Exclusivo: luta da Associação Amigos do Caio Fernando Abreu contra fakes da web

Liana Farias alerta: pessoas usam nome do escritor, atraem seguidores e publicam frases falsas

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Depois da incrível crônica de Luciana Maline sobre a onda de fakes de Caio Fernando Abreu (1948-1996) no Facebook e no Twitter, publicada hoje na coluna e que eu reproduzo abaixo, recebemos um email da presidente da Associação Amigos do Caio Fernando Abreu - AACF (www.associacaocaiof.blogspot.com), Liana Farias.  Além de comentar as ações da associação para a divulgação da obra do escritor, ela conta que, "entre os trabalhos realizados há uma necessidade de conscientização junto aos donos de perfis e fan pages que usam o nome a imagem de Caio Fernando para arrecadar seguidores. Depois, distribuem frases falsas retiradas da internet, sem nenhum consulta, ou ainda publicidades e outras barbaridades. Uma das atividades propostas para esse tema é: durante o dia 12 de setembro (data do aniversário de nascimento de Caio Fernando), sugerimos aos internautas, leitores, que publiquem frases do Caio Fernando Abreu na internet (face, twitter, tbfhrl, etc) fazendo citação (autor, título)".

A associação foi criada em 2010 e trabalha para "homenagear o Caio e trazer sua história e sua obra (de maneira uniforme, organizada e reunida)". Liana conta ainda que "em fevereiro de 2012, criamos um site oficial, um projeto colaborativo, divulgado pela web, que viabilizou a criação do Site (www.caiofernandoabreu.com)" . Atualmente, ela está reunindo forças (com amigos pessoais do Caio, familiares, leitores, pesquisadores, etc) para levar a Semana Caio F a outras cidades (a primeira edição ocorreu em Porto Alegre, no final de setembro e mais de 500 pessoas participaram das atividades propostas pela Associação: Exposição + Bate Papo com pesquisadores + Projeção de filmes + Leituras e Performances). dá uma conferida no convite da associação para lembrar a data de nascimento de Caio Fernando:

Aqui, você lê o texto publicado hoje na minha coluna com o título: Muito prazer, Caio Fernando Abreu, do Facebook, do Twitter X mundo real 

"Não há necessidade de percorrer longas distâncias para a confirmação do tão batido paradoxo entre o escritor real e sua versão pop em pílulas de Facebook. Uma visita descompromissada à livraria e: "Oi, tem o livro póstumo com crônicas inéditas do Caio Fernando Abreu(1948-1996), o recém-lançado A vida gritando nos cantos, da Nova Fronteira?" Uma expressão de estranhamento diante da pergunta aparentemente inédita ao cotidiano comercial do vendedor. Após verificado no sistema: “Olha, consta aqui, mas deixa eu ver se tem mesmo. Ué, mas não seria nas estantes evidentes o lugar dos autores de maior repercussão?"

Separemos os morangos entre mofados e os realmente aproveitáveis. Diferente da quantidade de “curtidas” e reproduções de trechos das obras do Caio, a ideia de uma mensagem completa presente na composição de um livro definitivamente não tem frequentado a casa dos mesmos novos fãs, que se satisfazem com a rasa escolha aleatória de um fragmento. 

São as vítimas da falaciosa harmonia e valorização de autoestima, muito distante da melancolia verídica da literatura marginal feita pelo poeta-em-prosa. Caio deu a voz oprimida a personagens tangentes ao lugar-comum, como os gays, travestis, drogados, prostitutas, portadores de HIV e outros perfis com os quais a grande massa não gosta de compartilhar a mesma civilização. São os excluídos sociais que Caio tirava o véu do anonimato sob o ritmo sensorial de sua escrita e seus travessões fiéis ao modelo da fala. Foi um dos dragões das letras que não se enganava com a ilusão de um paraíso, mas desnudava aquilo que a sociedade do Instagram não curte muito fotografar. 

Um doce aclamado sobre um contexto amargo e amargurado. Comemoraria suas 64 voltas em torno do sol na próxima quarta-feira, gaúcho e virginiano viciado em datas, horas e uma astrologia tão determinante ao seu mundo quanto aos dos heterônimos de Fernando Pessoa. Morreu em 1996 sem o cachê referente ao sucesso transcendente às fronteiras do país e idealizando um século 21 sem tantas restrições ideológicas, sem nem sequer imaginar que um dia teria também um heterônimo em versão pop, capaz até de dar “conselhos” online. E, por sinal, bem restritos.  

De mãos dadas aos fãs de longa data, um apelo: que Caio Fernando Abreu não saia das estantes da literatura brasileira para ganhar espaço nos compilados de frases de autoajuda. Que seja para sempre nosso e de todos aqueles que se intitulam amantes de seu trabalho. Deixemos, porém, cada Caio F. em seu quadrado.

*** Luciana Maline é do ramo das Letras por formação, fotógrafa por qualificação e amiga da coluna (por coração)".

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