Maduro fecha fronteira da Venezuela com Brasil

Mourão diz que "ação militar dos EUA é fora de propósito"

CARACAS - Após o anúncio feito pelo governo de Jair Bolsonaro de ação coordenada com os Estados Unidos para levar ajuda humanitária à Venezuela, o governo de Nicolás Maduro anunciou o fechamento total da fronteira do país com o Brasil. O vice-presidente general Hamilton Mourão se posicionou contrário a uma intervenção militar dos EUA no país vizinho.

"Decidi fechar totalmente a fronteira terrestre com o Brasil até novo aviso. É melhor prevenir do que lamentar. Comandantes, tomem todas as medidas para resguardar nosso território de qualquer agressão", disse Maduro a autoridades militares. Maduro ainda anunciou que avalia fechar totalmente a fronteira com a Colômbia. Em duro pronunciamento contra o mandatário do país vizinho, Iván Duque, Maduro disse Duque é "responsável por qualquer violência na fronteira". O principal centro de estocagem de ajuda humanitária enviada pelos EUA está localizado em Cúcuta.

Macaque in the trees
Em programa de TV, Maduro (esq.) visita centro de distribuição de alimentos do governo, enquanto Guaidó (acima) participa de ato (Foto: Marcelo Garcia/Presidência/AFP)

O governo Bolsonaro disse que essa medida não altera o planejamento brasileiro, que seguirá acumulando suprimentos em Pacaraima à espera de "caminhões venezuelanos, comandados por venezuelanos". O vice-presidente Mourão afirmou à AFP que não há planos concretos de intervenção e seria "fora de propósito": "Seria muito prematuro e muito fora de proposito os Estados Unidos realizarem uma intervenção militar dentro da Venezuela. A questão tem que ser resolvida pelos venezuelanos". O general estará junto com o chanceler Ernesto Araújo na reunião do Grupo de Lima na próxima segunda, na Colômbia.

O autoproclamado presidente Juan Guaidó afirmou que os suprimentos estocados na fronteira "vão entrar", apesar do bloqueio de Maduro. O líder opositor organizou caravanas de voluntários para buscar os mantimentos em Cúcuta e no Brasil. Maduro visitou ontem um centro de distribuição de alimentos do governo e anunciou que vai enviar sua própria ajuda humanitária a Cúcuta, com 11 caminhões.

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Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino, em ato com trabalhadores de transporte, às vésperas de caravana (Foto: Federico Parra/AFP)

Show de retórica

Hoje a Venezuela vai assistir a uma batalha curiosa: governo e oposição estão organizando shows nos dois lados da fronteira do país com a Colômbia. Na cidade colombiana de Cúcuta, o bilionário Richard Branson, fundador do grupo Virgin, promove um concerto com estrelas para arrecadar fundos para ajuda humanitária. Já na venezuelana Ulreña, o governo Maduro organiza um festival de três dias com foco na música tradicional e com o anti-intervencionismo como lema.

O confronto vai acontecer nos dois extremos da ponte de Tienditas, que tem apenas 300m de extensão e passou a ganhar os holofotes internacionais desde que as forças armadas da Venezuela bloquearam a passagem com caminhões e contêiners. Segundo Branson, seu show foi um pedido dos opositores Juan Guaidó e Leopoldo López. Entre as mais de 30 atrações estão o cantor britânico Peter Gabriel (ex-Genesis), o espanhol Alejandro Sanz, o colombiano Maluma, o porto-riquenho Luis Fonsi (do hit "Despacito") e o grupo mexicano Maná. O cantor britânico Roger Waters, ex-Pink Floyd, criticou a iniciativa e a participação de Gabriel.

O nome da cantora Anitta chegou a ser especulado, mas, sem detalhar se chegou a negar um convite, a brasileira afirmou que não participará do show. O franco-espanhol Manu Chao, que tem músicas com um tom político, foi cogitado tanto no show de Branson quanto no festival de Maduro, mas usou o Twitter para desmentir que estará na fronteira.

O evento organizado pelo governo deve contar com artistas locais e ainda promete realizar consultas médicas gratuitas e distribuição de alimentos.

Ontem, o presidente Nicolás Maduro também anunciou a extensão do Carnaval na Venezuela. O presidente decretou que o feriado vai começar na quinta-feira dessa vez, dando mais dois dias de festejos. O mandatário também afirmou que vai distribuir um "bônus" para que aproveitem a festa.

 



Em programa de TV, Maduro (esq.) visita centro de distribuição de alimentos do governo, enquanto Guaidó (acima) participa de ato
Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino, em ato com trabalhadores de transporte, às vésperas de caravana