Lorena Comparato acabou de completar 23 anos, em março, e, como uma espécie de presente adiantado, recebeu das mãos de Miguel Falabella uma marcante personagem feita especialmente para ela: a Abigail, mulher de Ruço (papel de Falabella), na série ‘Pé na cova’. A idade da atriz e da mocinha, que é a primeira-dama da Funerária Unidos do Irajá (ou apenas FUI, para os íntimos), é quase a mesma, assim como a verve sonhadora, o desejo de formar uma família e a adoração pelas músicas da MC Anitta, que foi uma das inspirações para a construção do papel.
Filha do roteirista Doc Comparato e irmã da atriz Bianca Comparato, o rosto de Lorena pode até ser novo na sua telinha, mas no teatro sua presença é constante e antiga. Agora mesmo, enquanto grava os episódios da série que a gente adora, ela toca diversos projetos que têm o palco como destino, incluindo uma adaptação para o teatro do livro infantil ‘Nadistas e tudistas’, escrito por seu pai – um dos maiores fãs e protetores de suas filhas, no maior estilo pai-coruja. “Ele diz que não gosta da ideia de nós sermos atrizes por pura preocupação, mas não perde uma peça ou um episódio do que estivermos fazendo”, nos conta Lorena, em uma entrevista exclusiva.
HT: Após o teste para o papel de Odete Roitman, o Falabella ficou impressionado com a sua atuação e fez a Bibi especialmente para você. Como foi receber esse presente e estrear um grande papel na TV aberta com grandes nomes da dramaturgia brasileira?
Lorena: A Bibi foi totalmente inesperada e me trouxe muita felicidade! Quando soube que ia fazer a Abigail eu fiquei nas nuvens! Mas na minha cabeça só vinha a grande responsabilidade de estar estreando em TV aberta, com pessoas tão ilustres, como Miguel Falabella, Marília Pêra, Cininha de Paula e Cris DaMatta. Recebo esse presente todos os dias de gravação, afinal cada dia é uma aula. Agradeço todo dia que vou ao Projac a Deus e a todos que me deram essa oportunidade. Sempre que estou me preparando ou já gravando penso em quem está me assistindo, principalmente nas pessoas que chegam em casa do trabalho e querem relaxar assistindo à série.
HT: Todos os personagens de 'Pé na cova' sonham muito para tentar fugir da realidade deles. Qual é o maior sonho da Bibi e qual é o seu maior sonho para a personagem?
Lorena: A Bibi é órfã, então eu, sinceramente, acho que o maior sonho dela já foi realizado e ela faz de tudo para mantê-lo: ter uma família, pessoas que cuidem dela e de quem ela também possa cuidar. A Abigail tem um jeito ingênuo e angelical de ver o lado bom de tudo, quase como uma criança. Ela está quase sempre feliz, especialmente agora que realizou mais um sonho: estar grávida. Eu, Lorena, desejo que o filhinho da Abigail seja muito amado e nasça com saúde. Se eu pudesse escolher, gostaria que o Ruço casasse com a Abigail com direito a véu e grinalda e que a família Pereira ganhasse na loteria e nada mais faltasse para nenhum deles!
HT: Apesar de estar mergulhada em dívidas, toda a família do Ruço tem diversos sonhos de consumo (um 'tabret', próteses de silicone e jogos de lençol já foram mencionados nos episódios). Como você enxerga esta forma de escapismo através do consumo?
Lorena: Eu acho que existem dois lados para esta resposta. Devido à melhoria da economia brasileira, está ocorrendo a tão falada ascensão das classes C e D. A série retrata justamente estas classes consumidoras que vêm ganhando cada vez mais acesso a tudo. Isso é um lado muito positivo. No entanto, a mídia e a economia induzem a população a comprar muito. Acho ruim quando as pessoas preferem comprar bens materiais ao invés de investir em educação, saúde, etc. Infelizmente, existe um sentimento quase de alívio quando se obtém um bem material. Acho isso triste, mas é real e acontece com todos, independente de classe social.
