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Internacional

Brasil fecha ciclo eleitoral

Urnas definirão o sexto presidente eleito na América Latina em 2018 após maratona política

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER*, johanns.eller@jb.com.br

Mais de 140 milhões de eleitores estão habilitados a votar hoje para decidir o próximo presidente do Brasil, escolha que pode depender de um segundo turno no próximo dia 28, tendência reforçada pelos institutos de pesquisa. A eleição presidencial brasileira fecha um ciclo eleitoral na América Latina, que, ao longo de 2018, assistiu a eleições em Costa Rica, Paraguai, Colômbia, Venezuela e México, ao mesmo passo em que abre caminho para disputas na Argentina, Bolívia, El Salvador, Guatemala e Panamá em 2019.

Desde abril, quando os costarriquenhos foram às urnas e elegeram o progressista Carlos Alvarado, o continente assistiu à vitória de outros três novos chefes de Estado - o conservador colorado Mario Abdo foi eleito no Paraguai com uma margem estreita; Iván Duque puxou a Colômbia para a direita nacionalista, com o retorno do uribismo e a promessa da renegociação dos acordos de paz com as Farc; e, no México, Andrés Manuel López Obrador cristalizou uma vitória inédita para a esquerda latino-americana. Não fugiram do previsível as disputas em Cuba, onde o Partido Comunista confirmou Miguel Díaz-Canel como sucessor dos irmãos Castro, e na Venezuela, onde Nicolás Maduro se reelegeu em um pleito questionado internacionalmente.

Para o coordenador da pós-graduação de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Thiago Rodrigues, a definição do futuro presidente do Brasil servirá como leme para a política regional. “Aos olhos da América Latina, a eleição no Brasil é vista com enorme ansiedade, pois somos encarados como uma espécie de maestro que dá os rumos, que indica o tempo da música”, explica o professor, que está lecionando na Colômbia. “Há aqui e no resto do continente uma preocupação muito grande com os rumos do Brasil, com a aceitação óbvia de que a maior economia da América Latina vive um momento sem rumo. O Brasil sem rumo é visto como um problema para o futuro da região”, avalia.

As campanhas eleitorais ao longo deste ano nos países da região se assemelham à conjuntura brasileira pela polarização política e a disputa entre rejeições, segundo o acadêmico. “As pessoas têm votado menos em quem acreditam e mais para evitar que a pessoa rejeitada vença. Não dá para falar em uma disputa tradicional entre esquerda e direita, mas entre campos progressistas e conservadores nos costumes, ao invés das tradicionais vinculações político-partidárias. Isso se vê em todos os lugares da América Latina. O ciclo eleitoral foi conservador”, diz Rodrigues.

Mas para o professor da UFF e doutorando em Ciência Política Danillo Bragança a eleição mexicana foi o grande destaque do processo. “O caso do México é emblemático por ser uma ruptura gigantesca. Após 80 anos de domínio do Partido Revolucionário Institucional, que se submeteu às políticas dos Estados Unidos e alimentou a guerra às drogas, Obrador foi eleito com uma larguíssima folga. Além da margem alta na disputa presidencial, seu partido também teve maioria tanto no Congresso quanto nos departamentos (equivalentes aos estados), o que garante a ele um poder de barganha bem grande”, afirma.

O resultado da disputa presidencial no Brasil lançará uma forte mensagem para um novo ciclo eleitoral no continente em 2019. Três países vizinhos e com fortes relações com Brasília também irão às urnas para decidir seu próximo presidente - Argentina, Bolívia e Uruguai -, além de nações com menor impacto na América do Sul, como El Salvador, Guatemala e Panamá. Para Rodrigues, o pleito uruguaio deve ser o mais tranquilo. “O Uruguai tem seguido uma linha sólida a partir de José Mujica e Tabaré Vázquez. É possível que seja o menos conturbado”, pondera.

O professor, no entanto, antevê tempestades no horizonte do Rio da Prata. Na Argentina, a alternância entre ciclos neoliberais e nacional-desenvolvimentistas deve se repetir com a derrocada da política econômica de Mauricio Macri: “A atual situação de crise e a incapacidade do governo de Macri em dar respostas convincentes enfraquece esse pêndulo liberal, e pode rapidamente reacender a oposição mais aguerrida, muito presente nas ruas, como na mobilização pela descriminalização do aborto”. Indagado sobre a possibilidade da volta do kirchnerismo ao poder, o acadêmico afirma: “O peronismo na Argentina vai de Carlos Menem até o casal Kirchner. É uma colcha de retalhos de várias tendências. Uma eventual prisão ou impedimento de Cristina Kirchner como candidata pode levar a uma cópia do modelo de Lula, ou seja, a indicação de um substituto”.

O cenário na Bolívia é o mais incerto. Em 2016, a população se posicionou de forma contrária, em um referendo apertado, à possibilidade de reeleição do presidente Evo Morales para um quarto mandato. O dirigente de origem indígena, no entanto, recebeu autorização da justiça eleitoral para disputar as eleições. “O ciclo de Evo entra em uma fase muito difícil. Ele tem passado por derrotas eleitorais e dificuldades parlamentares, perda de apoio em bases eleitorais, seja de cocaleros ou outros campos sindicais, além do questionamento das classes médias em relação ao seu projeto de país”, disse Rodrigues.

Bragança, por sua vez, acredita que os problemas domésticos terão reflexos geopolíticos: “Depois da Venezuela, a Bolívia deve passar por um ciclo de questionamento democrático nos próximos meses por causa da crise de popularidade do Evo”. O professor também ressaltou que uma eventual onda de direita na América Latina, incluindo o Brasil, poderia levar a pressões diplomáticas e econômicas contra o governo de Morales e ao isolamento do país no âmbito regional.

O professor, por outro lado, acredita que o presidente boliviano levará a melhor nas urnas sem grandes problemas. “Evo deve ganhar com certa tranquilidade as eleições. Ele tem o respaldo das camadas mais pobres da sociedade e será tão longevo quanto a alemã Angela Merkel. A diferença é que, na Alemanha, isso não é apontado como um problema para as liberdades democráticas”, opina Bragança.



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