Protestos na Europa marcam fim de ano em Portugal, França, Hungria e Espanha

Às vésperas da chegada do inverno no Hemisfério Norte, os ventos que sopram pela Europa parecem levar as sementes da insatisfação popular. As manifestações dos coletes amarelos na França, que tomaram as ruas do país por quatro semanas consecutivas, monopolizaram as manchetes pela perplexidade da violência nas ruas e a força de um movimento de agenda dispersa e antissistema. Depois de perder força no último sábado, os reflexos da onda francesa começam a atravessar a Península Ibérica na direção de Portugal, após inspirar protestos tímidos na Espanha. Na Hungria, uma controversa legislação trabalhista também levou milhares de pessoas às ruas.

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Manifestantes de várias matizes políticas marcham contra lei trabalhista com bandeiras da Hungria na capital, Budapeste, no último domingo (Foto: Peter Kohalmi/AFP)

A atividade sísmica na política europeia deve influenciar o debate das eleições do Parlamento Europeu, em maio, e deixa na atmosfera do velho continente a inconformidade com o establishment político, a alta de impostos e o encarecimento do custo de vida, capitalizada por partidos à direita e à esquerda. A expectativa, agora, é se o primeiro pleito desde o referendo do Brexit e da eleição de Donald Trump e Jair Bolsonaro, símbolos da onda populista mundial, será afetado pelos protestos caso se estendam pelo próximo ano.

França tenta virar a página

Dois dias depois de ver a multidão dos coletes amarelos ser reduzida pela mertade em comparação aos protestos das últimas três semanas, o governo de Emmanuel Macron nna figura de seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, pediu para que os manifestantes desocupem várias rodovias em todo o país, enquanto ativistas temem uma retirada à força.

Depois de ceder às demandas do movimento ao cancelar o aumento do preço de combustíveis em 2019 e das taxas de gás durante o inverno e aumentar o salário mínimo em 100 euros, Macron trabalha para reunir representantes da área econômica e autoridades do seu governo para discutir em um “debate nacional” saídas para contornar a crise.

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Coletes amarelos ainda ocupam rodovias francesas, apesar de esvaziamento no último sábado (Foto: Jean-Francois Monier/AFP)

Portugal terá ‘coletes lusitanos’

Em Portugal, inspirados nas mobilizações da França, os portugueses prometem parar o país com uma manifestação que já alarma autoridades lusitanas. Ontem, a Polícia de Segurança Pública (PSP) emitiu um comunicado na qual solicita à imprensa a divulgação das normas que regularizam protestos no país, como a comunicação ao governo com dois dias de antecedência pelas lideranças do ato.

A PSP também apelou para que os cidadãos “que decidirem exercer seu direito de protestar, que o façam de maneira pacífica e respeitando a lei”, atentos aos episódios violentos nas ruas francesas. Protestos devem tomar as ruas em várias cidades, incluindo a capital, Lisboa, além de Coimbra, Braga, Aveiro e Porto. A instituição, que espera por um movimento de “grandes dimensões”, suspendeu as folgas dos policiais no próximo sábado.

Organizados virtualmente, como no grupo de Facebook “Vamos parar Portugal como forma de protesto”, que até ontem somava 14 mil membros, os manifestantes defendem pautas similares às dos franceses, como a redução de impostos e do preço de combustível, aumentos no salário mínimo e melhorias nos serviços públicos. No fórum, usuários divulgam fotos de coletes amarelos à mostra dentro de carros, defendem o fechamento de vias e denunciam supostas censuras da rede social.

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Cartaz produzido por ativistas portugueses convoca para manifestação no próximo sábado (Foto: Reprodução Facebook)

Reflexos tímidos na Espanha

No último sábado, os “chalecos amarillos” espanhóis também foram às ruas em mais de 200 cidades da Espanha, embora a adesão tenha sido bem menos expressiva do que na França ou Hungria. A insatisfação com o sistema previdenciário e a corrupção envolvendo figuras das principais legendas do país foram algumas das tônicas do movimento, que pode viver um efeito rebote a depender da repercussão dos eventos em Portugal.

Hungria reage a ‘lei escravocrata’

A aprovação de uma lei trabalhista que permite empregadores a cobrança de 400 horas extras dos seus funcionários, o equivalente a dois meses de trabalho, a serem pagas em até três anos conseguiu o improvável na Hungria, liderada sob as mãos de ferro do primeiro-ministro Viktor Orbán, acusado dentro e fora da Europa de conduzir um governo de forte viés autoritário: unir toda a oposição ao premiê, da extrema-esquerda à extrema-direita, nas ruas de Budapeste contra a legislação que ganhou a pecha de “escravocrata”. Orbán, por sua vez, defende a mudança como um incremento da renda dos trabalhadores.

Ontem, ampliando a pressão sobre o governo, deputados da oposição invadiram a sede da TV estatal húngara “MTVA” exigindo que a emissora divulgue suas reivindicações. Eles acusam o premiê de censurá-los.

No último domingo, após quatro dias consecutivos de protestos, 15 mil pessoas se reuniram na capital. É a primeira vez que Orbán é alvo de protestos tão expressivos desde que voltou ao poder, em 2010. Os manifestantes também se opuseram a uma lei que pode comprometer a independência do Judiciário e pediram por mais democracia no país.



Manifestantes de várias matizes políticas marcham contra lei trabalhista com bandeiras da Hungria na capital, Budapeste, no último domingo
Coletes amarelos ainda ocupam rodovias francesas, apesar de esvaziamento no último sábado
Cartaz produzido por ativistas portugueses convoca para manifestação no próximo sábado