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Depois de todas as minhas opiniões sobre o que presenciei no território de liberdade e muita moda com ênfase no autoral-artesanato-luxo do Nordeste, o Dragão Fashion Brasil 2013 - realizado em Fortaleza e pilotado por Cláudio Silveira - faço questão de ressaltar aqui o desfile de Lindebergue Fernandes. Um libelo a favor do amor em todas as suas formas, que vem ao encontro do que tenho batido na tecla do atual momento da moda sem paixão e identidade: a tal da fast-fashion. Lindebergue gritou pela autoralidade, assim como Lino Villaventura e Ronaldo Fraga tanto têm ressaltado.
O estilista teve a coragem de entrar na passarela com uma T-shirt com os dizeres: "Sua ignorância não me representa", em alusão à polêmica com o deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em Brasília. E o protesto de Lindebergue ganhou a adesão do mestre Mario Queiroz, que usou a mesma camiseta quando riscou a passarela no seu pós-desfile, também no Dragão Fashion Brasil.
Nós que estivemos nos desfiles do Minas Trend - realizados dois dias antes do início do Dragão Fashion Brasil 2013 - já tinhamos comentado também que, se nos lançamentos paulistas predominaram os looks em preto e/ou branco, a passarela belo-horizontina evoluiu em uma profusão de cores, fazendo muitos fashionistas brincarem, remetendo à multicolorida bandeira do movimento gay. Escrevei aqui: "Marco Feliciano, encara essa! Faz todo sentido. Se levarmos em conta que, desde o início do mês, todos os holofotes vão de encontro à cantora Daniela Mercury (que declarou viver uma união homoafetiva com a jornalista Malu Verçosa). Para os mineiros, o verão 2014 é muito colorido. Afinal, o desfile de abertura contou com blocos de modelos desfilando looks monocromáticos, sequenciados em uma palheta de cores fortes que lembra - e muito! - o símbolo universal da turma GLS".
E qual o mote do que Lindebergue levou para a passarela com modelos com rostos tristes, cabisbaixos, como se estivessem sofrendo de amor e chorando? Diga, Lindebergue: "O intuito foi fazer uma crítica ao atual momento da moda, no qual há uma verdadeira valorização do fast-fashion. Também quis ressaltar todas as formas de se amar, sem medo e amarras". Daí, ele ter optado por apresentar uma noiva vestindo uma burca branquinha, branquinha. Acompanho o trabalho de Lindebergue não é de hoje e ele foi o responsável por levantar a bandeira da moda autoral no Nordeste e pilotou o projeto Conexão Solidária, se embrenhando Brasil adentro em busca do mais autêntico regional e sofisticado artesanato, que encanta os olhos do mundo. Palmas, Lindebergue.
Agora, relembre aqui o que escrevi sobre a tal crise na moda.
"Quando estive em Maceió para acompanhar a edição de desfiles da TrendHouse', vi de perto o desafio do curador James Silver de reger a sinfonia de uma semana de moda no Nordeste e falando para um público heterogêneo (que inclui editoras de moda do Brasil de Norte a Sul + consumidoras finais + curiosos de um tema que cada vez mais faz a cabeça do nosso povo).
Agora, retornando do Dragão Fashion Brasil 2013, semana de moda realizada em Fortaleza entre os dias 13 e 18, pude sentir mais uma vez algo que escrevi aqui: os holofotes da moda estão sendo plurais (no real sentido da palavra). Sem dialogar diretamente apenas para um determinado nicho. Todos nós estamos sentindo na pele, na rua, através da TV: a moda hoje não é mais restrita a uma determinada classe social. Ecoa para to-dos. A verve fashion pulsa na tão decantada, atualmente, nova classe média. Isso é tácito e vemos o reflexo até mesmo em novelas da TV Globo.
