Movimento mais importante do futebol brasileiro nos últimos anos, o Bom Senso FC, que reúne centenas de jogadores e outros tantos que já encerraram a carreira, espera ser convidado para integrar o recém-criado comitê de reformas da CBF. Isso ficou claro nas declarações de um dos principais articuladores do Bom Senso, o zagueiro Paulo André, de 32 anos, atualmente no Atlético-PR.
Em entrevista ao Terra , ele afirmou que o surgimento do comitê atesta a falência do atual sistema de gestão do futebol brasileiro e questionou a sua composição. Vários dos seus 17 integrantes mantêm uma relação direta com a confederação, o que pode sugerir a falta de imparcialidade em decisões mais polêmicas.
Paulo André, no entanto, ressaltou que o Bom Senso, apesar das diferenças políticas com a CBF, poderia dar sua contribuição ao comitê, notadamente para os debates sobre gestão. Ele também defendeu a participação de outros "atores que hoje não estão alinhados com a direção da CBF".
Terra - Como você recebeu a criação do comitê de reformas da CBF?
Paulo André - O Comitê de Reformas é um reconhecimento institucional de que o modelo atual está falido. Portanto, o Comitê é fruto da crise da CBF e da pressão das pessoas e entidades que exigem mudanças.
Terra - Do grupo de 17 pessoas que formam o comitê, pelo menos 11 têm ligação direta com a CBF. Você acredita que essa composição pode ter imparcialidade na hora de tomar alguma decisão que vá de encontro aos interesses da CBF?
Paulo André - Esse é o principal problema do Comitê. Sem a presença de atores que hoje não estão alinhados com a direção da CBF, o Comitê corre risco de ser apenas para inglês ver. Senti ausência do Flamengo, da Federação Paulista, do Bom Senso, da Universidade do Futebol, da Atletas pelo Brasil, por exemplo. Além de pessoas que podem contribuir, como Zico e Leonardo.
Terra - A partir do anúncio da criação do comitê, o Bom Senso alimentou a expectativa de ser chamado a participar de algum grupo relacionado ao trabalho?
Paulo André - Sim. Temos condições de contribuir nessa reforma. Temos diferenças políticas com o atual comando da CBF, mas todos queremos uma gestão moderna, transparente e democrática. Nesse aspecto da reforma da gestão temos propostas.
Terra - A CBF, na sua avaliação, estaria disposta a atacar o problema nevrálgico que acomete a confederação - a suspeita de envolvimento de seus dirigentes com o recebimento de propina por acordos com parceiros comerciais?
Paulo André - Ao fazer um Comitê com as características atuais, dificilmente. Mas o Comitê de Reformas pode ser efetivo se convidar mais pessoas com credibilidade para seus grupos de trabalho.
Terra - O comitê seria uma estratégia da CBF para desviar o foco que recai sobre a entidade nos últimos meses, o de estar envolvida em escândalos de corrupção?
Paulo André - Não pode se resumir a isso. Se for assim será mais uma grande decepção.
Terra - Como você recebeu as propostas da Primeira Liga encaminhadas recentemente à CBF?
Paulo André - Com entusiasmo e esperança. São um bom ponto de partida. A partir dos 10 pontos da Primeira Liga podemos adicionar o voto para os atletas na CBF, as certificações e capacitações para trabalhar no futebol, os termos de funcionamento do órgão regulador, como existe na UEFA e em outros mercados. O debate entre mais segmentos da comunidade do Futebol enriquecerá e confere mais legitimidade à proposta de reforma.