Nova York estava chuvosa durante todo o dia. Me lembro bem. Era uma quinta-feira, eu e meu pai descemos as escadas do Village Vanguard para assistir ao primeiro set de Harold Mabern e seu trio. Sentados numa mesa lateral, mas com uma boa visão para o palco, tomamos alguns uísques enquanto nos deleitávamos com o som e a atmosfera do tradicional clube de jazz.
Pouco antes, inclusive, tínhamos comprado o livro sobre a história da casa. Eu estava radiante por realizar o sonho de viajar apenas com meu pai para uma imersão completa no mundo jazzístico. Perto do encerramento do show, uma senhora franzina, de cabelos curtos, com quem dividíamos a mesa, cochichou no ouvido do meu pai: “Ele não gostaria de uma dedicatória no livro?”
Era Lorraine Gordon, fundadora da casa e autora do livro. Memórias como esta preenchem uma relação de amor entre pai e filho. Meu pai foi o grande responsável pela existência do jazz na minha vida. Na infância, a caminho da escola, o som de “Kind of blue”, com o trompete de Miles Davis, podia soar barulhento e confuso. Mas, já na adolescência, comecei a me interessar timidamente por Frank Sinatra, Buena Vista Social Club e pelo trompete cool de Chet Baker. Começava ali nosso diálogo musical.
Com o passar dos anos, a paixão pela música foi um elo que nos manteve sempre próximos, seja em Nova Orleans ou no Jobi. Conversar com o velho sobre jazz é uma das coisas que mais gosto de fazer, e não abro mão.
A paixão por Thelonious Monk – “e a forma de bater no piano” – como ele gosta de dizer, ou os olhos fechados sempre que “Night train“, de Oscar Peterson, começa a tocar, são algumas das memórias que terei sempre em minha vida. Assim como as malas que ele organizava para viagens a trabalho, sempre com algum disco em meio às roupas, ou a felicidade dele organizando a estante da sala de casa, com centenas de títulos.
Outro dia, ele colocou uma música para tocar e disse para a minha filha: “Giovana, esse é o hino do jazz, que eu e seu pai adoramos”.
A resposta veio como uma flecha: “Eu conheço, vovô, é ‘Round midnight’”, disse ela, no auge dos seus 5 anos.
O sorriso orgulhoso dele, diante da resposta inesperada, é mais uma das recordações que vou guardar para sempre comigo. De vez em quando, tento mostrar algo novo, convencê-lo de que o jazz segue se reinventando. “Escute essa música do Kamasi, ele é incrível!”, digo.
Mas logo vem o veredito: “Legal, mas não chegará nunca aos pés do John Coltrane”.
Ah, os vanguardistas...
Em homenagem ao Dia dos Pais no último domingo, dedico esta coluna ao meu, Luiz Carlos Borges Góes.
Minha influência no jazz e na vida.
Bebop
Quem será? A entrevista com Leo Gandelman, publicada na semana passada, foi a primeira de uma série mensal dentro da coluna. A próxima já esta marcada e será com um trompetista premiado por toda a crítica internacional. Alguém arrisca um palpite?
Nova diva do jazz Cécile Salvant, que já foi tema aqui na coluna, liberou a primeira faixa via streaming de seu novo disco “The window”, com lançamento previsto para o dia 28 de setembro.
Blues em pauta Duas opções para os amantes do blues esta semana: Big Gilson agita hoje o Manouche, na Casa Camolese, às 21h. Amanhã, Gui Cicarelli apresenta o tributo a Stevie Ray Vaughan, no Blue Note Rio.