Oposição britânica lança moção de censura contra May

O chefe da oposição no Parlamento britânico, Jeremy Corbyn, apresentou nesta segunda-feira (17) uma moção de censura contra a primeira-ministra, Theresa May, após sua recusa em convocar uma votação dos deputados sobre o Brexit antes de janeiro.

É o governo que decide permitir ou não a organização de um debate e uma votação sobre uma moção como essa. Se for adotada, não seria legalmente vinculante para Theresa May, mas refletiria mais uma vez sua posição instável.

"É inaceitável que esperemos quase um mês antes de votarmos sobre a questão crucial do futuro de nosso país", disse o líder da oposição, referindo-se à decisão de May de adiar a votação sobre o acordo do Brexit para a terceira semana de janeiro.

"Como é a única maneira que vejo para organizar esta votação esta semana, vou apresentar uma moção intitulada 'Esta Câmara não confia na sua primeira-ministra'", acrescentou.

Se o governo se recusar a debater essa moção, Jeremy Corbyn poderia apresentar uma moção contra todo o governo, um processo capaz de desencadear a organização de novas eleições legislativas.

Durante o debate parlamentar do dia, o líder trabalhista avaliou que Theresa May "falhou" em sua tentativa de "renegociar" e que não poderia haver "mais atrasos" na ratificação do acordo de retirada assinado por Londres e Bruxelas, após 17 meses de negociações difíceis.

A Câmara dos Comuns deveria ter votado em 11 de dezembro sobre o texto de 585 páginas acordado em novembro entre a primeira-ministra e os 27 sócios europeus. Diante de uma evidente derrota, porém, May cancelou a sessão de ratificação um dia antes e a adiou para janeiro, para voltar a conversar com os líderes europeus.

Na cúpula da semana passada em Bruxelas, seus colegas reiteraram a impossibilidade de uma nova negociação, mas a primeira-ministra disse que continuaria as negociações em busca de "garantias" para tranquilizar o Parlamento. Neste segunda-feira, sua porta-voz afirmou que os contatos continuam "em todos os níveis".

Essa informação, no entanto, foi negada pela porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas: "O Conselho Europeu deu os esclarecimentos que poderiam ser entregues nesta fase, portanto, não há nova reunião planejada com o Reino Unido".

Neste contexto, cada vez mais vozes apelam a um segundo referendo que permita à população votar, conhecendo agora as condições e consequências da saída da UE.

 

Mas a premiê disse segunda-feira perante os deputados que a realização de uma segunda consulta causaria um "dano irreparável" à legitimidade política.

"Não vamos quebrar a fé do povo britânico ao tentar organizar outro referendo sobre o Brexit", declarou May aos parlamentares esta tarde.

"Outra votação... provocaria um dano irreparável à integridade da nossa política", argumentou May diante do crescente apoio à ideia e à ampla rejeição parlamentar ao acordo do Brexit estabelecido com Bruxelas.

De acordo com a imprensa britânica, vários membros do governo, entre eles o número 2 da Downing Street, David Lidington, estão se movendo nessa direção nos bastidores.

Já o ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007) afirmou na sexta-feira que, se os deputados "não conseguem chegar a um acordo, a lógica é voltar a dar a voz ao povo".

O comentário foi mal recebido por May, que nesta segunda-feira pretende destacar aos parlamentares que um segundo referendo "dividiria o nosso país justamente no momento em que deveríamos trabalhar pela união".

"A primeira-ministra tenta descartar a consulta popular porque a cada dia ela é mais provável", disse Amanda Chetwynd-Cowieson, cofundadora do movimento estudantil For Our Future's Sake ("em nome do nosso futuro").

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