Valeu, Júlio César. Apesar do 7 a 1

A primeira vez que vi o Flamengo em campo foi contra o São Paulo, no Maracanã. O goleiro chamava-se Fernando e, confesso, pouco me lembro dele. Quem me fez vibrar, mesmo, foi outro, que veio logo depois, um mineiro chamado Marcial, que fechou o gol rubro-negro no Fla-Flu da final de 1963, a que assisti no colo do meu pai, nas cadeiras azuis do velho Maraca, com mais de 170 mil presentes. Garantiu o 0 a 0 e o título do Fla. 

Depois dele, recordo-me de Marco Aurélio, que adorava fazer uma ponte, para aparecer bem nas fotos dos jornais, no dia seguinte, e Ubirajara, que ganhou no Chacrinha o título de negro mais bonito do Brasil e chamava muito mais a atenção pelo fato de namorar a estonteante modelo Maria João, com quem eu esbarrava sempre, na praia de Ipanema ou nos pilotis da PUC, onde ambos estudávamos. Ficou famoso também por marcar um gol, chutando de sua própria área, auxiliado pelos ventos uivantes do estádio da Portuguesa, na Ilha – esse que agora está arrendado ao Fla. 

Mas o melhor goleiro que vi, na era que antecedeu à chegada do grande Raul (definitivamente, a mais gloriosa da história do clube, com três títulos brasileiros, uma Libertadores e um Mundial) foi um xará: Renato, que chegou do Atlético Mineiro e acabou no Fluminense, num daqueles troca-trocas inventados pelo genial presidente tricolor Francisco Horta. Foi campeão carioca em 1972 e 74, pelo Fla (e em 75 e 76, pelo Flu), vestia-se quase sempre de preto e, com sobriedade, garantia o gol sem fazer alarde. 

Antes de Raul, me lembro, claro de Cantarele, arqueiro da geração mais brilhante já formada na Gávea, e aí entramos na época em que, como repórter, eu acompanhava de perto o dia a dia dos clubes, especialmente o daquele Flamengo de Zico, Júnior, Leandro e cia. Uma magnífica orquestra de jogar bola. Por conta disso, o “velho” Raul (que chegou após uma goleada de 5 a 2, sofrida diante do Grêmio, no Olímpico) será sempre o meu goleiro em qualquer escalação de “todos os tempos”. 

Após Raul, veio o argentino Ubaldo Fillol, um goleiraço que, entretanto, sofreu aqui com a era pós Zico (foi comprado com parte do dinheiro da venda do craque para a Udinese) e com a mania de jogar mais adiantado – levou um gol de balãozinho de Geovani, do Vasco, e a torcida nunca mais o perdoou. Chegou em 1984, saiu em 1985. 

Gilmar Rinaldi e Zé Carlos foram alguns dos que se seguiram e, embora fossem bons (nada além disso) e tivessem passagens até pela seleção brasileira, nunca chegaram a me encantar. Até que chegou, vindo da base, esse que se despede hoje: Júlio César. Goleiro do tricampeonato de 1999-2000-2001 e ainda do título de 2004. Um paredão. Tanto que se tornou o primeiro jogador da posição a ser vendido para o exterior, pelo Flamengo. Foi para a Internazionale de Milão, onde se consagrou, chegando a ser considerado o melhor goleiro do mundo, superando até Buffon, uma lenda do futebol italiano. 

Estava no auge, na Copa de 2010, na África do Sul, mas falhou feio no primeiro gol da Holanda, ao se chocar com Felipe Melo, numa bola cruzada alta sobre a área. A partir desse lance veio a virada holandesa e a desclassificação da seleção de Dunga. 

Sinceramente, não esperava sua volta à seleção em 2014 (em 2010 já enfrentava sérios problemas na coluna). Mas Felipão apostou nele e tudo acabou na maior humilhação do futebol brasileiro na história das Copas, com o 7 a 1 diante da Alemanha. Júlio César não merecia isso. Ele nem pode ser responsabilizado pela goleada, tamanha era a facilidade com que os atacantes alemães chegam na sua frente, para finalizar. 

Infelizmente, porém, ele tem razão: como disse, com amargo bom-humor, em entrevista há alguns dias, quando morrer (espero que daqui a muitos e muitos anos), no seu obituário lá estará: foi o goleiro brasileiro no vexame dos 7 a 1. Ele foi muito mais que isso, mas não tem jeito. 

Curiosamente, Júlio César poderia nem ter passado por esse drama, caso um outro goleiro do Flamengo, que o sucedeu e tinha até condições de superá-lo tecnicamente, tivesse cabeça. Não tinha e acabou atrás das grades, após um crime hediondo...

Boa experiência 

Na despedida de Júlio César, hoje à tarde, no Maracanã, contra o América Mineiro, o Flamengo não terá Everton Ribeiro (suspenso pela absurda expulsão na estreia, diante do Vitória), nem Diego (que se queixa de uma contusão muscular). Está na hora de colocar Lucas Paquetá em sua verdadeira posição, no meio, e ver no que dá.

Reforço de peso 

Após a surra no Cilindro, o Vasco resolveu reforçar o time e retomou as negociações que tinham emperrado para trazer Diego Souza de volta a São Januário. Contratado por 10 milhões, pelo São Paulo, ele foi uma grande decepção no Morumbi e parece acima do peso. Ainda assim, é muito melhor que os cruz-maltinos do meio-campo e do ataque (exceção feita a Paulinho, que se recupera de cirurgia no cotovelo) e será recebido de braços abertos por Zé Ricardo.

Três volantes, sem direção 

Alberto Valentim vem fazendo um bom trabalho à frente do limitado elenco do Botafogo – vide o título do carioquinha. Ao defender, ontem, a formação com três volantes, revelou, porém, preocupante viés retranqueiro. Usar tal esquema diante de um adversário bem mais forte, como o Palmeiras, é compreensível. Mas adotá-lo como padrão... Zé Ricardo, do Vasco, também usou tal formação no Cilindro. Deu no que deu.

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