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A grande migração das orcas

Olivier Morin/AFP -
Orcas passeiam nas águas do Fiorde Reisafjorden, na Noruega, em busca de arenques
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Oslo - Indiferente aos mergulhadores, uma orca e seus filhotes se divertem entre os relevos nevados de um fiorde norueguês em busca de arenque, a iguaria preferida desse cetáceo, que por força das mudanças climáticas migra cada vez mais para o norte. Com isso, as águas claras, frias e tranquilas de Reisafjorden, no extremo norte da Noruega, tornaram-se recentemente o jardim de inverno da população local de orcas.

A três graus negativos, o mar da região tem a temperatura ideal para os arenques que, em preparação para o período de desova - de fevereiro e março - produzem gordura e parecem prontos para saciar as vorazes orcas. Por meio de uma técnica muito desenvolvida, as orcas rodeiam um cardume de arenques, arrastando-os para a superfície, e depois os desorientam com ajuda de suas potentes nadadeiras caudais.

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"Em seguida compartilham o banquete", consumindo só as partes nobres do peixe, os ovos, a carne e o sêmen, explica Pierre Robert de Latour, fundador da associação Orcas sem Fronteiras, a bordo de um navio dedicado à observação dos mamíferos. "É um alimento extremamente fácil de caçar, disponível em grande quantidade e muito energético", explica o naturalista.

Em 20 anos, os arenques migraram 300 quilômetros em direção ao norte, abandonando as ilhas Lofoten, para encontrar durante um período suficientemente longo as águas extremamente frias necessárias para sua reprodução. E as orcas tiveram de segui-los.

"Vimos uma modificação do circuito migratório do arenque. Podemos pensar, legitimamente, que o aquecimento global é responsável pelo aumento da temperatura da água e levou os arenques mais ao norte", afirma Pierre Robert de Latour. "Em longo prazo vão tentar avançar ainda mais em direção ao norte. Se sua existência chegar a ser muito afetada, seria uma catástrofe ambiental para as baleias, as orcas, os pássaros marinhos e o bacalhau", alerta.

Paradoxalmente, a população de orcas que vivem ao longo da costa norueguesa parece prosperar. Pierre Robert de Latour calcula que há 1.500 exemplares hoje, o dobro de duas décadas atrás. Alguns cientistas falam de 3 mil orcas em uma zona que vai do norte do país escandinavo até o arquipélago de Svalbard e o litoral da Groenlândia, que se tornou mais acessível à medida que diminuiu o gelo marinho.

Além do aquecimento, a pesca e o fluxo de turistas embarcados por sociedades privadas para observar os cetáceos, e mergulhar ao lado deles, ameaçam o bem estar das orcas. "As orcas e os navios de pesca disputam o arenque há décadas", sem que isso impeça o crescimento da população de orcas, aponta Tore Haug, diretor de pesquisa sobre mamíferos marinhos no Instituto de Pesquisa Marinha de Tromso.

O ecoturismo está em pleno auge na região. Não é raro que vários barcos, carregados de dezenas de mergulhadores amadores, encostem em um mesmo fiorde, aproximando-se a apenas alguns metros dos cetáceos. "As autoridades norueguesas têm a intenção de estabelecer uma regulamentação" sobre a questão, diz Tore Haug.

"A observação de cetáceos é um bom meio para sensibilizar e educar a população sobre o que são esses animais e sua vida nos oceanos, mas os excessos podem provocar, em médio prazo, certo mal-estar", reconhece Latour, também guia naturalista.