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Eleições definirão horizonte de Trump

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER*, johanns.eller@jb.com.br

A pouco mais de duas semanas para as eleições legislativas nos Estados Unidos, previstas para o dia 6 de novembro, o presidente Donald Trump vive o melhor mês desde que tomou posse para o cargo mais poderoso do mundo, em janeiro de 2017, diante de incertezas pela sua inexperiência. Com a economia galopante e sucessivas vitórias no parlamento, os ventos parecem soprar a favor do republicano, que depende do controle de pelo menos uma das casas do Congresso para garantir a estabilidade de seu governo até as eleições de 2020.

As chamadas “midterms” ocorrem na metade do mandato presidencial e renovam as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, que equivale à Câmara dos Deputados no Brasil, e 33 das 100 cadeiras do Senado. A nível estadual, 6.665 cargos serão disputados, além de milhares a nível municipal. Americanos de 36 estados também elegerão governadores. As eleições são determinantes para a governabilidade, além de servirem como um termômetro da avaliação do ocupante da Casa Branca, apesar do histórico de baixo comparecimento.

Há 21 meses no poder, Trump tem uma das melhores avaliações se comparado a outros presidentes no mesmo período. A administração do empresário é aprovada por 44% dos americanos, índice maior do que Ronald Reagan (42%) e Bill Clinton (41%), mas ainda abaixo do antecessor Barack Obama (46%), segundo o instituto Gallup. Por outro lado, ele é o único dirigente desde a Segunda Guerra que não atingiu a faixa dos 50% em nenhum momento do mandato, refletindo a polarização do ambiente político.

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Composição partidária do Capitólio nos próximos anos terá forte influência na administração de Donald Trump, que iniciou sua campanha de reeleição para 2020 em março deste ano (Foto: Nicholas Kamm/ AFP)

Desemprego mais baixo em décadas

As divisões ideológicas entre azuis (democratas) e vermelhos (republicanos) acabam em segundo plano se as recentes vitórias do presidente forem analisadas friamente. Na economia, o desemprego é o mais baixo desde 1969, o crescimento do PIB foi o mais alto em quatro anos e o acordo do Nafta foi renegociado com o México e o Canadá em benefício das empresas americanas. No campo político, Trump garantiu a nomeação de Brett Kavanaugh para a Suprema Corte a despeito de três acusações de abuso sexual contra o magistrado, garantindo uma maioria conservadora no tribunal até pelo menos 2050. O dirigente parece ter desviado das previsões pessimistas que indicavam uma derrota clara dos republicanos nas eleições legislativas, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Iri/Puc-Rio), Kai Michael Kenkel, a tendência é que o presidente aproveite a agenda positiva e intensifique a campanha na reta final. “Trump teve momentos que pôde vender como positivos. Na medida em que a eleição se aproxima, há um esforço maior dele para influenciar o eleitor em cima da hora e com mais intensidade. Já os democratas tendem a fazê-lo com antecedência”, explica Kenkel.

Pedidos de impeachment

O controle de pelo menos uma das Casas é estratégico para Trump, que nos últimos meses observou o avanço das investigações do procurador especial Robert Mueller acerca da interferência russa nas eleições presidenciais americanas a favor do republicano, que implicou diversas figuras ligadas ao presidente, incluindo o chefe de sua campanha, Paul Manafort. Mueller trabalha com a hipótese de um conluio entre o Kremlin e o candidato.

O Partido Republicano agiu em defesa do chefe da Casa Branca e vetou qualquer tentativa de investigação aprofundada por parte dos democratas no Congresso. Caso a oposição retome a maioria na Câmara, é provável que pedidos de inquérito e até mesmo de impeachment prosperem no plenário.

No entanto, Kenkel não acredita na chamada “onda azul”. “A maioria republicana vai encolher, mas é preciso lembrar que nas primárias do Partido Democrata, os eleitores escolheram candidatos mais à esquerda, enquanto os republicanos têm conquistado o centro”, explica o professor, lembrando o embate interno entre Hillary Clinton, candidata mais ao centro, e Bernie Sanders, consagrado como um democrata socialista e antiestablishment em 2016.

“Teria sido estratégico se tivessem se organizado melhor nos últimos dois anos. Os democratas não conseguem achar uma resposta para a narrativa de Trump. Eles criticam republicanos, mas não necessariamente conseguem ganhar eleitores com isso”, diz Kenkel, elencando outro fator que favorece o partido do presidente nos estados controlados historicamente pela legenda: o fenômeno “voter suppression” (supressão de votos). “A exclusão de um grande número de eleitores de seções eleitorais com entraves burocráticos tem ajudado os republicanos a manter a maioria. Isso ocorre, por exemplo, com a exigência de documentações ou prazos mais difíceis para determinados setores mais pobres da população, o que atinge de forma desproporcional quem vota mais tradicionalmente nos democratas”, explica o professor da PUC.

Protagonismo feminino

Já o advogado e mestrando em relações internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Manoel Alencar, acredita que os democratas serão capazes de retomar a Câmara. “Movimentos como o #MeToo e o #NovemberisComing parecem ter animado mulheres e demais ativistas de direitos humanos a se mobilizarem para comparecer às urnas e dar uma resposta aos republicanos, especialmente no Senado, onde ocorreu a confirmação de Kavanaugh”, afirma. “Por outro lado, parece ter também energizado os republicanos a irem à batalha do convencimento para que seus apoiadores votem”. Apesar de reconhecer o protagonismo feminino na eleição, Alencar acredita que o eleitor poder se guiar por outro caminho: “Acredito que dados como índice de emprego serão mais relevantes, o que a imprime uma feição plebiscitária do governo”, conclui.

Apesar do bom momento, Trump não colecionou apenas êxitos às vésperas das eleições. Enquanto a nomeação de Kavanaugh refletiu no ânimo de alas conservadoras em estados republicanos, no fenômeno conhecido como “Onda Brett”, o comportamento do presidente diante do escrutínio público do magistrado e de sua principal acusadora, a professora universitária Christine Blasey Ford, aumentou sua rejeição entre mulheres. Em um comício no estado de Mississippi, Trump debochou do relato emocionado de Ford sobre a suposta tentativa de estupro sofrida no início da década de 1980, cometida pelo juiz e por um amigo.

Outro episódio que pode prejudicar substancialmente o presidente durante e após a disputa é o fantasma da interferência estrangeira, que também ronda o pleito de novembro. Na última sexta-feira, uma cidadã russa identificada como Elena Alekseevna Jusyaynova se tornou a primeira pessoa denunciada pelo Departamento de Justiça americano por conspirar contra as eleições legislativas. Em agosto, o diretor da inteligência americana, Dan Coats, e o diretor do FBI, Chris Wray, alertaram para os esforços contínuos em minar a democracia nos EUA. Caso a tendência seja confirmada, o fenômeno deve assumir a frente do debate público americano até as eleições de 2020. Recentemente, as autoridades do país, incluindo Trump, acusaram também a China, a Coreia do Norte e o Irã de intervenções políticas.



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