Sob um dilúvio, Beija-Flor lava a alma e arrepia em ensaio técnico na Sapucaí

Além da escola de Nilópolis, Porto da Pedra e Portela também se apresentaram, neste sábado (19)

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Neste sábado (19), presenciamos mais uma noite de casa cheia e belas apresentações na Sapucaí, com três escolas em seus respectivos ensaios técnicos: Porto da Pedra, Portela e Beija-Flor. Noite também de muita chuva, principalmente sobre a escola de Nilópolis que, aproveitando o enredo sobre a força e o vigor do cavalo Mangalarga, marchou forte na Avenida, naquele que, talvez, tenha sido o melhor ensaio técnico a cruza o Sambódromo desde que esta prévia oficial se tornou parte do calendário da folia.

A seguir você confere o que a coluna viu das três agremiações que brilharam ontem na Passarela do Samba.

Porto da Pedra

Em 2012, a Porto da Pedra teve um ano dificílimo: como se não bastasse a brusca queda para o Grupo de Acesso (hoje oficialmente chamada de Série A), o Tigre de São Gonçalo passou, em outubro, por um incêndio em seu barracão e no espaço de um ano trocou de presidente quatro vezes. E ainda teve de promover o assessor de imprensa da escola Leandro Valente ao posto de carnavalesco faltando pouco mais de um mês para seu desfile, com a saída de Fábio Ricardo (que assina o Carnaval da São Clemente, no Grupo Especial).

E diante de tantas adversidades, a Porto da Pedra acusou o golpe, com a visível fragilidade apresentada no ensaio técnico realizado neste sábado. O enredo 'Me diga o que calças e eu te direi quem és' deu origem a um belo samba-enredo, como há tempos a escola não levava à Avenida, cantado com firmeza pelo intérprete Igor Vianna e embalado pela bateria cadenciada e segura do competente mestre Thiago Diogo. No entanto, pecados fragorosos em relação à harmonia e evolução comprometeram a performance da agremiação.

Apesar do samba de fácil leitura, foi possível observar alas inteiras sem cantar sequer o refrão principal, o que foi pouco corrigido pelos diretores de ala durante o desfile. Assim como a delimitação das alas, que tiveram de correr deliberadamente em frente ao setor 9, após a entrada da bateria no recuo.

Diversas falhas que precisarão de atenção máxima e uma rigidez acima da média no dia do desfile. Uma prova de fogo para a Porto da Pedra diante de uma vulnerabilidade explícita e demonstrada a olhos nus na noite de ontem.

Portela

Outra escola que teve um ano difícil, principalmente em seu âmbito político, é a Portela, que em 2013 leva à Sapucaí o enredo 'Madureira... Onde meu coração se deixou levar', desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Menezes, que sofre com a correria no barracão da maior campeã do Carnaval carioca. Bom lembrar que até poucos dias atrás as alegorias da Águia para seu desfile estavam apenas sob a forma de ferro retorcido, enquanto muitas co-irmãs já acertam os últimos acabamentos de seus carros.

No entanto, a despeito de qualquer crise, a torcida portelense marcou presença nas arquibancadas para conferir o ensaio técnico da Águia, com balões e bandeiras celebrando o samba-enredo cantado pela potente voz de Gilsinho e moldado pela bateria de mestre Nilo Sérgio, com uma apresentação bastante conservadora na noite deste sábado. E por falar no samba da Portela, apesar de muitos elogios nesta fase pré-Carnaval, o hino não rendeu o esperado. Muito por conta de sua letra carregada de referências a Madureira cantadas em ritmo veloz, mas também pela ausência do canto pleno dos componentes da escola. O chão da Portela não ferveu como deveria ter fervido.

O que emperrou um pouco também a evolução da escola, revezando alas com a letra na ponta da língua com outras arrastando pé e apenas entoando os refrões do samba. Destaque para as alas inicias e a das baianas, responsáveis pelo canto mais forte e 'salvador da pátria'.

Mas, de qualquer forma, a Portela precisa, no dia de seu desfile, mostrar muito mais do que foi visto em seu ensaio técnico, tanto para reafirmar a qualidade tão exaltada de seu samba como também para deixar esquecido qualquer resquício de crise que possa ter afetado a Majestade do Samba neste último ano.

Beija-Flor

Difícil descrever em palavras o que a Beija-Flor fez na Sapucaí na noite deste sábado. Talvez a melhor definição seja justamente a expressão que a agremiação ganhou ao longo dos anos 2000 (ela venceu seis dos últimos 10 carnavais): rolo compressor. Pois foi assim, com a intensidade de um rolo compressor que Nilópolis cruzou a Avenida, cantando, do início ao fim, da comissão de frente à Velha Guarda, o samba que versa de forma fascinante sobre o enredo 'Amigo fiel - Do cavalo do amanhecer ao Mangalarga', desenvolvido pela comissão comandada por Laíla.

E, junto ao canto a plenos pulmões, podemos somar uma evolução completamente envolvente, com os componentes brincando, sambando e, ao mesmo tempo, concentradíssimos em mostrar sua dedicação e apreço pela história escolhida pela Beija-Flor para marchar em busca de mais um título. Sob o comando sereno, pleno e carismático de Neguinho da Beija-Flor, além de uma bateria desconcertante, chefiada pela dupla Plínio e Rodney, a harmonia da escola ainda foi abençoada por uma chuva torrencial que caiu sobre o Sambódromo durante a passagem da escola, o que só fez incendiar os brios do seu chão, cantando de forma ainda mais voraz a letra do samba, tendo uma resposta imediata das arquibancadas, lotadas por um público que não arredou pé e quis conferir de perto a marcha inesquecível que a Nilópolis promoveu.

Um ensaio que diz bastante sobre o que podemos esperar da Beija-Flor em seu desfile: em um ano que atenções maiores forma divididas pela atual campeã Unidos da Tijuca e Vila Isabel (como samba mais badalado da temporada), a grande devoradora de campeonatos no século 21 mostrou que, no ritmo do cavalo Mangalarga, cavalgará e passará por cima de qualquer obstáculo, com a força de sua comunidade, em busca de mais uma vitória. A noite deste sábado foi marcada por aquele que, talvez, tenha sido o ensaio técnico mais incrível já visto. E a memória de quem presenciou este ensaio ficou marcada com o que a Beija-Flor promete fazer na noite do dia 11 de fevereiro.

Colaborou Beatriz Medeiros

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