Adeus, meu mal-humorado favorito

O leitor amigo que me perdoe, mas hoje não consigo falar de futebol, ou de qualquer outro esporte. Estou triste e de luto. É fácil entender o porquê. 

Ele não era o mais amável dos cachorros. Latia alucinadamente sempre que alguém chegava; sempre que queria filar um pouco da nossa comida, na mesa; sempre que – alegria das alegrias! – percebia que apanhávamos a coleira para passear com ele. Era também mal-humorado para tomar remédio e mordia pra valer quando se tentava tirar de sua boca qualquer porcaria que tivesse apanhado para comer, na rua ou em casa. Ainda assim, nós os amávamos. Muito. E ele nos amava da mesma forma. 

Thor chegou na minha casa há quase 17 anos. Comprei-o, através de um classificado no jornal, com apenas dois meses de vida, para que minha filha, então com 11 anos, perdesse o medo que tinha dos cães. Foi um presente especial para ela, num período difícil, por causa do término de meu casamento com sua mãe. Me foi vendido como poodle “toy”, mas, com o tempo, revelou-se um pouco maior que isso. Também, seu “pedigree” era uma foto amadora daquele que diziam ser o pai...

Tamanho à parte, o malandrinho, num piscar de olhos, conquistou todo mundo – apesar dos latidos esganiçados e de jamais ter aprendido a jogar bolinha conosco. Nós a atirávamos, ele corria e a abocanhava, mas cadê que devolvia? Sua diversão era fugir e se esconder em lugar inacessível, geralmente, embaixo da cama. Em suma: o jogo era de uma mão só. 

Gostava mesmo era de nos provocar e ser perseguido pela casa toda. Latia, balançava o cotoco que tinha de rabo e disparava à frente. Malandro, aproveitava-se de qualquer obstáculo, como uma coluna ou um móvel, para se colocar atrás dele e esperar para ver por onde iríamos. No que percebia o rumo, escafedia-se pelo outro lado. E corria, corria, até ficar exausto e se jogar sobre o pote de água, que passava a beber sofregamente. Uma figura. 

Adorava andar de carro e, apesar do tamanho nanico, tentava sempre botar a cara na janela, para sentir o vento batendo na fuça. Gostava de viajar conosco e, certa vez, em Búzios, esbaldou-se na praia de Geribá, chispando feito maluco atrás da Luiza, do Michael, meus filhos, e das amigas da turma. Era tão apaixonado pela Luiza que, nem mesmo quando a viu mergulhado no mar, a abandonou. Saiu feito um coelho tresloucado, pulando onda por onda na parte rasa da arrebentação e desandou a nadar, com aquelas patinhas curtas, mas corajosas. Comovente. Assim ele era. 

Certo dia, em meu apartamento, no Rio, me emocionei, assistindo ao filme “Invasões bárbaras” e ele, até então placidamente deitado ao meu lado no sofá, percebeu. Ato contínuo, veio para o meu colo e passou a me lamber a cara, como se quisesse enxugar minhas lágrimas e me consolar. Acabei rindo, abraçado a ele e agradecido por tanta ternura. 

Numa outra vez, quando recebi a visita de uma linda amiga paulista e, educadamente, a alojei no quarto da Luiza, ele enfiou-se na cama, com ela, na hora de dormir. Acabamos às gargalhadas (“Olha, que malandro, chegou na minha cama antes de você”, disparou a gata). Bem o que houve a partir daí não vem ao caso. Grande Thor!

A única viagem que ele não curtia era para “Ponderosa”, minha casa em Itaipava. Ciumento como ele só, detestava a companhia dos “grandões”, que teimavam em fazê-lo de brinquedo. O único com que se relacionava razoavelmente era o Logan, um shit-zu, mais ou menos do seu porte. Dentro de casa, Thor se aninhava no meu colo e rosnava quando os maiores (principalmente, Rin Tin Tin, meu pastor alemão) se aproximavam. 

Tal comportamento, numa manhã, quase lhe custou a cabeça. Estávamos no campinho de grama, atrás da piscina, e, sentado, eu jogava bola com o Cazuza (o golden retriever que, ao contrário dele, sabia perfeitamente como era a brincadeira). Enrodilhado no meu colo, Thor lhe mostrava os dentes cada vez que vinha devolver a bolinha para novo arremesso.

Uma, duas, três vezes; na quarta, o golden largou a bola e voou em cima do poodle. Só tive o tempo de meter o braço entre eles e levar as duas dentadas que lhe eram endereçadas. Um estrago e tanto que me fez ir parar no posto de saúde para dar pontos, tomar injeção etc. Dormi dolorido, mas feliz por ter salvado a vida do pequeno folgado. Teria sido uma tragédia incomensurável um cão da Luiza matar o outro – Cazuza também é dela que, graças ao primeiro, passou a ser apaixonada por cachorros. 

Até os 15 anos, Thorzinho viveu muito bem. O veterinário dizia que ele era cardíaco, mas nunca chegou a apresentar um problema sério de coração. A crise mais grave que teve foi de coluna. Certo dia, amanheceu com as patas traseiras paralisadas. Acabou internado por vários dias, mas à base de anti-inflamatórios recuperou-se e seus uivos de alegria quando Cátia, a mãe de Luiza, tratou de apanhá-lo, uma vez mais, comoveram a todos. 

Cátia foi, aliás, a sua maior paixão. No início, Thor morava comigo e duas vezes na semana (quando eu viajava para São Paulo, para fazer o “Bem, Amigos” e o “Jornal da Globo”) ia pra casa dela. Com o crescente afeto entre ambos, a situação se inverteu. Passou a morar lá e vinha todas as quartas-feiras, quando Luiza dormia na minha em casa, e um final de semana sim, outro não, quando ela também ficava comigo. 

Muitas vezes, porém, mesmo após essa mudança de endereço, passamos grandes períodos juntos. Quase sempre nas épocas de Natal, final de ano e carnaval, Thor era “desovado” (como brincava minha filha) no meu apartamento, para que elas pudessem viajar para Piraju, onde vive parte da família de sua avó materna. E se nos dávamos muito bem (ele adorava os muitos “doguitos” que eu lhe dava e dormia na minha cama), quando chegava a hora de voltar, a excitação era tal que não restava dúvida de qual era o seu CEP preferido. Bastava meu carro se aproximar da Praça Nossa Senhora da Paz (onde elas moravam) e ele começava a latir e ganir de felicidade, esperando o reencontro com Cátia, Luiza e Dona Laercy (avó materna dela), sempre recebidas com um festival de lambidas. 

Coração de cão, entretanto, é feito o de mãe, sempre cabe mais um. E Thorzinho também adorava o colo de mamãe, que o acarinhava um tempão sem que ele sequer se mexesse. Até fechava os olhinhos, de prazer. Por isso, não somente os meus olhos, mas os de toda família estão encharcados agora. Ele se foi, ontem, após mais de um ano de luta, já cego pelo diabetes e outras complicações da velhice. A lembrança que ficará, entretanto, é a de um cão adorável e querido por todos. Descansa em paz, companheirinho.