Londres anuncia planos sobre imigração pós-Brexit

O governo britânico divulgou seus planos, nesta quarta-feira (19), para reduzir a imigração da UE após o Brexit, algo que, segundo meios empresariais, seria um duro golpe para muitas companhias, já preocupadas com a possibilidade de um Brexit sem acordo.

O novo sistema migratório se baseará nas competências profissionais, e não na nacionalidade, pondo em pé de igualdade os trabalhadores comunitários e os extracomunitários, explicou o ministro do Interior, Sajid Javid, no Parlamento.

"No futuro, todo o mundo, exceto os cidadãos britânicos e irlandeses, terá que obter autorização do Reino Unido antes de poder vir", afirmou, ao apresentar o Livro Branco sobre Imigração.

A proposta inclui um sistema de trabalho temporário com vistos de um ano, independentemente do nível de formação dos trabalhadores, destinado a tranquilizar os setores que dependem de mão de obra não qualificada.

Durante sua estada, esses trabalhadores temporários não teriam direito a ajudas públicas, a levar familiares dependentes, nem a pedir a residência permanente.

"O futuro sistema consiste em assegurar que a imigração funcione no melhor interesse do Reino Unido", completou Javid, ressaltando que "reduziria a migração líquida anual a níveis mais sustentáveis".

Entre as medidas previstas, está impor vistos aos cidadãos da UE que chegarem ao Reino Unido depois que o país sair do bloco.

"Será um sistema que reduzirá a migração líquida a níveis mais sustentáveis", afirmou Javid, garantindo que não se estabeleceu um "objetivo específico" de redução, mas que pretende conseguir que as empresas "busquem primeiro mão de obra nacional".

O controle da imigração e, em particular, acabar com o princípio europeu de livre-circulação de pessoas foi um dos principais temas da campanha do Brexit durante o referendo de 2016. Nessa consulta, 52% dos eleitores britânicos foram favoráveis a deixar a UE.

Os efeitos do Brexit na imigração começaram a se notar pouco depois. Segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas, após alcançar níveis recordes em 2015, a imigração no Reino Unido caiu para 280.000 pessoas no ano passado.

 

A proposta do governo inclui ainda uma consulta sobre o nível salarial mínimo que deveria ser imposto para permitir aos trabalhadores se instalarem no Reino Unido.

Javid não estabeleceu um piso anual, mas sugeriu que poderia ser de "30.000 libras esterlinas (38.000 dólares) aproximadamente".

"As propostas esboçadas no Livro Branco não satisfazem as necessidades do Reino Unido e seriam um duro golpe para muitas empresas de todo país", criticou o subdiretor-geral da patronal CBI, Josh Hardie.

"Todos os níveis de qualificação são importantes para a economia. Um sistema temporário de 12 meses para trabalhadores estrangeiros com rendimentos inferiores a 30.000 libras estimularia as empresas a contratarem uma pessoa diferente a cada ano", lamentou.

Alguns setores dependem fortemente da mão de obra estrangeira, como o Serviço Nacional de Saúde.

Segundo dados oficiais, 63.000 do 1,2 milhão de empregados da saúde britânica procedem da UE (5,6%).

"Agora, o governo propõe medidas que causarão longas esperas em leitos, um grande número de operações será cancelado e as intermináveis filas para ser consultado por um médico se tornarão a nova norma", lamentou o trabalhista Ben Bradshaw, ex-secretário de Estado da Saúde.

Esta preocupação se soma à incerteza em que as empresas estão mergulhadas pela crescente possibilidade de que, frente à impossibilidade de ratificar um acordo com Bruxelas, o país se veja forçado a sair bruscamente da UE em 29 de março.

O governo britânico já decidiu acelerar seus preparativos para esta eventualidade, e a Comissão Europeia fez o mesmo nesta quarta, anunciando uma série de medidas nos setores mais expostos: serviços financeiros, transporte aéreo, aduanas e política climática.

Assim, os operadores europeus de mercados financeiros baseados em Londres poderão continuar operando durante 12 meses, mesmo período durante o qual serão mantidos certos voos entre a Grã-Bretanha e o continente europeu.

A Comissão ressaltou ainda a necessidade de aplicar controles aduaneiros nas fronteiras com o Reino Unido e adotou medidas para garantir o bom funcionamento do mercado europeu de cotas de emissão de gases causadores do efeito estufa.

acc/ra/tt/mvv