Um SILVA brasileiro é um dos 100 negros mais influentes do mundo

Mudar o mundo ou, que seja, ao menos a realidade à sua volta, parece utopia, algo inalcançável, sonho infantil de um garoto que mal conhece a vida, mas é também o bater de asas de pequena borboleta o responsável pelas pequenas e grandes mudanças que ocorrem no mundo. Rene Silva dos Santos, o entrevistado desta semana por JOÃO FRANCISCO WERNECK, quando bateu suas asas, mudou tudo à sua volta. Em seu entorno havia o Complexo do Alemão, conjunto de favelas no Rio de Janeiro onde o índice de desenvolvimento humano é o mais baixo da cidade, segundo o Censo do ano 2000.  

Nada é fácil no Alemão, sequer sonhar. É habitual a comunidade despertar de madrugada com os tiroteios entre traficantes e policiais. Mas foi justamente o sonho de um menino de 11 anos que transformou a vida de muita gente. Assim nasceu o “Voz da Comunidade”, projeto de um jornal comunitário criado por Rene Silva quando tinha apenas 11 anos. O garoto cresceu, virou homem e é, hoje, um dos 100 negros mais influentes do mundo, segundo a organização mundial Mipad, com sede em Nova York, braços em Lagos, Londres e Paris.

Em setembro, o jovem, que atualmente tem 24 anos, irá a Nova York receber a premiação, que ano passado contou com a ilustre presença do presidente norte-americano, Barack Obama. Assim é a vida deste Silva, acostumado com o sucesso desde cedo. Ele ganhou notoriedade, em 2009, ao narrar via Twitter a ocupação do Complexo do Alemão pela polícia do Rio de Janeiro; em 2013, passou pelo intercâmbio promovido pelo Consulado Americano no Rio e, em 2014, foi selecionado para falar sobre empreendedorismo em Harvard.

Esta não é uma entrevista sobre superação. Rene Silva dos Santos é um empreendedor, um comunicólogo, um produtor cultural que, aos 24 anos, surpreende o mundo, e só vê no céu os limites para a ambição de seus projetos. 

O que representou ser indicado um dos 100 negros mais influentes do mundo? 

Gratificante. Fico muito feliz, porque o trabalho que está sendo feito não é em vão. Está sendo reconhecido, não só pelos moradores da comunidade, que de fato precisam reconhecer que se trata de um trabalho importante, como também pela sociedade. Sobre reconhecimento, a sensação que tenho é de que muito mais pode ser feito. É só o começo, e este prêmio nos motiva. Desde que foi anunciada essa premiação, eu tenho recebido telefonemas de diversas pessoas me parabenizando. Isso é muito interessante. Essa nomeação dá visibilidade a uma causa muito maior, e nós esperamos que mais parceiros apareçam para o Voz da Comunidade. Eu comecei o projeto com um jornal, aos 11 anos, no Morro do Adeus, uma das 13 favelas do Alemão, e o objetivo era justamente fazer o contrário do que a grande mídia mostrava. A ideia era mostrar os outros problemas sociais, além dos tiroteios e tráfico de drogas. A falta de dignidade era o foco. Essa é a importância do jornalismo comunitário, é a visão dos moradores sobre a favela, é mostrar que há algo além da violência, como a cultura, a educação, o esporte.

Em algum momento você temeu fazer esse trabalho? 

Nunca tive nenhum tipo de receio porque sempre soube muito bem o que seria publicado. Como falar, o que falar é uma situação delicada que não permite deslizes. O meu grande objetivo sempre foi dar voz aos moradores, mostrar quais são as outras situações, e não ficar focado apenas na retórica da guerra. Isso me blindou de certas situações, de ameaça, por exemplo. Essa cobertura midiática sobre invasões, tiroteios, confrontos, eu deixo para os grandes jornais. Eu percebo que muitas dessas ameaças que não sofri foi porque eu passei a denunciar outros problemas, mais ligados aos órgãos do Estado, aos cidadãos que pagam imposto...

Qual foi a maior dificuldade ao começar com o Voz das Comunidades? 

Já tive muitas dificuldades. Logo no início, a maior dificuldade foi o desconhecimento da comunidade. As pessoas tinham muito receio, medo da minha inexperiência. Queriam ver, e estavam acostumadas, com o jornalismo tradicional, de televisão, rádio, feito por adultos. E aí apareceu aquela criança que queria contar histórias. Mas essa era a minha vontade. Questionar o porquê da quadra de esportes estar inacabada, o porquê de não haver um centro de cultura, uma casa de teatro. Outra dificuldade, que parece simples, é que eu não tinha computador. Meu primeiro foi dentro da escola. Foi com muito suor, e dividido em 48 vezes, que consegui comprar meu primeiro computador, pagando com o dinheiro que eu conseguia, vendendo brigadeiro, empada. O jornal foi sustentado um tempo por esse dinheiro também.

