Papa promete levar pedófilos à Justiça

Em cúpula contra pedofilia, Igreja admite erros, mas não apresenta planos concretos de mudança

CIDADE DO VATICANO - Depois de quatro dias de uma histórica cúpula convocada pelo papa Francisco para debater a questão dos abusos sexuais contra menores por parte de membros da Igreja Católica, o pontífice prometeu combater a pedofilia com "máxima seriedade", inclusive judicializando os envolvidos, mas recebeu críticas por não apresentar medidas muito concretas.

Em longo discurso, o papa comparou a "praga" dos abusos sexuais de menores de idade com as práticas religiosas do passado de oferecer seres humanos em sacrifício e prometeu seriedade: "Gostaria de reafirmar com clareza: se na Igreja for descoberto um só caso de abuso que por si só representa uma monstruosidade , este caso será enfrentado com a máxima seriedade. A Igreja não se cansará de fazer todo o necessário para levar à justiça quem estiver cometido tais crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso".

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Papa Francisco celebra eucaristia no último deia de cúpula sobre abuso sexual infantil (Foto: Giuseppe Lami/Pool/AFP)

Francisco disse que o abusador é "um instrumento de Satanás" e ressaltou as relações de poder envolvidas. "Não se pode compreender o fenômeno dos abusos sexuais contra menores sem levar em consideração o poder, o quanto estes abusos são sempre a consequência do abuso de poder, aproveitando uma posição de inferioridade do indefeso abusado", afirmou.

Durante quatro dias, 190 líderes religiosos estiveram reunidos no Vaticano para tratar da temática. O foco foram os debates e os depoimentos de vítimas, a fim de fazer a Igreja refletir. Entre os discursos dos cardeais, um dos mais marcantes foi o do arcebispo de Munique e Freising, Reinhard Marx, que criticou o fato de o "segredo pontifício" ser apresentado com frequência como justificativa pela Igreja em casos como o dos abusos sexuais e em outras questões. "Os arquivos que poderiam documentar estes atos terríveis e indicar os responsáveis foram destruídos ou nem chegaram a ser criados. O abuso sexual de crianças e jovens se deve, em uma parte não insignificante, ao abuso de poder da administração. Ao invés de punir os culpados, as vítimas foram as repreendidas e silenciadas", lamentou. "Os direitos das vítimas foram pisoteados e deixados ao livre arbítrio de indivíduos", completou.

Nada concreto

Aqueles que esperavam ações concretas - como prometido pelo papa na abertura do encontro - se decepcionaram, principalmente as associações de vítimas. O suiço Jean Marie Furbringer, líder de um desses organismos disse estar decepcionado: "apenas bla, bla, bla. Tudo é culpa do diabo... Não me surpreende, me decepciona", declarou.

Outros ainda acusaram Francisco de ter retrocedido em seu discurso final, por ter usado grande parte do tempo para tratar do abuso de menores como um problema geral. "Estou completamente atordoada", disse Anne Barrett Doyle, co-fundadora da Bishop Accountability, ao Guardian. "O papa desfez o pequeno progresso que possivelmente tinha sido alcançado esta semana. Ele foi defensivo, reflexionando que o abuso acontece em todos os setores da sociedade. Ironicamente e infelizmente, ele não demonstrou responsabilidade nem transparência. "