O vendaval Casadevall

O sobrenome Casadevall inspira vendaval. E foi assim, como um poderoso pé de vento, que Maria surgiu na cena brasileira. No mesmo ano 2009 em que estreou na companhia de teatro Satyros, de São Paulo, a Rede Globo tratou de contratá-la. Foi estrear na TV dois anos depois, na minissérie Lara com Z. Em 2013, surpreendeu a telinha com seu talento e sua beleza, na novela Amor à Vida, contracenando com Márcio Garcia e Caio Castro. Depois, vieram a série do GNT, Lili, a Ex, primeira e segunda temporadas; a novela I love Paraisópolis; as séries Os Dias Eram Assim e Vade Retro. 

O cinema também já conquistou Maria Casadevall, e dia 5 de julho ela estará nas telas do país como uma das protagonistas do longa-metragem Mulheres Alteradas, dirigido por Luís Pinheiro, ao lado de Alessandra Negrini, Monica Iozzi e Deborah Secco, vivendo a história de quatro mulheres e seus dilemas. Maria é Leandra, uma eterna adolescente dark de 30 anos. Leandra é irmã de Sônia (Monica Iozzi), que tem um estilo de vida oposto - casa da, com dois fi lhos, e sonha com uma noite livre. Negrini é Marinati, advogada viciada em trabalho, que se apaixona inesperadamente. Deborah Secco vive Keka, com um casamento em crise. Trata-se de uma adaptação da obra homônima assinada pela cartunista argentina Maitena. 

Nem bem estreia este filme, Maria já começa o próximo: será protagonista, ao lado de Rodrigo Lombardi, do longa-metragem O Caso Morel, baseado no romance policial de Rubem Fonseca sobre um artista suspeito do assassinato de uma de suas namoradas. 

Na televisão, nós a veremos ainda este ano na série Ilha de Ferro, da Globo, como uma ativista contra a privatização do petróleo, proposta  defendida por seu pai, um político corrupto. Na trama, ela viverá um triângulo com Cauã Reymond e Sophie Charlotte. E mais detalhes ela não dá, pois assinou cláusula de confidencialidade com a Central Globo.

Por tudo isso, e já é tanta coisa, é claro que Maria tinha que estar na pauta das entrevistas das segundas feiras, pelo nosso repórter JOÃO FRANCISCO WERNECK

Como foi trabalhar com o diretor Luis Pinheiro em Mulheres Alteradas? 

“Trabalhar novamente com o Luis é experimentar o aprofundamento de uma relação muito potente, artisticamente falando, e que nasceu durante as duas temporadas da série Lili, a Ex. A gente se entende muito bem no set, temos uma visão bastante parecida sobre a personagem que estamos trabalhando e a obra de forma geral, neste caso a adaptação dos quadrinhos da Maitena. O filme Mulheres Alteradas surge como uma chance da fazermos cinema juntos, de colocar em prática o período de experimentação que passamos juntos durante a série que tinha uma linguagem de cinema feito para televisão.”

Como foi interpretar uma adolescente dark? De onde veio inspiração para construir a personagem Leandra? 

“Entrar em contato com a nossa adolescência é sempre uma experiência bastante interessante e acho que nunca abri mão dessa condição, mas Leandra é uma adolescente um pouco diferente da que eu fui e que ainda habita em mim, ela é mais da noite, das baladas, e eu sempre fui mais caseira e introspectiva. Minha inspiração veio da observação atenta do cotidiano e suas figuras ordinárias, comuns e extremamente interessantes, magnéticas., Leandra ela é uma coletânea de personalidades. Já ter vivido outra adaptação de quadrinhos me ensinou um certo “caminho das pedras”. Na adaptação do cartum para o cinema é bastante importante que se respeite essa origem, mesmo que a linguagem do filme seja realista, existe sempre alguma coisa além, um tom a mais, de construção vocal e corporal bastante próprias, e personalidades bem definidas.”

Individualmente, com qual das personagens você mais se identi? ca? Leandra, Sônia, Marinati ou Keka?

“A personagem com que eu mais me identifico é a Leandra, menos pelo seu comportamento e mais pelo processo de autoquestionamento pelo qual ela está passando no filme.”

Por qual motivo, na sua opinião, as mulheres ? caram alteradas no século 21? 

“Eu não acredito que as mulheres tenham ficado alteradas no século XXI. Não me considero uma mulher alterada.”

Vamos falar de feminismo! O ?lme traz uma pauta feminista? Qual a importância de falarmos sobre esse assunto? 

“Não acho que o filme proponha uma discussão da pauta feminista ou apresente algum tipo de pretensão neste sentido, embora tenha quatro mulheres como protagonistas. O filme fala sobre um processo de transformação humana que poderia acontecer com qualquer pessoa, em diferentes fases da vida. No entanto é importante lembrar que a Maitena (autora dos quadrinhos) foi uma mulher pioneira para o seu tempo, ocupando, nos anos 90, um espaço que de certa forma era quase exclusivamente ocupado por e para os homens, o universo masculino dos cartuns. A importância de propor a reflexão sobre qualquer tipo de pauta feminista no audiovisual é, sem dúvida, importantíssimo porém essa é uma obra pop, de entretenimento e que se propõe a reflexões e provocações de outras naturezas.”

O mundo é machista. Como é enfrentar isso? 

“Acredito que não exista uma receita pronta para responder a essa pergunta, mas que a resposta vem sendo dada todos os dias, em mais um momento histórico da luta feminista, em forma de vários movimentos, que se levantam contra o sistema machista, patriarcal, de opressão e privilégios. As mulheres estão se organizando nas comunidades, nas redes, nos coletivos etc., para enfrentar uma estrutura desigual, violenta, misógina e secular. São mulheres que estão se reconhecendo na luta, que estão se colocando, escrevendo, criando alternativas, redes de proteção, estimulando a reflexão, a consciência social e transformando a realidade todos os dias.”

Todos nós conhecemos o trabalho da cartunista Maitena. Quais as diferenças entre o quadrinho da autora e o ?lme que será lançado? 

“Acho que as diferenças são bem poucas, existe um respeito bastante rígido em relação ao conteúdo, a forma, e a origem do roteiro.”

Em “Os dias eram assim”, seu último trabalho, a história se passa na época da ditadura militar. Que lições podemos tirar deste período da história brasileira? 

“A lição que podemos tirar é o maior esclarecimento possível sobre o período, a compreensão dos motivos políticos e históricos que levaram o Brasil e a América Latina a sofrer todos esses golpes de Estado e, principalmente, conhecer suas consequências nefastas e profundas para que essa experiência não tenha a chance de se repetir sob hipótese alguma.”

Entrevista por João Francisco Werneck

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O PROVIMENTO Nº 71, assinado pelo ministro João Otávio de Noronha, dispõe sobre uso do e-mail institucional e manifestações nas redes sociais por membros do Poder Judiciário e reza que “a vedação de atividade político-partidária aos membros da magistratura abrange a participação em situações que evidenciem apoio público a candidato ou partido”. Resta saber se a Lei é das que também valem pro Moro.