Vera Barreto Leite: De Mademoiselle Chanel a Dona Poloca

Vera Barreto Leite, a Vera Valdez, aos 81 anos, ainda esbanja o charme da modelo que conquistou a estilista Coco Chanel nos anos 1950. Vera também é atriz em cartaz na peça “Rei da vela”, de Oswald de Andrade, revezando com o diretor José Celso Martinez Corrêa, no papel de Dona Poloca, na montagem épica do Grupo Oficina. Vera abriu as portas de sua casa na Praia do Flamengo e nos contou suas experiências como modelo, a transição para o teatro e sua relação com os mitos geniais da indústria da moda.

Você nasceu no Brasil, mas se mudou para Portugal e depois Paris, quando começou sua carreira de modelo? 

Eu saio com 15 anos de Portugal. Minha mãe, a diplomata Maria Barreto Leite, na época foi transferida para o consulado de Bordeaux, e eu fui com ela, claro. De Bordeaux fomos para Paris através do meu tio. Minha mãe sempre quis conhecer Paris.

E aí você conhece a estilista Elsa Schiaparelli? 

Antes disso, eu e mamãe fomos convidadas para um jantar extraordinário da alta burguesia parisiense. O coquetel rolando. Altos vinhos, seguramente, e eu estou ali parada. Aparece um senhor, bem mais velho, e ele vira para mim e diz: “Você é manequim?”. E eu gosto dessa história porque a Vera começou assim. Depois disso, eu perguntei para minha mãe o que eram manequins. Mamãe me mostrou fotos em uma banca de revistas em Paris. Me apaixonei e decidi que queria ser manequim.

E a Elsa?...    

Então, vou chegar lá. Eu ainda estava em Bordeaux, e comentei com uma amiga que um senhor me disse em uma festa para ser manequim. Aí essa amiga me disse que tinha uma prima em Paris que vendia perfumes da Schiaparelli. Tão simples assim.

E como foi o primeiro contato com ela, a Schiaparelli? 

Estávamos na perfumaria da Elsa em Paris, eu e mamãe. Aí escutamos uma voz por trás de nós, “Maria Barreto Leite, o que você faz por aqui?”. Era Agustín Lara. Explicamos para ele minha vontade de ser manequim, e então ele nos disse, “Espera aí”. Ele me leva para uma cabine, onde estavam outras manequins, e a Elsa ali, trabalhando.

E aí começaram os primeiros trabalhos como modelo da Elsa? 

Ela era uma artista. Todos os outros eram arquitetos da moda. A Schiaparelli era artista, os íntimos dela eram Salvador Dali, o próprio Lara. Ela era surrealista, uma artista brilhante. Ela me viu pela primeira vez nesse dia. Me botou uma roupa, lá. E nisso todo mundo me olhando, assistentes dela, outras modelos. Troquei de roupa várias vezes, e isso com a mamãe e o Agustín Lara comentando cada modelo que eu vestia. Ai a Elsa disse: “Está admitida, mas você parece que anda em cima de ovos, se solta mais, menina”. E dali eu fiz a coleção de inverno, foi meu primeiro trabalho. Pouco tempo depois fomos para Londres e desfilamos para as princesinhas.

E os trabalhos com a Chanel também começaram nesta época?... 

A Chanel eu conheci usando um casaquinho vermelho, de botões dourados. Foi meu primeiro encontro com ela, fui levada por uma amiga para lá, a atriz e modelo Suzy Parker, logo depois de uns trabalhos para Dior. A Schiaparelli havia fechado. E a Coco, naquele dia, me viu com uma roupa moderna, aquele casaquinho vermelho. Me olhou e disse: “ok, já vi, manda ela sair”. E eu pensei: “Dancei, né”. Que nada! A Chanel se apaixonou por aquele conjunto vermelho, quando me viu. E na verdade, eu inspirei ela a desenhar aqueles terninhos vermelhos que fi caram famosos. Ela achou lindo aquilo. Depois disso é que ela fez o número cinco da Chanel, que fi ou mundialmente famoso.

E como era trabalhar com a Coco? 

Ela era extraordinária, um gênio. Ela era tudo, maravilhosa. Eu fiz a primeira coleção dela, em 1954, e fiz a última, antes dela morrer, em 1971.

E você se tornou a preferida dela

Eu me tornei a filha que ela não teve. Brigávamos, ela me demitia várias vezes porque eu era impossível. E depois me recontratava. Éramos amigas, mesmo. Ela era maravilhosa, nossa relação, tudo, e ela era uma mulher grossa, autoritária. Coitado dos costureiros, das modelos, aprendizes. Ela tocava a empresa à mão de ferro mesmo. Tínhamos discussões sobre tudo, Brasil, por exemplo, racismo, atrasos, trabalhos. Mas não tinha jeito. A gente se gostava, ela era a minha voz da razão, no fim das contas.

Vamos falar dos anos 60, então. 

Eu volto para o Brasil em 1964, já no golpe militar. Minha família estava presa. Mãe, sobrinho, prima. Uma tragédia. E comecei uma caça aos meus amigos mais ricos para impedir que minha família fosse torturada. Foi dessa maneira que eu consegui soltá-los, mas, apesar disso, não consegui impedir que ficassem um ano presos. Mas, em 1968, o bicho pegava para todo mundo. Não teve jeito, fui presa, precisei sair do país.

Em 1982 é promulgada a Lei da Anistia, e você volta ao Brasil e começam os trabalhos no teatro. 

Eu começo minha carreira de atriz fazendo uma peça chamada “Juventude em crise”, dirigida e montada por Tonia Carrero. Já o Teatro Oficina, eu conheci vendo, e foi em uma peça que mexeu muito comigo, o “Rei da vela”, a montagem antiga. O Zé Celso, que estava à frente do Oficina, e vi que ele era um gênio. Eu o conheci na ditadura, nesses encontros que a esquerda fazia nos teatros, nas universidades.

E como é trabalhar com o Zé Celso? 

Ele me confessou que havia me visto em “Juventude em crise”, e havia gostado muito do meu trabalho. E quando eu comecei a trabalhar com ele, ele me confessou: “Vera, é incrível como você domina os palcos, nem parece uma iniciante”. Fizemos leituras de peças juntos, ficamos amigos, de frequentar a casa um do outro. Andávamos juntos e com vários atores e, entre essas leituras, lembro-me de “O homem e o cavalo”, também do Oswald de Andrade, por quem o Zé é apaixonado.

Como está sendo fazer o “Rei da vela”? 

Desde que eu voltei para o Brasil, eu e o Zé ficamos muito amigos. Montamos “As bacantes” juntos, e passávamos dias na casa um do outro, eu cantando, ele no piano. E depois vinham as leituras, os ensaios no Teatro Oficina, as intermináveis discussões sobre cada detalhe do que iria em cena. E são 30 anos de amizade, você pode imaginar quantos detalhes discutimos, quantas noites conversamos e debatemos. É uma honra interpretar a genialidade de Zé Celso. Trata-se de um gênio. Eu amo o Teatro Oficina, tudo que envolve aquele lugar. Sobre o “Rei da vela”, é uma peça que foi feita há 50 anos. Só que a história se repetiu, e o “Rei da vela” está tão atual quanto era há 50 anos. É um trabalho político. Este é o momento de fazer política.

O repórter João Francisco Werneck assina esta entrevista

__________

VERA BARRETO LEITE bombou no “Rei da Vela” no último ?nde e repetirá a Dona Poloca no próximo sábado (28/04). A peça imperdível vai até dia 29, na Cidade das Artes.

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais