A luta da Coreia do Sul para aumentar a natalidade

Quando Ashley Park começou a trabalhar no departamento de marketing de uma farmacêutica em Seul, tinha um histórico universitário quase perfeito, um inglês impecável e se dava bem com seus colegas, mas nada disso importou para sua empresa quando ela ficou grávida.

Nove meses depois de ser contratada, "me disseram na cara que na empresa não havia espaço para uma mulher com um filho, por isso eu tinha que ir embora", conta Park.

Então percebeu que todas as mulheres que trabalhavam na empresa eram solteiras ou sem filhos, e a maioria tinha menos de 40 anos.

O caso de Park é um exemplo de porque muitas mulheres sul-coreanas adiam o casamento e a maternidade, reduzindo ainda mais a taxa de natalidade do país, uma das mais baixas do mundo.

No início deste mês, o governo anunciou uma série de medidas para tentar inverter a tendência, mas os críticos consideram que terá pouco ou nenhum efeito devido às causas mais profundas do problema.

Muitas empresas sul-coreanas hesitam em contratar mães porque duvidam de seu compromisso com a companhia e temem que não estejam dispostas a cumprir as longas jornadas de trabalho que são comuns no país. Além disso, assim evitam ter de pagar a licença maternidade.

Quando Park se negou a pedir demissão, seu chefe a assediou sem parar e tentaram demitir seu marido, que trabalhava na mesma empresa.

Após seis meses de luta, acabou apresentando sua demissão um mês antes de dar à luz sua filha.

Desde então, Park não voltou a trabalhar fora de casa, exceto por um breve período em uma start-up de tecnologia que não cumpriu sua promessa de horários flexíveis.

Aos 27 anos, foi rejeitada em várias entrevistas de trabalho por ter uma filha e parou de procurar emprego para tentar abrir seu próprio negócio.

"O governo não para de dizer às mulheres que tenham mais filhos. Mas como, em um país como este?", questiona.

 

 

A taxa de fertilidade - o número de filhos que se espera que uma mulher tenha ao longo da vida - caiu para 0,95 no terceiro trimestre de 2018. É a primeira vez que a cifra é inferior a 1 e muito longe de 2,1, a taxa necessária para manter o equilíbrio demográfico.

O resultado desta "greve de nascimentos" é que a população da 11ª economia mundial, hoje de 51 milhões, deve começar a diminuir em 2028.

O fenômeno se explica, em parte, pelo alto custo da educação, pelo desemprego juvenil, pelas longas jornadas de trabalho e pela falta de creches.

Paralelamente, os valores patriarcais continuam muito arraigados na sociedade sul-coreana. Quase 85% dos homens apoiam a ideia de que as mulheres trabalhem, mas esta porcentagem diminui para 47% quando se trata de suas próprias esposas.

Além disso, as taxas de emprego de homens e mulheres continuam sendo muito diferentes (82% e 53%, respectivamente).

Para lidar com esta situação, o governo sul-coreano gastou o equivalente a 121 bilhões de dólares desde 2005 para impulsar a taxa de natalidade com várias campanhas, sem sucesso.

O governo anunciou este mês outra série de medidas, como o aumento para até 300.000 wons (270 dólares) do subsídio mensal por um filho e uma autorização para que os pais de crianças menores de oito anos trabalhem uma hora a menos por dia para cuidar delas.

Também serão criadas creches, e os homens poderão tirar dez dias de licença paternidade, embora não sejam obrigados, em vez dos três atuais.

Mas a maioria destas medidas não são vinculativas e as empresas que se recusarem a aplicá-las não serão sancionadas.

"As políticas do governo se baseiam no pressuposto simplista de que se damos dinheiro as pessoas terão mais filhos", apontou em um comunicado a Associação de Mulheres Trabalhadoras Coreanas.

Segundo a associação, o governo teria que abordar primeiro "a incessante discriminação de gênero no trabalho e a dupla carga do trabalho e das tarefas domésticas" para as mulheres.

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