Caco Ciocler, galã por predestinação

Carlos Alberto é Caco Ciocler, o Edgar de “O segundo Sol”, novela do horário nobre da Rede Globo. O sucesso de seus personagens não é novidade em sua carreira, tampouco a onda de galã em que o ator vem surfando nos últimos meses. Desde que começou a trama, Caco, ou Edgar, se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter, tanto para o bem, quanto para o mal. 

O personagem, afinal, vive um dilema: quando trai sua mulher, por exemplo, é massacrado pela opinião dos telespectadores; mas ao mesmo tempo é um personagem encantador, e apesar de ter sido criado como membro de uma família de classe média, é filho da empregada doméstica de sua casa. 

Caco Ciocler tem mais de vinte anos de Globo, e uma carreira irretocável, com 19 novelas, seis minisséries, 30 filmes e 21 peças de teatro. Apenas em 2018, serão lançados seis longas com participação do ator: “Fica Mais Escuro Antes do Anoitecer”, “João, o Maestro”, “O Olho e a Faca”, “O Banquete”, “15 Segundos” e “Boni Bonita”. No meio de tanto trabalho, Caco ainda encontra tempo para estudar artes cênicas, cuidar da neta e até escrever um livro, “Zeide, a travessia de um judeu entre nações e gerações’, lançado no ano passado.  

Caco recebeu o repórter a Coluna em sua casa, no Itanhangá. Animado e disposto, falou sobre política, carreira, escolhas e a dificuldade em ser ator no Brasil. Revelou ainda seu próximo projeto, um monólogo teatral sobre o herói bíblico Moisés, ainda em fase de preparação e que, segundo o ator, pode vir a estrear no Festival Mirada, em setembro. O roteiro será de Roberto Alvim. 

Entrevista a João Francisco Werneck:

São 20 anos de Globo.  Qual a diferença entre aquele Caco que começou e esse de agora? 

Era outro momento da minha vida. A lembrança que eu tenho daquela época, quando eu entrei na Globo, era de um Caco muito assustado. Foi uma transformação muito grande na minha vida. Era o ano de 1995, e eu fazia duas faculdades, engenharia química e teatro. Já não aguentava mais engenharia, só que não falava isso para os meus pais, com quem eu morava. E nesse tempo eu fiz apenas dois espetáculos e, na semana seguinte, recebi um convite para o “Rei do gado”. Então a lembrança que eu tenho, desse primeiro trabalho, que marcou minha chegada à Globo, era de um Caco mais apreensivo, ansioso. Aquele projeto de vida tinha que dar certo. Se não desse, não sei o que seria da minha vida. Esse foi o começo. Depois de “A muralha”, foi um estouro para mim, e foi tudo muito rápido. Teve o Miguel, em “Quintos dos infernos”, e aí eu fui para o cinema e acabei que fiz tudo. Então, nesses 20 anos de carreira, acho que aconteceu uma desaceleração, tanto da ansiedade quanto da “coisa de ter que dar certo”.

É difícil ser ator no Brasil? 

Acho que sim, e por vários motivos. Vamos começar pelas coisas mais óbvias, que são: instabilidade financeira, não temos carteira assinada, é uma profissão sazonal, e a política pública para cultura é sempre baixa. Economicamente é complicado, você depende de alguém te chamar, alguém querer produzir. Emocionalmente é uma carreira complicada, porque são poucos os atores que conseguem uma independência para produzir os próprios papéis, então dependemos dos projetos de outras pessoas. É uma profissão onde é difícil envelhecer, porque uma carreira artística é feita de subidas e descidas e, às vezes, com a idade, os papeis de destaque desaparecem, e nem todos aguentam isso. A parte mais triste, na minha opinião, é que escolhemos essa carreira por uma questão idealista, porque queremos dizer coisas, nos preocupamos com a sociedade, e de repente nos vemos fazendo papéis que não gostaríamos de estar fazendo. É uma profissão muito bonita, que cobra o seu preço alto.

Você falou da falta de políticas públicas voltadªs para a Cultura. Como você vê isso? 

Eu acho um momento tenebroso. Eu acho que o brasileiro sempre foi um povo muito desamparado, mesmo no básico do básico. E acho que existia uma fantasia que encobria isso, e essa fantasia foi despida. E isso é muito duro. Cria uma crise geral de crenças, mas, por outro lado, talvez seja melhor do que a fantasia. Eu nunca vi o brasileiro com um sentimento de injustiça tão concreto. É perigoso, é claro, ninguém sabe o que pode vir disso. É o começo de uma volta da cegueira, de como a coisa era feia, cruel, e como estávamos sendo roubados há anos. É um momento de privilégio, e muito assustador. A falta de incentivo para a cultura reflete isso, talvez ela fosse uma maneira de mostrar essa realidade, de abordar essa sociedade e fortalecer o povo. E não é por acaso que isso acontece. A classe política está desesperada...

