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Exclusivo - Walter Rodrigues alerta: fórmula das semanas de moda deve ser mudada

Estilista ganhará desfile pelos 20 anos de carreira e expô retrospectiva no ParkFashion, em Brasília

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"Quando vemos marcas, que nada têm a mostrar, pagando milhões para celebridades vestirem o 'nada' que elas estão mostrando, acho que temos que mudar, sim, urgentemente, a fórmula das semanas de moda". A frase é do estilista e mestre Walter Rodrigues em nosso bate-papo exclusivo sobre os novos rumos da sua carreira. Como eu contei aqui, com exclusividade no dia 4 de setembro, Walter decidiu deixar as passarelas e vai se dedicar integralmente ao trabalho de consultoria. Antes disso, ele será o grande homenageado de mais uma edição do ParkFashion Connection, em Brasília, dia 18, no ParkShopping, com um desfile para celebrar os 20 anos de carreira incensada + uma exposição retrospectiva.

Walter rasgou o verbo em nossa entrevista. Quando perguntado sobre os caminhos da moda nacional, ele foi taxativo: "Nossas marcas estão ficando velhas, nossos novos talentos já têm mais de 30 anos. Tem um buraco na História, falta gente nova, sangue novo, falta talento e falta, principalmente, uma política de ajuda consistente para proporcionar esta renovação". Sobre as suas andanças pelo país sempre em busca do talento nato de artesãs e que ele ajudou a colocar sob os holofotes do grande público, disse: "Prazeroso foi encontrar pessoas verdadeiras e cheias de talento e que possuem a "memória das mãos". Esta riqueza que não precisa ser ensinada, ela é atávica, vem na alma. E, diante de um país tão cheio de cor, fibras, madeiras, conchas, esta memória explode e produz objetos originais que servem de exemplo para a consolidação de um design com Alma, e não só alimentado por tendências". Bravo, Walter Rodrigues!

HT - O seu acervo de moldes das coleções ficará com o Senac São Paulo. Nos conte um pouco sobre essas preciosidades que integrarão um arquivo.

WR - Sim era um sonho e foi concretizado. Todos os moldes das coleções que estavam arquivados desde 1997 até hoje, estão, agora, sob a responsabilidade do Senac. Eles farão parte de uma moldeteca e poderão ser estudados pelos alunos e por pesquisadores. Para mim, o mais importante era preservá-los. Ali se encontra parte do meu trabalho e eu fico feliz em dividir isso com as gerações futuras.

HT - Os moldes das roupas exclusivas e dos vestidos de noiva estarão sob a proteção da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Como foi feito este acordo e nos conte alguns exemplos do que a Universidade terá como único para estudantes.

WR - Da mesma forma, os moldes criados para clientes especiais e todos os moldes de vestidos de noivas estarão sob os cuidados da Universidade de Caxias, que já possui um departamento para a preservação e estudo da moda brasileira. Tenho uma relação muito importante com a UCS, pois foi por convite dela que eu iniciei toda uma série de importantes trabalhos realizados no Rio Grande de Sul.

HT - Você está preservando toda a sua história de grande contribuição à moda nacional. O Brasil é um país que já tem essa mentalidade de preservação em relação à sua arte? Você pode citar exemplos de outros estilistas que tiveram essa preocupação de deixar um legado para o próximo?

WR - Não existem registros de doações em tal volume. Até porque não temos o hábito de preservar, guardar...  Sei que o Senac possui um coleção de vestidos do Denner, que pertenceram a José Gayegos, mas estamos começando a criar a possibilidade de que outros designers possam, enfim, inspirar-se e começarem a doar seus acervos. Temos muitas coisas lindas guardadas.

HT - Em nosso papo, no Fashion Rio, você disse uma frase antológica, que eu publiquei em minha coluna. Reescrevo aqui: 'A facilidade com que se muda de cor de cabelo ou o perfume tem sido intensa nos dias de hoje. A peculiaridade tem se perdido e tudo que determina a personalidade tem prazo de validade, como um iogurte'. O que acha dos caminhos da moda nacional e das semanas de moda?

WR - A moda está cada vez mais volátil, com datas de validade muito próximas a de um iogurte (rsrsrs)... Temos de repensar a maneira de mostrarmos, mas não e só isso. Temos de dar oportunidade para novos designers, mas não só para desfiles precários, mas, sim, suporte para que desenvolvam coleções e que se estabeleçam no mercado. Nossas marcas estão ficando velhas, nossos novos talentos já têm mais de 30 anos, tem um buraco na História, falta gente nova, sangue novo, falta talento e falta, principalmente, uma política de ajuda consistente para proporcionar esta renovação.

HT - A nova geração de estilistas... há união entre as pessoas? Qual o cenário do mercado que você vislumbra para um estudante de moda?

WR - União? Não sei responder. Tenho bons amigos, mas união é uma palavra muito forte em um terreno repleto de egos. Sempre que posso repito nas universidades que nossa profissão não é arte. É um metier e um serviço, que tem uma parcela de arte, sim, pois temos, como dizia Balenciaga, que sermos um pouco pintores para as cores e escultores para os volumes. Digo que eles precisam de CORAGEM para enfrentar um trabalho difícil de ser reconhecido e para suportar as pressões da indústria. E que os flashes, ah, estes, então, são efêmeros e o que fica mesmo impregnado na alma é aquilo que ele fará com todo o amor e que, muitas vezes, passará despercebido.

HT - O que ficou eterno em suas produções a cada estação?

WR - O corte, o preto, o Japão, a antropologia. Minhas recordações de viagens, leveza, fluidez e simplicidade.

HT - O Brasil é um país de muito rico criativa e culturalmente, por que não conseguimos nos desamarrar das tendências propostas nas semanas de moda internacionais? Existe espaço no mercado para a moda que não segue tendências?

WR - Talvez um dia, quando pudermos fazer da moda o que foi feito com a música brasileira.... Usamos os mesmos instrumentos musicais que são, em sua maioria, universais, mas o som produzidos por eles aqui exprimem nossa alma, nosso jeito de ser. A moda, por enquanto, é só uma pequena demonstração de que somos capazes e talentosos, mas falta a alma.

HT - Você sempre investiu na formação de parceria com novas mãos-de-obra. Deu apoio e levou aos holofotes das passarelas várias entidades de cidadãs que fazem seu trabalho no interior do país. O que foi mais gratificante nesse garimpo de talentos pelo interior do Brasil?

WR - Encontrar pessoas verdadeiras e cheias de talento e que possuem a "memória das mãos". Esta riqueza que não precisa ser ensinada, ela é atávica, vem na alma. E, diante de um país tão cheio de cor, fibras, madeiras, conchas, esta memória explode e produz objetos originais que servem de exemplo para a consolidação de um design com Alma, e não só alimentado por tendências.

HT -  Qual a chancela que Walter Rodrigues gostaria de imprimir na moda nacional?

WR - A da curiosidade. Devemos ser curiosos em tempo integral e buscarmos integrar o novo e o tradicional, o herdado e a tecnologia para vivenciarmos plenamente todas as maravilhas deste lugar chamado Brasil.

HT - Já deu para realizar todos os sonhos de consumo na vida pessoal?

WR - Sou muito feliz com o que tenho, meus livros, meus discos, mas sou muito mais feliz pelas pessoas que tenho a minha volta e que sao  a minha verdadeira riqueza.

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