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Cravos de defunto florescem no México para o Dia dos Mortos

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Uma imensidão de flores de cor laranja enfeitam a paisagem e desprende seu intenso aroma aos pés do vulcão Popocatépetl.

Herdando o misticismo de tempos pré-hispânicos, os cravos-de-defunto (cempasúchil, em espanhol) formam uma espécie de tapete que guia as almas até o México no chamado Día de Los Muertos.

O país produz todos os anos milhares de toneladas dessa flor simbólica, protagonista das oferendas que os mexicanos preparam nos dias 1 e 2 de novembro, clímax da tradicional festa que celebra seus mortos.

Macaque in the trees
A peasant harvests cempasuchil (Mexican marigold) flowers at cultivation fields near Cholula, in Puebla state, Mexico, on October 26, 2018. - The Cempasuchil flower is used in Mexico to celebrate the Day of the Dead by making paths of petals to guide souls to altars set up for them to enjoy the pleasures they had in life. (Photo by Yemeli ORTEGA / AFP) (Foto: Yemeli ORTEGA / AFP)

"Um altar sem cravos-de-defunto não é uma oferenda!", exclama Yessica Ponte, 28 anos, que carrega um buquê da flor que colheu em Nealtican, uma localidade de Puebla dominada pelos vulcões Popocatépetl e Iztaccíhuatl.

As oferendas podem ser modestas ou suntuosas, mas em todas estão as flores alaranjadas, enfeitando os retratos dos entes queridos já falecidos.

Assim como velas brancas, pequenas caveiras de açúcar e chocolate e o doce "pão de morto", entre outros manjares que os falecidos apreciavam em vida.

Segundo as crenças, as pétalas dos cravos-de-defunto - que vão do amarelo intenso, passando pelo alaranjado até o rosa profundo - guardam o calor do sol e representam o divino.

Seu nome em espanhol vem do náhuatl Cempohualxochitl: "cempohuali" significa vinte e "xochitl" flores, ou seja, "vinte flores".

Os mexicanos antigos as usavam para decorar altares e enterros, para cobrir o rosto dos prisioneiros antes do sacrifício, ou mesmo como remédio contra algumas doenças.

O cravo-de-defunto é cultivado em 14 estados do México, mas Puebla encabeça a produção com 11.500 toneladas anuais, segundo cifras oficiais de 2017.

A colheita nacional do ano passado gerou um valor de produção de mais de 2,7 milhões de dólares.

A flor protagoniza uma conhecida história de amor entre as lendas náhuatl.

Xóchitl e o guerreiro Huitzilin juraram amor eterno, além da morte, na montanha dedicada a Tonatiuh, deus do Sol.

Mas Huitzilin morreu em combate e, devastada, Xóchitl pediu aos deuses que também a levassem para o mundo dos mortos.

Assim, Tonatiuh deixou cair seus raios sobre a jovem transformando-a numa flor de amarelo intenso, como a lus do Sol. Sobre ela posou um colibri - a reencarnação de Huitzilin -, abrindo suas pétalas e liberando seu aroma.

Segundo a lenda, seu amor viverá enquanto houver cravos-de-defunto e colibris nos campos.

No mundo moderno, esta flor é usada como um inseticida ou como um corante para o alimento das galinhas, para que os ovos fiquem mais amarelos.

Na gastronomia, é utilizada em sopas cremosas e, na medicina, contra problemas digestivos, respiratórios e febre.

"Estudos farmacológicos mostram que tem propriedades bactericidas", diz a bióloga Lizandra Salazar, diretora do jardim etnobotânico do Instituto Nacional de Antropologia e História de Morelos.

Para Carmen Félix, uma curandeira de 78 anos, a ciência e a mitologia não estão separadas.

"O amor eterno de Xóchitl, materializado na flor, nos cura de doenças porque todas as doenças vêm de uma tristeza ou um susto, e essas coisas só o amor cura", diz a idosa senhora, tirando as pétalas aromáticas de seus cravos-de-defunto.

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