Aniversário sem festa

Sob forte pressão da oposição, Venezuela chega a duas décadas de 'bolivarianismo'

CARACAS - No dia em que o chavismo completa duas décadas no poder na Venezuela, o país promete viver mais um episódio de instabilidade. Enquanto a oposição realiza manifestações buscando aumentar a pressão sobre o governo e sobre a União Europeia pela realização de "eleições livres", Maduro pretende ocupar Caracas com comemorações pelo aniversário da posse de Hugo Chávez.

Em 2 de fevereiro de 1999, Chávez assumia oficialmente o comando da Venezuela. Exaltando o "libertador" Simón Bolívar, o dirigente era incontestável. Vinte anos depois, Nicolás Maduro, seu sucessor, enfrenta uma forte resistência interna e, principalmente, externa, com diversos países não reconhecendo sua presidência e apoiando como "interino" o deputado opositor Juan Guaidó, que se autoproclamou chefe de Estado.

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Homem caminha em frente à mosaico retratando Hugo Chávez e Nicolás Maduro em Caracas (Foto: Juan Barreto/AFP)

Mesmo com grandes manifestações marcadas pelos opositores desde quarta-feira, o chavismo convocou a população às ruas hoje para comemorar os vinte anos "em revolução" e defender o legado de Chávez."Está chegando um fevereiro rebelde, anti-imperialista, de paz e avanços. Estamos em marcha até um novo processo, renovando conceitos e valores", afirmou Maduro.

O presidente, pressionado, não adota um tom festivo e afirma que o país passa por uma grande ameaça. "Estamos enfrentando a maior agressão contra a Venezuela em 200 anos. Um monte de governos oligárquicos e entreguistas pretendem se apoderar desse país e seus recursos", disse em exercício militar. O presidente classifica Guaidó como um "golpista" e diz que os Estados Unidos pretendem comandar uma intervenção militar no país.

Guaidó recua em intervenção

Em entrevista ao "Clarín", Guaidó, que já havia dito que "todas as opções estavam sob a mesa", recuou ontem sobre uma possível intervenção. "Com absoluta sinceridade, digo que espero que isso nunca aconteça. Nossa luta democrática e baseada na Constituição é muito difícil, mas acreditamos nela e queremos evitar um desfecho violento. No entanto, não vamos nos enganar, Maduro é uma ameaça pra Venezuela e para os países vizinhos", afirmou sem descartar completamente a hipótese.

O líder oposicionista diz que sua prioridade é a defesa da realização de eleições, mas esse processo deve ser comandado por um "governo de transição" comandado por ele, e não por Maduro. Um grupo de países europeus (França, Reino Unido, Espanha e Alemanha) deu um prazo que vai até domingo para que Maduro convoque eleições, senão reconhecerão Guaidó como encareregado da tarefa. As manifestações puxadas pelo parlamentar do Vontade Popular buscam evidenciar o fim do prazo e pressionar tanto Maduro quanto os europeus. "Todos nós devemos tomar as ruas na Venezuela e em todo o mundo com um objetivo claro: apoiar o ultimato dado pelos membros da União Europeia (UE). Vamos alcançar a maior marcha da Venezuela e da história do nosso continente", disse.

Na quinta-feira, a UE não encontrou consenso para definir apoio ao oposicionista e decidiu estabelecer um "grupo de contato" vislumbrando eleições, com a participação de países do bloco e da América Latina. O dirigente chavista não pensa em eleições gerais e diz que aceita apenas um processo eleitoral para o Legislativo, pois a votação presidencial "ocorreu em menos de um ano". A Assembleia Nacional, instância legislativa, é comandado pela oposição e reconhece Juan Guaidó.

As movimentações dos oposicionistas, no entanto, não parecem muito coesas. Henrique Capriles, candidato presidencial em 2012 e 2013, disse que os setores oposicionistas não esperavam a autoproclamação do dirigente da Vontade Popular. "Quando Guaidó toma posse na Assembleia Nacional, em 5 de janeiro, a posição da oposição venezuelana era de que ele não devia fazer o juramento como presidente. Considerava-se que isto poderia desencadear um confronto político e pensávamos que o governo poderia fechar a Assembleia. Chega o dia 23 de janeiro e ele faz o juramento como presidente interino. Não tínhamos a informação, surpreendeu muitos dirigentes. O efeito dominó no reconhecimento internacional também não era esperado", afirmou.

Apesar da controvérsia, Caprilles reafirma que toda a oposição está com Guaidó. "O passo que Guaidó deu, sem termos previsto, trouxe um processo de composição imediata interno da oposição, e deu mais uma esperança para o venezuelano", disse.