Guaidó irá em caravana à fronteira com a Colômbia para buscar ajuda humanitária

O líder opositor Juan Guaidó, autoproclamado chefe de Estado interino da Venezuela, partiu em caravana nesta quinta-feira (21) rumo à fronteira com a Colômbia para chefiar a entrada da ajuda humanitária enviada pelos Estados Unidos, enquanto o presidente Nicolás Maduro ordenou o fechamento da fronteira com o Brasil, onde fica um centro de armazenamento de medicamentos e alimentos.

Guaidó, reconhecido por cerca de 50 países como presidente interino venezuelano, partiu pouco antes das 11H00 locais (15H00 GMT) para um percurso de mais de 900 kms até o fronteiriço estado de Táchira (oeste), disse à AFP um de seus porta-vozes.

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Auto-proclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó (Foto: Federico Parra / AFP)

Uma equipe da AFP acompanha um comboio de 10 caminhonetes com vidros escuros nos quais o chefe legislativo de 35 anos aparentemente vai embora, embora ele não tenha sido visto. Outra caravana de ônibus partiu para o leste de Caracas com os deputados, mas os militares lançaram gás lacrimogêneo e colocaram obstáculos para impedir seu avanço em uma rodovia no estado de Carabobo (norte), embora sem graves incidentes.

Pouco depois, em reunião com o alto comando militar, Maduro ordenou fechar a fronteira terrestre com o Brasil a partir das 20h00 (horário local) e disse que avalia o mesmo no caso colombiano, como foi ordenado na terça-feira para o tráfego aéreo e com Curaçao, onde há outro armazém.

María Teresa Belandria, designada embaixadora da Venezuela no Brasil pelo líder opositor Juan Guaidó, afirmou nesta quinta à AFP que a entrega de ajuda humanitária ao país caribenho "continua" apesar do fechamento da fronteira.

"A operação continua. Não tem volta atrás", disse Belandria.

"A Venezuela está vivendo uma grande provocação. Às vezes parece uma brincadeira de meninos. As meninas à frente do golpe fracassaram", disse Maduro, referindo-se à ajuda humanitária como "falsa" e como "show".

Segundo a oposição, brigadas de voluntários - que se espera que cheguem a 1 milhão de pessoas - vão buscar a ajuda humanitária em vários pontos nos estados de Táchira (oeste) e Bolívar (sul), fronteiriços com Cúcuta (Colômbia) e Roraima (Brasil), onde há centros de distribuição, e a Puerto Cabello e La Guaira - os dois principais portos do país.

Em contrapartida, o governo enviou para Cúcuta, onde é o maior centro de coleta de assistência enviada pelos Estados Unidos, milhares de caixas de comida em uma caravana de 11 caminhões de carga.

Guaidó, que também é chefe do Legislativo, convocou manifestações no sábado para acompanhar várias caravanas que vão buscar a ajuda e uma mobilização às guarnições militares.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, viajará para a Colômbia na segunda-feira para manifestar o apoio "inabalável" do governo de Donald Trump a Guaidó, informou a Casa Branca nesta quinta-feira.

 

Na véspera do dia 'D', será realizado em Cúcuta, em um extremo da ponte Tienditas, o show "Venezuela Aid Live", ao qual irão os presidentes colombiano, Iván Duque; chileno, Sebastián Piñera, e paraguaio, Mario Abdo.

Fernán Ocampo, porta-voz da organização do evento, disse que é aguardado um público de 250.000 pessoas, mas a capacidade instalada pode receber 500.000.

Uns 30 voos privados chegam nestes dias a Cúcuta levando os artistas, enquanto 1.500 policiais e um dispositivo militar serão deslocados para o evento.

Vão se apresentar artistas do porte dos espanhóis Alejandro Sanz e Miguel Bosé, o dominicano Juan Luis Guerra, os colombianos Juan Vives Guerra, os colombianos Carlos Vives e Juanes, os mexicanos Maná e Paulina Rubio, o porto-riquenho Luis Fonsi e os venezuelanos José Luis Rodríguez (conhecido como 'El Puma'), Nacho e Ricardo Montaner.

Ainda não foram anunciados os participantes do concerto chavista, denominado "Hands Off Venezuela" (Tirem as mãos da Venezuela), o qual, segundo o ministério das Comunicações, denunciará a agressão contra o país.

"O que fizerem do outro lado da fronteira é problema deles (...) Nós defenderemos nosso território", disse nesta quarta à imprensa o líder chavista Darío Vivas na entrada da ponte.

 

A grande incógnita é como vão passar a carga se Maduro, apoiado pela Força Armada, rejeitou a ajuda por considerá-la uma "esmola" e uma porta de entrada à invasão militar americana.

"Senhores da Força Armada, têm três dias para se colocar ao lado da Constituição. Esta ajuda é para salvar vidas", assegurou Guaidó.

Mas embora os militares bloqueiem algumas áreas, a fronteira de 2.200 km entre a Venezuela e a Colômbia é muito porosa. Alguns setores são controlados por máfias de contrabando de gasolina e narcotráfico que operam em passagens clandestinas.

Angustiados pela escassez e pela hiperinflação voraz, todos os dias centenas de venezuelanos passam pela ponte Simón Bolívar, principal passagem de pedestres, que liga Cúcuta e San Antonio Táchira, e pelas cerca de 30 passagens ilegais que, segundo a Polícia colombiana, existem na região.

"Não descartamos absolutamente nada", disse Guaidó, perguntado se a ajuda pode passar por estes caminhos.

Tentando contrabalançar a ofensiva do opositor, o governo de Maduro fará jornadas de assistência médica gratuitas na fronteira e a distribuição de 20 mil caixas de alimentos a moradores de Cúcuta.

"O governo não tem como ganhar este jogo, está tentando minimizar os danos", avaliou o analista Luis Vicente León.