Heloisa Tolipan: Você nasceu entre coxias e roteiros, mas vi uma entrevista em que contava que seu pai não gostava que as filhas fossem atrizes. O seu sucesso e o da Bianca já fez com que ele mudasse (pelo menos um pouquinho) de ideia?
Lorena Comparato: Meu pai ama muito as filhas. Acho que quando ele diz que não gosta da ideia de nós duas sermos atrizes é pura preocupação de pai. Mas ele não perde uma peça, um episódio do que for que estivermos fazendo! Ele sempre liga pra dar os parabéns após todo episódio de ‘Pé Na Cova’, quando não assistimos juntos. Acho que a preocupação dele não interfere no orgulho e na emoção de ver a gente fazendo o que ama - e ainda por cima fazendo sucesso com isso.
HT: Você acabou de completar 23 anos, em março, e tem quase a mesma idade da Abigail. Existe alguma semelhança entre vocês além da idade? Você encararia um relacionamento como o dela?
Lorena: Eu sou bastante sonhadora e positiva, como a Bibi. Ela, por exemplo, já se casou e engravidou, coisas que eu quero muito na vida, mas acredito que tudo tem seu tempo. Como ela, eu também costuro, cozinho, arrumo a casa, faço unha, cabelo e maquiagem. Pra mim isso sempre foi maravilhoso porque, em teatro, geralmente, não temos tanta estrutura como na Globo, que tem um grupo grande de pessoas maravilhosas da técnica para me ajudarem a fazer a Abigail tomar vida. Não vejo muito problema no relacionamento dela com o Ruço. A Abigail é muito apaixonada pelo personagem do Miguel, que lhe dá segurança e carinho. A idade pra mim nunca foi uma questão, seja para mais ou para menos.
HT: Você se inspirou na MC Anitta para compor a Bibi. Conta mais sobre isso e também quais foram as suas outras referências para dar vida à personagem.
Lorena: A Bibi é funkeira romântica. Sempre gostei dos funks antigos, mas confesso que estava um pouco desatualizada. Ganhei de um amigo o CD da Anitta e me a-pai-xo-nei! As músicas dela combinam muito com a Bibi. Pedi também para a Célia, que trabalha lá em casa, fazer um CD bem caprichado de funk. Pesquisei outros artistas também e acabei gostando muito de Cone Crew e Naldo. Sempre que faço um personagem recolho músicas para ouvir como inspiração. Também foi muito importante ter ido a shows de funk e observar não só os artistas, mas, principalmente, o público. A ida ao Irajá também foi imprescindível. Ando sempre de ônibus ou metrô e fico observando as meninas, o jeito que elas gesticulam, falam e andam. Por incrível que pareça outra grande inspiração é minha afilhada Flora, que tem 6 anos. Alguns olhares e algumas entonações da Bibi vêm dela. Ela diz que também quer ser atriz – o que me deixa muito feliz.
HT: Você estuda teatro desde muito pequena, desde quando voltou de Portugal (país onde nasceu). Quais foram seus últimos trabalhos no palco e tem alguma novidade pela frente?
Lorena: Sempre tento estar fazendo teatro de alguma forma. No momento, faço não só aula de canto com Sonia Dummont e aula de balé, mas também aula de teatro com o Daniel Herz, na Casa de Cultura Laura Alvim. Sou aluna dele há 5 anos. No dia 28 de abril, vou apresentar a Mostra Infantil no 3º Festu-Rio, Festival de Teatro Universitário, do qual participo desde a primeira edição. Em meio a outros projetos em andamento, há pouco soube que um idealizado por mim e por uma amiga atriz, Clarissa Kahane, ganhou o edital da Oi. O livro infantil ‘Nadistas e Tudistas’ do meu pai, Doc Comparato, foi adaptado para teatro por Renata Mizhary e será dirigido por Daniel Herz. Ainda não temos previsão de pauta, mas estou muito feliz e animada! Não faço uma peça desde o ano passado, quando participei da remontagem da peça ‘Decote’, com a Companhia Atores de Laura. Confesso que estou me coçando para voltar aos palcos!