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UE enfrenta uma nova tempestade sem capitão no comando

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O enfraquecimento do presidente francês Emmanuel Macron e a saída da alemã Angela Merkel levam a União Europeia (UE) a um novo período de turbulências que, unido ao Brexit e ao avanço populista, anunciam um 2019 "crucial" para o projeto europeu.

"2019 será um ano crucial, com desafios enormes", diz o britânico Jonathan Faull, ex-diretor-geral da Comissão Europeia e responsável para Europa da empresa de consultoria de comunicação estratégica Brunswick.

O Reino Unido vai se tornar em 29 de março o primeiro país a abandonar o projeto europeu em seis décadas de história, em um momento em que as eleições europeias de maio se transformaram em uma luta entre pró-europeus e populistas, com a imigração como pano de fundo.

Para Faull, "é preciso gerenciar o Brexit, o aumento do populismo e suas causas, a saída de Merkel e, tudo isso, sem saber se Macron vai conseguir recuperar o controle na gestão da França". "Isso leva a muitas perguntas", diz o consultor.

Com os duros anos de crise econômica ficando para trás, a UE enfrenta agora uma profunda crise política, já que "é atacada de dentro, em seus fundamentos, e ameaça desmoronar", disse em entrevista à AFP o representante de um país da UE, preocupado com o renascimento da extrema-direita.

Ele diz que Merkel deve "refletir cuidadosamente", já que "poucos dirigentes podem reconduzir a situação". "Macron tem problemas e o resto vai mal", alerta o diplomata, para quem a Europa se manteve firme nas crise pelas liderança conjunto de França e Alemanha.

 

 

No entanto, a outrora influente chanceler alemã não é tão poderosa como antes. A gestão da crise de refugiados (2015-2017) mediante um sistema de cotas, defendida por Merkel, foi um "grande erro político", assegura outro diplomata. E isso custo caro.

A oposição dentro de seu próprio partido, a CDU (União Democrata Cristã), a obrigou a se afastar. Merkel deseja continuar até o final de seu mandato, em 2021, mas seu partido poderia empurrá-la porta afora. Faull não descarta possíveis eleições alemãs na primavera com resultado "incerto".

A saída da dirigente alemã enfraqueceria ainda mais o presidente francês, que enfrenta uma contestação em seu país, em seu objetivo de dar um novo impulso à UE. Sua vontade de encarnar o europeísmo nas eleições continentais custou ao presidente muitos de seus apoios.

O confronto dos populistas, com o dirigente húngaro Viktor Orban na liderança, e europeístas é, no entanto, "uma visão redutora da Europa", critica Joseph Daul, presidente do Partido Popular Europeu (PPE, direita) que apoia tanto o partido de Merkel como o do dirigente húngaro.

"A vontade de Macron de fazer uma refundação europeia não se materializou fora da França", diz o analista holandês Luuk van Middelaar, colaborador próximo do ex-presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy, em seu texto "Quando a Europa improvisa".

Frente à ideia de Europa defendida por Macron, o número de adversários aumenta. Além de Orban, os dirigentes abertamente "não-liberais" governam na Polônia e na Romênia, e a extrema-direita integra os Executivos de coalizão na Itália e na Áustria.

A gestão da crise migratória dividiu o bloco, como mostra a recusa de sete países europeus em assinar o pacto da ONU sobre migração, e impulsionou os populistas. As eleições europeias de maio servirão como termômetro de seu peso no bloco.

"Devemos evitar que a Europa fique sob a influência de quem quer destruí-la", alerta o chanceler de Luxemburgo, Jean Asselborn, um temor que não divide com o ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta, que vê como difícil um entendimento entre populistas.

O agora presidente do Instituto Jacques Delors, que diz "não negar o perigo", aponta que se escuta "um grande temor se expressar em todas as partes", mas "nem todos vão na direção equivocada". "Quando os populistas são colocados à prova, recuam".

"A União Europeia não está a ponto de se desintegrar. Os partidários do Brexit no Reino Unido e os populistas na Itália compreenderam isso", diz Letta.

Jonathan Faull pede que, apesar disso, todos evitem a complacência com um otimismo cego, mas tampouco com a queda, ao constatar que "a União se manteve unida frente ao Brexit, as instituições funcionam e ninguém quer abandonar o euro".

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