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Internacional

Embaixador da UE no Brasil vê onda antissistema no mundo, mas elogia instituições brasileiras

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER*, johanns.eller@jb.com.br

O embaixador da União Europeia (UE) no Brasil, o português João Gomes Cravinho, avalia que o mundo vive uma crise da diplomacia representativa e o Brasil, a uma semana das eleições, não está de fora. No cargo desde 2015, o diplomata também alertou para o fenômeno global dos salvadores da pátria, que iludem eleitores insatisfeitos com o sistema. Ele reconhece a complexidade dos desafios enfrentados pela UE, mas afirma que a crise migratória no velho continente está superada.

Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL durante a 15ª Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana, organizada pela Konrad Adenauer em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Delegação da UE no Brasil, Cravinho se disse ambicioso quanto ao potencial das relações entre o bloco e os brasileiros. Ele defende uma parceria estratégica em contraponto aos extremismos dentro e fora da Europa.

A UE vive tensões em diversas questões: migração, Brexit, economia. Como superar esses desafios?

Nós efetivamente enfrentamos desafios muito complicados, como o Brexit, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, que trouxe uma abordagem completamente diferente por parte da administração americana, e o próprio fluxo migratório. Mas acho que quem tem uma visão apocalíptica não está muito atento à realidade europeia, que, nos últimos dois anos, tem sido de uma união muito maior do que muitos esperavam. A migração é um tema complicado, mas é uma questão entre muitas. A ênfase nesse tópico como a única questão que determinaria o futuro da UE é completamente enganador. Temos visões diferentes dentro da UE e não há por que disfarçá-lo. A posição da Comissão Europeia é que, em primeiro lugar, nós temos obrigações humanitárias. Se identificam tensões, sim, pois não é fácil absorver de um momento para o outro dois milhões de pessoas. Hoje em dia o fluxo é muito pequeno. Já não existe crise migratória na Europa. Existe uma crise de gestão política. É uma crise nossa, europeia, feita por políticos e líderes europeus, e esse desafio compete a nós resolvermos. É um trabalho que está sendo feito através de debates mais ou menos contínuos a vários níveis, como altos funcionários, ministros, chefes de Estado e de governo. Praticamente não há mês nenhum em que não se reúna um desses níveis para avançar. São mecanismos imperfeitos que demonstram bastante progresso e que permitirão melhorias nos próximos dois ou três anos. A leitura de que isso é um grande problema, sem deixar de ter uma semente de razão, exagera e distorce a realidade da questão migratória da Europa.

Se a crise migratória está superada, o euroceticismo é impulsionado pela questão econômica?

Eu acho que nós vivemos uma crise da democracia representativa. Na Europa, uma das manifestações dessa crise tende a ser o euroceticismo. Desde a votação do Brexit, em 2016, caiu em todos os países a proporção daqueles que querem sair da UE, que nunca foi muito grande na maioria das nações. Portanto, o Brexit funcionou como uma espécie de vacina. Agora, há um problema de fundo nas democracias. Existe um ceticismo na Europa, que é o euroceticismo, e no Brasil também, de outra forma.

E como isso se expressa?

Por todo o lado vamos encontrar no nosso eleitorado raiva e vontade de dar um grande pontapé no sistema - muitas vezes sem qualquer ideia desenvolvida ou estruturada do que possa ser alguma alternativa. E isso não é de forma alguma exclusivo à Europa. Vimos isso nos EUA e agora estamos vendo no processo eleitoral no Brasil e em muitas partes do mundo. Onde há democracia hoje, com poucas exceções, há frustração, e creio que tenha a ver com as interligações que resultam da globalização, fazendo com que países tenham cada vez menos capacidade de desenvolver suas respostas soberanas e autônomas. Com isso, as preocupações dos cidadãos são cada vez menos respondidas pelos governantes. O cidadão sente que precisa dar um grito dizendo “eu estou aqui e vocês não estão correspondendo”, muitas vezes de forma inarticulada. Em política, a emoção conta muito. Quando se pergunta aos eurocéticos quais aspectos em particular eles não gostam, há muita dificuldade em entender. Mesmo entre as legendas que têm um discurso completamente antieuropeu, como é o caso do partido de Marine Le Pen [Frente Nacional], na França, e o de Matteo Salvini [Liga], na Itália, que agora está no governo. Esses partidos não ousam dizer que querem sair do Euro, muito menos da UE. Falam mal, mas não arriscam, porque sabem que são propostas que o eleitorado não vai tolerar. É muito mais fácil e produtivo terem um discurso genérico antieuropeu sem avançar com qualquer tipo de alternativa.

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João Gomes Cravinho (Foto: Jornal do Brasil)

Qual é a saída para superar a crise na democracia representativa?

Não é uma resposta europeia que precisa ser dada, é uma resposta que precisa ser dada pelos agentes políticos por todo o lado. Tem de saber responder aos anseios das populações com honestidade. Estive lendo uma carta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aos brasileiros sobre as eleições, e ele chama a atenção para um problema. Existem muitos daqueles que chamamos na gíria portuguesa de “vendedores de banha da cobra”: pessoas que têm solução para tudo mas que, na realidade, não se baseiam em qualquer tipo de análise da realidade. São salvadores da pátria, que prometem tudo a todos, e essa degradação da política tem causado um dano tremendo porque causa uma quebra de confiança das pessoas nas instituições e no sistema e produz um resultado de raiva, irritação e frustração. Por isso os eleitores seguem outros caminhos, porque consideram que os políticos tradicionais não têm dado a resposta. Infelizmente, o caminho para dar essa resposta não é fácil, porque exige seriedade por parte dos atores políticos e que eles resistam à tentação fácil de buscarem os votos a troco de afirmações que sabem que não são verídicas, ou promessas que sabem que não podem cumprir. Acho também que existe também uma grande responsabilidade das mídias. E isso é muito difícil. A imprensa tradicional hoje