Polêmica sobre investigação de empresas marca reunião da CPI do Futebol

A CPI do Futebol reuniu-se nesta quarta-feira (7) para apreciar novos requerimentos que auxiliem suas investigações sobre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A solicitação de quebra de sigilo bancário de algumas empresas, suspeitas de superfaturamento na venda de imóveis para a CBF, provocou discussão entre os membros.

O presidente da CPI, senador Romário (PSB-RJ), colocou em votação quatro requerimentos de sua autoria que exigem as informações fiscais das empresas Zayd Empreendimentos e D’Araújo Incorporação e de seus respectivos administradores. Elas foram citadas em reportagens e, segundo Romário, não se defenderam das acusações.

O senador João Alberto Souza (PMDB-MA) não concordou com os requerimentos, e disse que não seria adequado que a CPI as colocasse na mira sem evidências concretas de malfeitos.

— Eu não sei nada a respeito dessas empresas. Na hora que aprovamos esse requerimento, vamos expô-las à opinião pÚblica. O que tem de real contra elas? — indagou.

João Alberto também alegou que não teria recebido os requerimentos com antecedência e, portanto, não tinha conhecimento do que seria votado pela CPI. Romário garantiu que a CPI distribuiu a pauta a todos os seus membros já na segunda-feira. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) lembrou que a pauta de votações é pública e pode ser acessada livremente por qualquer um.

O senador Omar Aziz (PSD-AM) também fez ressalvas aos pedidos de quebra de sigilo das empresas e seus responsáveis. Ele recordou que uma das primeiras ações da CPI foi se informar do andamento de quaisquer ações judiciais ou investigativas contra a CBF por meio de encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello.

Na ocasião, segundo Omar, o andamento das ações ainda era inconclusivo. Para ele, é preciso atualizar essas informações antes de intimar as empresas envolvidas.

— Não somos polícia para investigar. Precisamos saber da Polícia Federal e do Ministério Público o que têm de concreto sendo investigado. Queria convidá-los para vir aqui. Nós temos prazo e temos que definir o que queremos desta CPI — insistiu.

O senador pediu, ainda, que a CPI dê preferência a ouvir dirigentes de clubes e federações, “que são quem faz o futebol”. Ele reclamou da ausência de presidentes de clubes que haviam sido convidados para audiências, e disse que, caso o convite não garanta a presença deles, o ideal seria fazer convocações – que têm caráter obrigatório.

Dois requerimentos foram aprovados nesse sentido, intimando como testemunhas os presidentes das 27 federações estaduais e os presidentes dos 20 clubes que disputam a primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

A CPI aprovou também pedido de quebra do sigilo bancário do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, referente ao ano de 2013. Em agosto, já haviam sido solicitadas as informações fiscais do dirigente dos últimos dois anos. Um último requerimento convida para audiência o ex-presidente do Clube Atlético Mineiro Alexandre Kalil, que hoje preside a recém-criada Liga Sul-Minas-Rio de clubes.

A reunião desta quarta também ouviu os presidentes do Santos Futebol Clubes, Modesto Roma Júnior, e do São Paulo Futebol Clube, Carlos Miguel Aidar. Eles elogiaram a lei que criou o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut) e defenderam a melhoria da gestão do futebol.

O Profut é um programa de refinanciamento de dívidas dos clubes de futebol, no qual as agremiações podem se inscrever mediante a adoção de práticas de responsabilidade fiscal e administrativa. Aidar disse que a ferramenta é boa, mas que os clubes precisam ter seriedade no cumprimento de suas obrigações.

— Todos os clubes estão literalmente falidos, pela irresponsabilidade de seus gestores, que se endividam por conquistas e deixam a conta para o sucessor. O refinanciamento é bom, mas, se os clubes não se comprometerem, em breve a situação voltará a ser igual — alertou.

Roma disse acreditar que os problemas financeiros do futebol brasileiro não serão solucionados em menos de uma década, e defendeu a profissionalização dos dirigentes como um caminho para gestões administrativas mais eficientes no futuro.

— A visão que se tem do dirigente é que somos ladrões e desonestos. Isso está longe de ser verdade. O que vejo são pessoas se sacrificando para dedicar seu tempo ao futebol. Os presidentes devem passar a ter remuneração. Temos uma missão difícil e a nós cabe trabalhar com a razão, não com a paixão — afirmou.

Roma também fez críticas à atuação dos empresários de jogadores, a quem chamou de “aliciadores” e “escravizadores” que “cafetinam o futebol brasileiro”. Já Aidar sugeriu que os clubes passem a se organizar na forma de empresas, e que a legislação passe a prever isso de forma compulsória.

O senador Romário quis saber dos presidentes se a CBF havia feito pressão sobre eles para que não comparecessem à CPI. Ambos negaram. Romário perguntou também se os clubes brasileiros recebem dinheiro da confederação. Aidar e Roma explicaram que patrocinadores da CBF pagam as viagens e a hospedagem das equipes durante os campeonatos nacionais.