E que tal eu juntar mais uma vez a frase da consultora e jornalista de moda Cristina Franco de que “o artesanato brasileiro é a nossa Ferrari”? Ela conhece a fundo o trabalho de moda no Nordeste. E as palavras repletas de ênfase podem ser conferidas in loco nas passarelas mais incríveis ao redor do mundo. A cada dia a indústria da moda do nosso país tenta deixar de ser refém do alter ego colonizador do europeu e a maximização de potencial do artesanato brasileiro afasta nossa arte de uma armadilha letal, neste movimento progressivo do ambiente local para o internacional. Diferentemente de outros países que vendem seus produtos pela questão custo, nós vendemos os nosso pelas nossas cores, nossa criatividade, nossos traços livres, nossa leveza. Conclusão: representam cada vez mais nosso jeito de ser em um mundo que nos parecia inatingível.
Transformar uma semana de moda em Fortaleza em um megafone para todo o país e o mundo também, provando que o artesanato luxo, o estilista autoral ainda têm vez é o trabalho árduo feito por Cláudio Silveira, curador e idealizador do Dragão Fashion Brasil. O evento foi realizado em tendas armadas na praça verde do Centro Cultural Dragão do Mar e no Senac Iracema, com palestras e oficinas do Dragão Pensando Moda. Cláudio nos falou sobre o desafio constante para montar uma edição tão ampla e que dá chances a estilistas que precisam dos holofotes sobre os belos trabalhos.
“Fazer um evento como esse não seria possível sem o apoio de instituições que ainda apostam no poder da indústria da moda do Ceará”, enfatiza ele, referindo-se ao Sesc, Senac, Riachuelo, O Boticário e Coelce. E acrescenta: “O Dragão Fashion Brasil 2013 quer unir cada vez mais moda, design, arte, cultura, gastronomia, memória e business que nessa edição estão juntas no Centro Cultural Dragão do Mar". Ou seja: ser plural.
A maré está difícil para o mundo da moda, mesmo o acesso às pessoas sendo mais democrático. Os impostos são altíssimos e o custo para se produzir está cada vez mais elevado. Como disse o amigo da coluna e consultor de moda Alexandre Schnabl, agorinha, no pós Fashion Rio, que a coluna cobriu também, entre sustos dignos de Evil Dead e tsunamis econômicos, cada um aposta no que pode e salve-se quem puder. Algumas marcas deixaram de desfilar nesta temporada de lançamentos Primavera-Verão das maiores semanas de moda. As criações exibidas nas passarelas de Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço fizeram falta na São Paulo Fashion Week. Assim como a exuberância étnico-celebration do esfuziante André Lima e a elegância cool da marca Maria Bonita. E, em plena semana de lançamentos, a morte de Clô Orozco, da Huis Clos, verteu genuínas lágrimas no povo da moda. Sem ela, Andrea Saletto e Alice Tapajós, onde irá parar o estilo feito com cérebro, mas dotado do doce charme da burguesia bem nascida? Como se fosse uma última integrante do grupo de feiticeiras celtas extirpado por São Patrício na Inglaterra medieval, seria Andrea Marques o último baluarte dessa moda pontual, limpa e sem excessos? Ou, quem sabe, a mineira Sonia Pinto?
Mesmo com essas questões debatidas aqui, no eixo Rio-São Paulo por todos nós, eu senti a democracia do Dragão Fashion Brasil lá no Complexo Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, pois o público que não tem acesso aos grandes desfiles de moda podia acompanhar de perto a movimentação. Além disso, a democracia imperava nas passarelas com verdadeiras formiguinhas de fazer moda mostrando o seu talento - sabe-se lá com quanto esforço. No backstage, todos os estilistas arregaçavam as mãos e suavam a camisa para mostrar que podem. E o eco do megafone de Cláudio Silveira e seu batalhão de fazer moda ecoou aqui. Vocês podem imaginar como foi pilotar desfiles de estilistas e marcas cearenses, nacionais e internacionais (como o português Nuno Gama e o duo italiano do Leitmotiv) + shows, exposições, seminários com a presença de gente de peso da moda brasileira + cursos e manifestações culturais tudo ao mesmo tempo e misturado? Palmas, Cláudio Silveira!! E como defendem Lino Villaventura e Ronaldo Fraga, em uma era de globalização, com o nosso Brasil em evidência perante o mundo, as criações autorais são diferenciais em meio a tanto fast-fashion.