Chupetas, bengalas e pernas de pau 

A comparação dos números de Vinícius Jr. com os de Neymar e Gabriel Jesus, na sua idade, me chamaram menos a atenção pelo fato de o moleque rubro-negro levar vantagem sobre os dois e mais pela constatação de quanto o nosso futebol perde ao vender tão cedo os seus talentos. O JORNAL DO BRASIL trouxe ontem outro dado impressionante para essa estatística. Somos o único país a ter jogadores em todos os oito times que disputarão as quartas de final da Liga dos Campeões - ou seja, há brasileiros em cada uma das melhores equipes do planeta. Enquanto isso, por aqui...

Há algum tempo digo que o velho e violento esporte bretão no Brasil passou a ser disputado por craques de bengala ou de chupeta. Os de bengala são aqueles que, já em final de carreira, retornam para um último brilhareco, antes de pendurar definitivamente as chuteiras. E os de chupeta, óbvio, são esses meninos talentosos que vemos brotar e serem vendidos praticamente ao mesmo tempo. Quem anda jogando por aqui e não está de bengala ou chupeta, pode ter certeza, maltrata a bola. É perna de pau.

Como seria fantástico um Campeonato Brasileiro com Neymar no Santos, Gabriel Jesus no Palmeiras, Vinícius Jr. no Flamengo, William no Corinthians, Philippe Coutinho no Vasco, Marcelo no Fluminense e por aí vai. É um sonho, eu sei, impossível diante do poderio econômico do futebol do exterior e de nossa própria incompetência (para dizer o mínimo) na gestão dos clubes, federações e, acima de tudo, Confederação (CBF).

Se minimamente competentes (e honestos) fossemos, já teríamos nos livrado dos del nero, rubinhos, euricos e outros sanguessugas do gênero e, quem sabe, dado início assim a uma nova era, que nos permitisse disputar somente campeonatos de fato rentáveis, passando a viver tempos mais prósperos e capazes de nos permitir segurar aqui as jovens revelações ao menos até os 25 anos, idade em que já teriam ajudado seus clubes a aumentar os títulos, as torcidas e as rendas e aí sim poderiam ser vendidas, por muito mais dinheiro, criando um círculo virtuoso (hoje é vicioso).

Nada disso, infelizmente, acontecerá tão cedo. Não, na “minha administração”, como se costuma dizer, em tom de resignada constatação. Aquele campeonato a que me referi a pouco, com muitos craques defendendo seus clubes de origem (e que, creiam, existiu por aqui até os anos 90) já não vejo faz tempo. Nem verei mais... Resta acompanha-los, com camisas estrangeiras, na TV.

Que venham as milionárias quartas de final da Liga dos Campeões. Porque as andrajosas semifinais da Taça Rio, ninguém merece...

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Dignidade 

Por que o Palmeiras não age com um mínimo de dignidade e senta na mesa com o Fluminense para negociar Gustavo Scarpa? Por que nossos cartolas têm sempre que bancar os espertos e tentar levar vantagem em tudo?

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Triste ?m 

O Bauru, time onde joga a trans Tiff any, foi eliminado, com um implacável 3 a 0, aplicado pelo Praia Clube, nas quartas de final da Superliga Feminina. Tiffany não jogou bulhufas e acabou no banco de reservas.

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Misturou, já era 

O cara era até um bom repórter apurador. Mas escrevia mal, como o diabo. Seus textos tinham um pensamento tortuoso, o sujeito brigava com o verbo, a gramática era tratada aos pontapés e por aí ia. Por isso, sempre que chegava na redação (normalmente tarde, em cima da hora do fechamento), o editor ordenava que passasse as informações que tinha para um redator (função praticamente extinta na imprensa atual), que redigia o texto final.

Certa noite, porém, ele chegou entusiasmado e disse que tinha uma “bomba” que gostaria de escrever e, sem mais delongas, sentou-se na máquina (sim, naquele tempo, não havia computador) e saiu a batucar furiosamente. Quando já tinha “cometido” quatro laudas (folhas de papel de 30 linhas, para os leigos), o editor chamou um dos redatores e lhe pediu que começasse a “copidescar” (corrigir) o que já fora escrito.

E assim foi feito. Só que, ao ler a parte do material que já estava “pronta”, o redator não conseguiu encontrar o “lead” (abertura da reportagem, o primeiro parágrafo). Discretamente, voltou até o editor e sussurrou:

- Essa matéria não tem pé, nem cabeça!

Irritado, o editor chamou, então, o intrépido repórter:

- Fulano, cadê o “lead”?

Resmungando, o jornalista, levantou-se e foi até à mesa da chefia, apanhou a própria reportagem, leu uma folha, outra, outra e outra...

- Ah, vocês misturaram tudo, agora também não sei!

A matéria, naturalmente, acabou na “cesta seção”... A popular cesta de lixo.