Como o jornal se mantém hoje? 

Com publicidade, principalmente. A receita que conseguimos através de parcerias é muito maior do que qualquer outra. O Sebrae, por exemplo, é um dos nossos anunciantes. Tem marca de telefone, refrigerante. São algumas empresas parceiras que nos fortalecem e através disso conseguimos a viabilidade do projeto. Até porque é caro. Pagamos internet, o espaço alugado, água, luz e etc. Há uma equipe fixa, com quatro pessoas. Do governo, zero. Não estou dizendo que não receberia, mas até agora eles nunca nos procuraram.

E culturalmente, o que o Voz das Comunidades produz? 

Além do trabalho de comunicação, a gente sempre divulgou muito a cultura produzida pelas pessoas de dentro da favela, como balés, oficinas de teatro e workshops. E nós promovemos também diversas ações culturais e eventos sociais na comunidade. Na festa junina, por exemplo, a gente que organiza o “Arraiá do Alemão”. No natal, há sempre o “show por um Natal melhor”. Na verdade, esses projetos maiores só aconteceram depois que eu fiquei famoso, porque muitos artistas que me seguiam pediam para participar dessas ações, como Preta Gil, Mumuzinho, Arlindo Cruz, Sorriso Maroto. Então, eles pediam para que eu organizasse uma ida à comunidade, um show. Foi assim que eu comecei a fazer evento no Complexo do Alemão.  A parte boa é que os artistas da comunidade abrem os shows dos famosos, e com isso ganham visibilidade. Muitos artistas daqui jamais tiveram uma grande oportunidade, e é muito gratificante oferecer isso, com uma superestrutura. 

Você ficou conhecido pela narração da ocupação do Alemão. Cerca de 10 anos depois, o que dizer sobre este episódio? 

Vai fazer oito anos agora em novembro. Foi realmente um marco, porque eu estava no Twitter e comecei a narrar as situações dentro da Comunidade, o que estava acontecendo. E isso teve uma repercussão muito grande, com milhares de pessoas retuitando e me seguindo. Eu tinha 300 seguidores, e passei para mais de dez mil em meia hora. E eu não esperava nada disso, e lembro que não foi feito de propósito, quer dizer, para aparecer. Foi espontâneo e eu não tinha noção do que estava por vir. Não tem como prever que o Luciano Huck, Regina Casé, Serginho Groisman, enfim, muitos famosos começassem a me seguir e retuitar o que eu publicava. Disso surgiram os milhares de seguidores. 

E os esforços da atual Intervenção Federal, como você avalia? 

Não há resultados palpáveis da Intervenção, e tampouco diferença entre o que era e o que é. O que eu acho é que esta intervenção deveria ter sido casada com outros tipos de intervenções. Foram oitos anos de UPP no Complexo do Alemão, para construir um futuro melhor e nada foi feito, nada mudou. Ainda tem tiroteio, violência etc. Agora, uma nova intervenção, só se vier com as outras secretarias, como as de cultura, educação, saúde. São formas de intervir de uma maneira melhor. Só que o orçamento para fazer incursões e invasões das polícias nunca é o mesmo da educação. Muitos projetos sociais e culturais não têm apoio. A maioria dos projetos sociais de ONGS está sem financiamento do governo. Só funcionam porque as pessoas são voluntárias. Quem faz, faz na garra. Tem um projeto esportivo aqui no Alemão com 400 alunos. Tudo dele foi doado, e os professores são voluntários.    

Quais são os planos para o futuro? 

Expandir o Voz. Atuamos, no momento, em mais de 15 favelas no Rio de Janeiro, cinco na Zona Norte, cinco na Sul e cinco na Oeste. Existem correspondentes em cada uma dessas favelas. Então, são de 30 a 40 pessoas trazendo informações de diversas comunidades da cidade. O plano é expandir e chegar a outras favelas, independente de UPP ou tráfico. Atuar nas favelas e ampliar a voz das pessoas que moram por lá é o meu projeto, é o meu objetivo. 

Quem te inspirou para que você se tornasse uma pessoa ativa dentro da sua comunidade? 

São muitas pessoas, mas, para destacar uma: o José Junior, diretor do Afroreggae. Quando mais novo, eu sempre tentei conversar com ele, ia ao projeto dele, na sede, buscava uma referência, mas ele nunca estava lá, sempre em agenda. Só que um dia ele me chamou para conversar. E ele me inspira muito, sobretudo porque ele começou também com um jornal comunitário, impresso, nos 1990, que foi quando eu nasci.

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ENQUANTO NOSSA BURGUESIA, a mais reaça do mundo (fomos os últimos a abolir a escravidão) só envergonha, saudosa de um Brasil militarizado, que torturava e matava, conforme até o New York Times noticiou ontem, Cuba anuncia a revisão da Lei Fundamental, que reconhecerá a propriedade privada, substituindo “comunismo” por “socialismo”, e legalizará o casamento gay.