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Crise migratória sem precedentes sacode continente americano em 2018

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Com milhares de centro-americanos atravessando o México em caravanas rumo aos Estados Unidos e o êxodo maciço de venezuelanos que fogem da tensa situação política e econômica de seu país, o continente americano foi marcado em 2018 por uma crise migratória sem precedentes.

Às cenas de sírios ou africanos que tentam chegar à costa europeia se somaram neste ano as de centenas de centro-americanos na cidade mexicana de Tijuana, fronteiriça aos Estados Unidos, que foram repelidos com gases lacrimogêneos.

Estendendo a retórica contra a imigração que ressoa na Europa, o presidente Donald Trump chamou de "invasão" as caravanas, deslocou milhares de militares para contê-los e ameaçou fechar toda a fronteira com o México.

O governo americano chegou a separar menores que viajaram com seus pais para prendê-los em espécies de jaulas, gerando críticas em todo o mundo.

Para Dolores París Pombo, especialista em migração do Colégio da Fronteira Norte de Tijuana, é necessário atualizar os limites para o status de refugiado, que consideram essencialmente quem foge de perseguição por motivos políticos, de nacionalidade ou religião.

"Há um fluxo muito significativo de gente que migra em situações de emergência, por fatores relacionados entre si, como pobreza, violência, mudanças climáticas. Um especialista de Oxford a chama de 'migração de sobrevivência'", explica.

Cerca de 500.000 centro-americanos atravessam anualmente o México em busca do sonho americano, frequentemente em situação irregular.

Agora estão sob os holofotes. Milhares saíram em caravana, a maioria hondurenhos, incluindo famílias com crianças e mulheres grávidas. A multidão os protege de autoridades e delinquentes.

 

"O que eu mais poderia querer do que passar Natal lá, sob um teto, com a minha família?", disse Elvin Perdomo, hondurenho de 32 anos, olhando em direção aos Estados Unidos.

Ele é um dos mais de 5.000 centro-americanos que percorreram 4.300 quilômetros até Tijuana em uma caravana que saiu em 13 de outubro de San Pedro Sula, Honduras.

No dia 19 de novembro, a caravana, que chegou a somar 7.000 pessoas, derrubou as cercas de uma ponte fronteiriça e alguns migrantes se jogaram no rio Suchiate, entre México e Guatemala.

Elas levaram um mês para chegar a Tijuana, cidade limítrofe com os Estados Unidos.

Acolhidos em um abrigo, ignorando a burocracia da imigração, os decretos de Trump e a realidade por trás da fronteira, eles acreditavam nos rumores de que cruzando a fronteira conseguiriam o refúgio.

Em 25 de novembro, cerca de 1.000 integrantes da caravana realizaram em Tijuana uma manifestação pacífica, mas surpreendentemente, a metade escalou a enferrujada cerca fronteiriça. Subiram amontoados e algumas famílias fizeram malabarismos para atravessar seus filhos.

Em seguida, surgiu outra barreira, ameaçadora, com arame farpado. Em terra, o barulho das patrulhas americanas. No ar, helicópteros militares. Gases lacrimogêneos os surpreenderam. Recuaram assustados.

"Parecia que queriam nos matar", disse Flor Jiménez, hondurenha de 32 anos, que participou da tentativa de travessia em massa com o marido, com a irmã e com a filha.

Cerca de 40 migrantes cruzaram a fronteira, mas foram detidos por agentes americanos. O México prendeu e deportou 98 acusados de ações violentas.

O desânimo reinou. Alguns pediram regressar, muitos aceitam ofertas de trabalho e facilidades migratórias de México. Outros continuam cruzando, sozinhos ou em grupos pequenos.

No rastro desta gigantesca caravana vieram outras.

Entretanto, a ira de Trump já havia sido desatada em março com a Via Crúcis do Migrante, realizada há uma década para dar visibilidade ao calvário dos viajantes centro-americanos em terras mexicanas. Antes eram centenas. Este ano foram cerca de 1.500.

Trump protestou e ameaçou retirar os Estados Unidos da negociação de um novo acordo comercial com o México e o Canadá.

O México resolveu rapidamente: concedeu vistos migratórios e o grupo se dispersou. Alguns conseguiram pedir refúgio nos Estados Unidos.

 

Outro drama migratório acontece na América do Sul. O êxodo venezuelano é considerado pela ONU como o maior movimento em massa de população na história recente da América Latina: 2,3 milhões migraram desde 2015, principalmente para países sul-americanos, desatando tensões.

Escassez de alimentos e remédios, inflação de 1.350.000% para 2018 segundo o FMI e um estado permanente de confronto político são alguns dos motivos para que os venezuelanos decidam migrar.

Em 18 de agosto, em Pacaraima, cidade do estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, 1.200 venezuelanos foram violentamente expulsos de seus acampamentos.

Após rumores de que um comerciante local teria sido ferido depois de ser assaltado por venezuelanos, os moradores, furiosos, atearam fogo aos alojamentos improvisados.

Na Colômbia, há cerca de 1 milhão de venezuelanos e, segundo o embaixador de Bogotá na OEA, Alejandro Ordóñez, todos os dias entram em seu país 1.500 venezuelanos com a intenção de ficar.

"O volume do estado de vulnerabilidade e a velocidade que caracteriza essa dinâmica migratória não tem precedentes na história do hemisfério", advertiu Ordóñez.

"No momento em que descobri que seria pai, tive que ir à Colômbia para um futuro melhor", disse Alfonso Mendoza, 25 anos. Devido a uma doença congênita, ele não desenvolveu metade de seu corpo e sobrevive pedindo dinheiro em ônibus em Barranquilla, onde sua filha nasceu.

 

 

O Peru é o lar de cerca de 600.000 venezuelanos. A maioria entrou com carteira de identidade, mas desde novembro, Lima exige um passaporte, algo difícil de se conseguir na Venezuela devido aos custos e à falta de suprimentos.

No Equador vivem 300 mil e, embora o governo tenha tentado exigir um passaporte, um juiz suspendeu a medida.

Carmen Fuenmayor, educadora venezuelana de 57 anos, esteve no Equador por nove meses. Ele não suportava a altitude andina e eles a acharam "muito velha" para trabalhar, conta.

Ela retornou, recuperou seu trabalho e passará o natal sozinha, já que suas filhas continuam fora do país. "Essa é a vida delas e eu decidi que a minha está na Venezuela. Neste país, ajudamos uns aos outros", explica.

Alguns nicaraguenses, entretanto, também foram empurrados ao exílio. Desde que em abril eclodiram os protestos opositores ao presidente Daniel Ortega, reprimidas violentamente com centenas de mortos, pelo menos 23.000 buscam refúgio na Costa Rica.