Algum personagem preferido na sua carreira? 

Acho que o Dom Miguel (de “Quintos dos infernos”). Acontece que quando você recebe um personagem na televisão, geralmente as informações que te dão sobre esse personagem são muitos poucas. É um marido. O irmão de alguém. O Dom Miguel não era só o irmão do Dom Pedro. Era um cara que tinha prisão de ventre, tesão no irmão. Foi a primeira vez que eu recebi uma enxurrada de características de algum personagem. Acho que foi a primeira vez na televisão que eu fiz um personagem complexo. Foi muito legal.

E onde você prefere atuar? Cinema, teatro, televisão… 

Eu gosto dos três, claro. Mas na televisão e no cinema eu me sinto muito pouco dono do meu trabalho. Eu acho que a direção é muito rápida na televisão, é feita de maneira mais impositiva. A edição interfere demais no nosso trabalho, é quase um estupro. Os tempos que são retirados, as reações que não são mostradas, é uma interferência mesmo. Então, o lugar onde eu me sinto mais livre, com maior liberdade para criar, é o teatro. Eu me sinto mais responsável pelo meu trabalho. Na televisão é o meu trabalho também, só que mexido por alguém.

Fala um pouco do Edgar de “O segundo Sol”. 

O Edgar é mais um exemplo desses personagens, e assim como o Dom Miguel, é uma encrenca. E eu sempre soube que seria uma encrenca. O João Emanuel até brincou comigo, e disse que foi por isso que ele tinha dado o papel para mim. Agora, ele é uma encrenca porque é um banana, o tipo de personagem que ninguém gosta de ver, que dá raiva, desprezo. E eu devo essa reviravolta no personagem à Fabíola Nascimento, a Cacau, que, na época das leituras do texto, me perguntou: “Caco, você vai fazer assim? Como eu vou me apaixonar por isso?”. E ela me deu o clique. Não é porque o personagem não tem autoestima que ele precisa mostrar isso para o público. Então, o Edgar faz coisas abomináveis, ele é um personagem despreparado emocionalmente, um imaturo, e eu tive que dar um jeito de fazer esse Edgar com virilidade, que fosse interessante, e que cativasse o público. O meu trabalho é achar uma cola entre pontos que não juntam no personagem. Quer dizer: o cara sempre escutou que é um merda, mas ele vai e conquista outra mulher. Ele é pianista, sensível, e mesmo assim a trai. Então o desafio é esse. São pedaços que aparentemente não juntam, mas que devem ser juntados.

E essa história de galã? 

Eu já fui galã, mas era mais novo, uma outra época, não tinha internet, só revistas. Mas esse é um lugar que nunca durou. E eu realmente não queria ser um galã, achava chato, e não queria ser só isso, o galã. Eu queria fazer cinema, teatro, outros personagens, e o galã sofre um pouco de preconceito. Então logo no trabalho seguinte eu dava um jeito de melar essa história. Só que isso voltou. E o engraçado de ter voltado é que a prova de que ser um galã é algo construído. E foi bom descobrir que aos 46 anos isso ainda é possível para mim. Quando eu virei trending topics pela primeira vez eu não sabia o que era isso. Fui ver o que era, e criei uma conta no Twitter. Então hoje em dia eu acompanho essa história toda, porque o Twitter dá um feedback imediato do personagem. Isso é muito legal.

Como foi fazer a primeira temporada de ‘Unidade básica’? 

Foi ótimo, minha primeira experiência em um canal fechado. Uma equipe muito generosa, e eu sempre achei que os atores deveriam participar mais da edição, da direção… E eu encontrei essa abertura na equipe que produziu o seriado. Eu tinha uma conversa com essas pessoas da produção, o que na rede Globo é impossível, quer dizer: imagina se todo ator quiser dar pitaco nas cenas, a loucura que seria, as gravações não terminariam nunca. Então foi legal porque eu contribuí, nós discutíamos o roteiro, as cenas, as pausas… E foi um tema sensível, saúde pública. E na “Unidade Básica” nós tocamos em um ponto muito importante.  Estudamos muito o assunto, e acreditamos na importância do médico de família, de alguém que conheça o seu histórico, de sua família. Financeiramente, inclusive, os governos estão percebendo que essa medicina preventiva é mais eficiente, mais econômica, desafoga os custos com a saúde pública, como emergências. É uma revolução mundial, e que no Brasil vai demorar a chegar. Logo que acabou a série, eu me lembro, veio aquela história de privatizar o SUS, uma loucura...

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VISANDO ANALISAR o per?l dos réus que passaram pelas audiências de custódia, entre setembro de 2016 e setembro de 2017, e a resposta do Judiciário à situação de ?agrância, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro elaborou relatório, que expõe a tragédia racial brasileira. Dos 6.374 presos ouvidos pela Defensoria, 35,9% sofreram agressões por ocasião da prisão. Destes, 79,7% são negros.