados anualmente (dados da polícia), há os registros de casamentos forçados. Segundo o serviço anônimo de apoio Papatya, a capital tem por dia 15 casamentos forçados a partir dos 13 anos de idade. A organização resgata e dá abrigo a cerca de 60 meninas e mulheres por ano e afirma que, em 100% dos casos, trata-se de violência patriarcal. Também há registros de óbitos, como de Rokstan Malak, assassinada aos vinte anos.

A ministra da Família, Franziska Giffey, no fim de 2018, declarou que será criado um fundo no valor de seis milhões de euros para programas de combate e atendimento em caso de violência doméstica. A Revista alemã "Spiegel", em novembro de 2018, registrou que em 2017, a cada dois a três dias, uma mulher é assassinada na Alemanha pelo seu atual ou ex-parceiro. O feriado também se dispõe a levantar outro tema na pauta da igualdade de gêneros: a igualdade salarial.

Na Alemanha, desde que Marie Juchacz tornou-se a primeira mulher a discursar no Parlamento alemão, há exatos cem anos, as alemães conquistaram muito terreno. Mas, ainda há muito a percorrer quando se fala de igualdade de direitos nos negócios, política e sociedade. No Bundestag, o parlamento alemão, cerca de 31% mulheres ocupam as cadeiras parlamentares. As mulheres ainda tiram licença parental mais longa do que as dos homens, trabalham meio período com mais frequência, fazem a maior parte do trabalho doméstico e consequentemente ganham menos e recebem menos aposentadoria.

Segundo o Instituto de Estatística federal, mulheres ganham cerca de 21% a menos que os homens, um valor acima ao da União europeia - cerca de 16%. As brasileiras Andrea Botelho, maestrina, e Cristina Chiappini, astrofísica, construiram carreiras sólidas na Alemanha. Andrea é regente do coro Brasil Ensemble Berlim, projeto que promove o aprendizado da música brasileira. Cristina é astrofísica premiada do Instituto Leibniz. Tanto a maestrina quanto a astrofísica têm uma visão positiva do futuro. "As mulheres na regência estão em fase de grandes conquistas. Ainda está em processo, mas tenho uma visão positiva. E Através do exemplo que damos, espero passar adiante. A minha filha Elisa estuda contrabaixo e acredito que vai usufruir das minhas e das batalhas das outras mulheres. E ainda é uma luta pela igualdade", diz Andrea.

Por causa dessa luta, a astrofísica Cristina acha importante ter o Dia da Mulher: "O dia da mulher faz a gente entender que não estamos numa normalidade, pois o dia em que recebermos iguais, tivermos as mesmas oportunidades, aí não precisaremos mais do dia da mulher. Você acaba também discutindo o porquê do dia das mulheres".

A maestrina conta que teve de escutar "elogios" como: "você rege como um homem" ou"você é bonita, não é melhor você se casar?" Para Andrea, o machismo na Alemanha é mais silencioso, mais velado. Já Cristina, vê na ciência pontos positivos para o Brasil: "Em termos de ciência a perspectiva no Brasil consegue ser melhor, no mestrado no Brasil havia muitas mulheres. Mas na Alemanha é normal ver uma motorista de ônibus. A mulher tem uma dificuldade, a gente tem menos espaço na cidade, perde espaço, perde liberdade, por causa da violência".

Cristina aposta na representatividade: "Na Suíça, um grupo de cientistas visita escolas. Para que as meninas tenham ideia de que tem muitas mulheres fazendo ciência. São várias instâncias a serem trabalhadas, na infância, na universidade, pois quanto maior o grau acadêmico menor a presença da mulher".

Os críticos do feriado em Berlim apontam questões puramente financeiras. Argumentam que Berlim "não pode financiar nenhum dia a menos de trabalho", como declarou o deputado Maren Jasper-Winter. Segundo o diretor administrativo da Associação empresarial dos Estados de Berlin-Brandemburgo, Christian Amsinck, "Berlim perde em um dia de feriado uma produção econômica de de 160 milhões de euros". Já Derya Caglar, porta-voz da política de igualdade do SPD na Câmara dos deputados de Berlim, disse que a decisão foi "um grande sinal de que estamos progredindo no caminho da igualdade"