Em 1º dia 'despretensioso', The Killers se destaca no Lollapalooza Brasil 2013

Banda de Las Vegas monta setlist 'sagaz' e leva à plateia do Jockey um desfile interminável de hits

A típica instabilidade climática de uma tarde de março (ainda mais em São Paulo) contrastava com o pseudo-marasmo sonoro que tomou conta do Jockey Club no primeiro dia de Lollapalooza Brasil, segunda edição nacional de um dos maiores festivais de música do mundo. Se, no céu, eram alternadas passagem de nuvens carregadas com brechas de um agradável sol outonal, aqui por baixo a lama dava o tom do evento, para diversão e constrangimento geral. Já do lado de fora, nada divertido foi passar mais de duas horas na fila para retirada de ingresso no local. Motivo de fúria para muitos que acabaram, inclusive, perdendo shows que motivaram justamente a compra do ingresso. Sorte dos que optaram por chegar cedo ao Jockey.

Tão cedo quanto a apresentação do Agridoce, projeto paralelo de Pitty ao lado de seu guitarrista Martin Mendonça: pouco depois das 14h o duo estava no palco Cidade Jardim, com suas canções folk, levemente inspiradas em Leonard Cohen e Nick Drake. Um som, a princípio, deslocado para um festival da proporção do Lollapalooza. Resultado? Disperso, o público ainda pequeno pouco reagiu ao clima de 'despedida' dado à performance, provavelmente a última desta primeira turnê do projeto.

Reação, aliás, que contrastou com a empolgação surpreendente dos fãs da banda islandesa Of Monsters and Men, que se apresentou logo depois, no palco Butantã. Com apenas um (elogiado) álbum nas costas ('My head is an animal', de 2011), a turminha fofa, com seu folk-inofensivo, conquistou a plateia. Muitas palmas, gritinhos e interações. Uma espécie de projeto de Mumford & Sons nórdico e mais simpático aos ouvidos. Grata surpresa.

Como também foi surpreendente a segura apresentação dos australianos do The Temper Trap, cuja trajetória começou em 2005, mas somente tendo certa projeção em 2009, com o sucesso da faixa 'Sweet disposition', do álbum 'Conditions'. Aliás, na abertura do show de ontem, o grupo entoou os primeiros acordes do hit, para alegria geral. Alarme falso: após recuarem, optaram por uma mudança de planos e o carro-chefe do Temper Trap foi executado como grand finale, deixando aquele ar de ansiedade em todos durante a apresentação. Destaque para o vocalista Dougy Mandagi e seu timbre de voz remix de Mika com Freddie Mercury.

Com uma estrada maior, seis álbuns no currículo e diversos sucessos na ponta da língua do público, os californianos do Cake, liderados por um carismático John McCrea, mataram a saudade daqueles que estiveram presentes na lendária apresentação da banda no Free Jazz Festival Festival de 1999, ao lado de Tom Zé. Mesmo diante de problemas explícitos no som da apresentação, o Cake trouxe o primeiro esboço de brilhantismo do dia, com a força de seu cover para o clássico 'I will survive', de Gloria Gaynor, e o hit 'Never there'. Aclamados com o respeito devido, como se ainda estivéssemos na década de 90.

E por falar em carisma, o que dizer de Wayne Coyne? Ou melhor, o que dizer de Wayne e seu boneco-bebê, carregado pelo vocalista da banda The Flaming Lips durante toda sua performance? Aliás, um show adequado para iniciados na sonoridade destes senhores de Oklahoma com exatos 30 anos de carreira. Ou então para usuários de drogas sintéticas ou duendes, já preparados para a psicodelia carnavalizada da trupe. Nas caixas de som, camadas e mais camadas de arranjos com guitarras delirantes, sem qualquer definição de 'caminho' a seguir. Uma viagem, na acepção mais lúdica que a palavra possa ter.

Psicodelia que também reside (em escala bem menor) na música do Passion Pit, que fez uma apresentação discreta, mas extremamente eficiente no palco Alternativo. Com foco no excelente álbum 'Gossamer' (2012), os americanos de Massachusetts demonstraram uma evolução imensa diante do fraquíssimo show realizado no festival Planeta Terra, em 2010. Deixando de lado a histeria sintetizada do álbum de estreia ('Manners', de 2010), o Passion Pit, sob a ótima forma de seu conturbado vocalista Michael Angelakos, hoje exibe uma sonoridade mais segura, objetiva e, principalmente, despretensiosa.

No entanto, essa mesma 'despretensão' que dominou todo o primeiro dia de Lollapalooza foi, finalmente, quebrada com o início da performance mais esperada: pela terceira vez em São Paulo estavam os 'desérticos' The Killers, sob a batuta do maestro Brandon Flowers (mais gato do que nunca). Fotos, somente de longe. Nada de fotógrafos no 'fosso' do show. Uma amostra da megalomania típica de headliners e muito bem adequada a Brandon e seus amigos de Las Vegas, cujos últimos trabalhos em estúdio ('Day & age', de 2008, e 'Battle Born', de 2012) demonstram uma arrogância sonora que caminha em via oposta aos primórdios da banda, principalmente em relação aos antológicos álbuns 'Hot fuss' (2004) e 'Sam's town' (2006).

Logo, surgia a suspeita de que, no setlist, fosse traduzida toda a recente pretensão do The Killers. Felizmente, Brandon, dando uma demonstração de maturidade (e sagacidade), trouxe ao público do Lolla um desfile de hits (com uma abertura explosiva ao som de 'Mr. Brightside'). Estiveram presentes também 'Somebody told me', 'Smile like you mean it', 'Read my mind' e 'All these things that I've done'. No bis, 'Jenny was a friend of mine' e 'When you were young'. Um batalhão de sucessos (com exceção de 'Bones', uma ausência muito sentida) que ofuscou a passagem das faixas mais recentes, cuja fria reação do público simbolizava perfeitamente o desnível em relação à saudosa fase do grupo.

Nada que tenha atrapalhado a bela apresentação de Brandon & Cia. Sem grande esforço, o grande momento do primeiro dia do Lollapalooza 2013 e uma prova de que a maturidade do The Killers trouxe algo além da pretensão. Trouxe um louvável respeito aos seus fãs.

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