As faces de Charles Lloyd

Pode parecer clichê, mas Charles Lloyd é, sem dúvida, uma “lenda viva” da música americana. O saxofonista, que fez 80 anos em março, tem um longo histórico de trabalhos, que vai do jazz clássico ao blues “raiz”, mas flerta com o rock e o folk. Mantendo o timbre afiado de seu saxofone, é unanimidade em quase 60 anos de carreira.

Lançado em junho, “Vanished gardens” (selo Blue Note) traz Lloyd, mais uma vez, em parceria com a banda The Marvels – com quem havia gravado “I long to see you” (2016). O álbum ganha ainda a influência da country music e do rock com a participação da cantora Lucinda Williams, três vezes vencedora do Grammy. O resultado dessa “fusão” de ritmos são dez faixas que, apesar das variações, mostram que as correntes da música americana caminham sempre no mesmo fluxo.

Lloyd estabelece de cara um clima reflexivo na balada “Defiant” com o brilhante guitarrista Bill Frisell e o pedal de aço de Greg Leisz, deixando livre seu saxofone para os mais incríveis devaneios. Lucinda faz a primeira aparição em “Dust”, mantendo o tom reflexivo, com o sax de Lloyd dessa vez mais acelerado nos comentários. Traça uma linha perfeita para os tons de Lloyd e dos guitarristas em “Ventura”, faixa mais comercial do disco.

A voz de Lucinda está presente em cinco das dez faixas e suas influências permeiam o disco de maneira elegantemente lenta, sempre com a assinatura de Lloyd e a combinação interessante da banda, que inclui o baterista Eric Harland e o baixista Reuben Rogers.

Destacam-se também as instrumentais “Ballad of the sad young man” (líder em reproduções no streaming) e “Blues for Langston and LaRue”, com Lloyd na flauta alta e a dose certa de um bom blues. Blues também visto em “Unsuffer me”, com os apelos de Lucinda respondidos pela banda numa deliciosa jam.

Para a turma tradicional do jazz, “Monk’s mood” faz uma releitura do clássico de Thelonious Monk, em ótimo duelo entre Lloyd e Frisell. O disco ainda passeia pelo gospel em “We’ve come too far to turn around” e traz lembranças do free jazz na faixa-título. “Angel”, do lendário Jimi Hendrix, fecha o disco, com Lloyd dando suporte aos vocais de Lucinda, e Frissell relevante como tem que ser. 

Com seu quarto disco em quatro anos, Lloyd mostra que não há intenção alguma de desacelerar, nos dando o privilégio de acompanhar seu trabalho e sua metamorfose de estilos ainda por muito tempo.

Vida longa ao Mister Lloyd. Que sua motivação seja um exemplo. Afinal, nunca é tarde para novos desafios.

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BEBOP

JAZZ E O CINEMA Semana passada, inspirado pela sugestão da leitora Valentina Mourão, abri aqui a votação para eleger o melhor filme de jazz de todos os tempos. A disputa foi acirrada, recebi dezenas de e-mails, com ótimos candidatos. Ao final, prevaleceu um clássico, “Bird” (1988), de Clint Eastwood. 

A cinebiografia do saxofonista Charlie Parker - que viveu apenas 34 anos e, mudou o jazz com suas notas e improvisos (dando origem ao bebop) - é retratada de forma emocionante pelo ator Forest Whitaker, que saiu premiado de Cannes.

Conta a história de Bird, como era chamado, desde a chegada em Nova York, em 1940, ao rápido sucesso por sua maneira peculiar de tocar, passando pelo vício nas drogas que o afastou das grandes apresentações e a conturbada relação com a mulher, Chan. Com trilha arrebatadora, “Bird” reproduz fielmente a realidade dos grandes músicos do passado, que desfrutavam de enorme talento do mesmo jeito com que se envolviam com drogas. O filme é altamente recomendado para todos os amantes do jazz.