O luto precisa de silêncio, diz psicóloga sobre Chapecoense

Professora do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte, Maria Júlia Kovács considera importante a quantidade de homenagens às vítimas de uma tragédia, como a do voo da Chapecoense. Acredita que os rituais, como missas, abraços ao estádio, partidas de futebol, podem proporcionar conforto aos parentes dos passageiros. No entanto, faz uma ressalva – o luto precisa de silêncio e introspecção.

Nesta entrevista, ela defende que os filhos órfãos de tragédias sejam informados sobre o que ocorreu com os pais. No caso específico da queda do avião do time catarinense, sugere que isso seja feito com cautela, sem, por exemplo, que se entre em detalhes sobre a provável falha do piloto.

Em geral, quem tem mais dificuldades em superar o trauma de uma perda em circunstâncias trágicas, a criança ou o adulto?

Difícil falar de forma geral. Depende da situação, do envolvimento e de características pessoais, e circunstâncias da morte. A diferença é que para crianças pode ser a primeira experiência e ela precisa de esclarecimentos e a necessidade da presença acolhedora de um adulto.

No caso de um evento que toma dimensões públicas, como a queda do avião da Chapecoense, a criança deve ser informada sobre como se deu a morte do pai?

Sim, acho que é muito importante, sim, contar sobre o acidente. Talvez sem entrar com tantos detalhes sobre a falha do piloto. Dependendo da idade, poderá compreender melhor o que ocorreu.

A exposição constante do fato (acima) na mídia, com diversas homenagens às vítimas, interfere no luto dos parentes?

Sem dúvida. Por um lado, a solidariedade e homenagens ressaltam a importância da pessoa e a dor coletiva. Por outro lado, interferem no processo privativo do luto, que precisa de silêncio e introspecção.

A dificuldade de lidar com a inevitabilidade da morte explica parte da comoção mundial pela queda do voo da Chapecoense (e de outras tragédias)?

Penso que é mais a circunstância em que ocorreram essas mortes – acidente, avião, um grupo de jogadores de um time que estava crescendo, os jornalistas. E, por fim, ainda mais com a compreensão que foi falha humana e mais ainda por ganância. E também por serem jovens (a maioria das vítimas).

Ainda sobre o recente acidente com o avião, quais as consequências mais prováveis da tragédia, a médio e longo prazo, para os parentes da vítima? E o que deve ser feito para diminuir a dor?

Para os parentes, a dor permanece e precisa ter seu tempo de elaboração. Agora que a imprensa não fala mais sobre o tema, por um lado tem a privacidade de lidar com a perda de um pai, marido ou filho. Por outro, há que lidar com questões complicadas, como viver sem a presença das pessoas, e as questões financeiras, por exemplo, de um marido ou pai que era quem sustentava a família, de como ficam as indenizações e outros problemas também de ordem prática.

No caso de um acidente aéreo, em que os passageiros sabem, com um mínimo de antecedência, que o desastre é iminente, quais as reações mais prováveis das vítimas?

Não sei responder. Também é uma questão muito pessoal. Suponho que seja pânico ou terror. Como houve sobreviventes, alguns já relataram o que ocorreu durante o voo. E as caixas pretas darão mais informações sobre o que aconteceu nos últimos momentos de vida.

O que se passa no íntimo de um jornalista (ou um profissional de qualquer outra área) escalado para trabalhar vendo a morte do próximo?

É muito difícil nesse caso pelo impacto do acidente. Pode haver o pensamento de que pudesse estar escalado para cobrir o jogo. Seria a possibilidade da própria morte, perder um colega com quem se conviveu. São tantos os processos que fica difícil falar de todos. É preciso ressaltar que em situações de crise e morte formas de enfrentamento são particulares, dependendo da história de vida, características pessoais e recursos internos.