José Maria Marin é acusado de receber mais de R$ 20 milhões em propina

Ex-presidente da CBF foi detido em Zurique, na Suíça

Documento divulgado nesta quarta-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos cita o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin como um dos beneficiários do esquema de pagamento de propinas envolvendo a Fifa. Marin está envolvido na venda de direitos de transmissão de quatro edições da Copa América e na celebração de contratos de marketing na Copa do Brasil. Segundo as autoridades americanas, Marin teria recebido cerca de R$ 21,8 milhões em subornos.

Somente pelos direitos de transmissão das Copas América 2015, 2016, 2019 e 2013, a empresa Datisa acertou o pagamento de até R$ 340 milhões em propinas, sendo parcelas de R$ 9,6 milhões destinadas ao então presidente em exercício da CBF, por cada edição da competição, além de “luvas” pela assinatura do contrato.

Em relação ao acordo com a empresa Traffic, em agosto de 2012, o Departamento de Justiça dos EUA revela que o acerto foi condicionado ao pagamento de subornos no valor de R$ 2 milhões por ano, até 2022. A propina seria dividida entre Marin e outros dois "co-conspiradores" — não citados nominalmente no documento. Assim, até este ano, Marin já teria recebido cerca de R$ 2,6 milhões.

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O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin e outros seis dirigentes da Fifa foram presos nesta quarta-feira (27) pela polícia suíça, em uma operação surpresa a pedido dos Estados Unidos. 

Eles estão sendo investigados pela Justiça norte-americana por suposto esquema de corrupção. O Departamento de Justiça dos EUA pediu a detenção de Marin, de Jeffrey Webb (Ilhas Cayman), vice-presidente da comissão executiva e presidente da Concacaf, Eduardo Li, presidente da Federação da Costa Rica, Julio Rocha (Nicarágua), presidente da Federação Nicaraguense, Costas Takkas, braço-direito do presidente da Concacaf, Rafael Esquivel, presidente da federação da Venezuela e membro do comitê-executivo da Conmebol, e Eugenio Figueredo (Uruguai), que também integra o comitê da vice-presidência executiva e até recentemente era presidente da Conmebol. 

Dono da Traffic - importante empresa de venda de ingressos e marketing esportivo -, o brasileiro José Hawilla é mais um brasileiro envolvido em escândalo no setor de futebol também investigado pela Justiça americana. Hawilla devolveu US$ 151 milhões (R$ 473 milhões) em um acordo com a Justiça, em dezembro do ano passado, quando confessou a sua participação no esquema de extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. Em 14 de maio deste ano foi considerado culpado por fraude bancária. 

Confira nota divulgada pela Justiça dos Estados Unidos, que cita o acordo:

"Em 12 de dezembro de 2014, o acusado José Hawilla, dono e fundador do Grupo Traffic, o conglomerado de marketing esportivo brasileiro, foi indiciado e declarado culpado por extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Hawilla concordou em devolver mais de US$ 151 milhões, sendo US$ 25 milhões destes pagos no momento de seu apelo.

Em 14 de maio de 2015, os acusados da Traffic Sports USA Inc. e Traffic Sports International Inc. foram considerados culpados por fraude bancária.

Todo o dinheiro devolvido pelos acusados estão sendo guardados na reserva para assegurar sua disponibilidade para satisfazer qualquer ordem de restituição em sentenças que beneficiem qualquer pessoa ou entidade qualificada como vítima dos crimes destes acusados sob a lei federal".

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Se José Hawilla admite que cometeu irregularidades, admite que não declarou esses bens no passado. Se não declarou, cometeu crime de sonegação, logo, a Receita Federal deve investigar o caso. E se agora está devolvendo nos Estados Unidos o produto das irregularidades, se configura evasão de divisas e nova sonegação.

Vale destacar que de acordo com o regulamento do imposto de renda - decreto 3.000/99, em seu artigo 957, "Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de imposto (Lei 9.430/66, art. 44). II - de 150%, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts 71,72 e 73 da Lei 4.502/64, independente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis."

O imposto é de 27,5% sobre o valor sonegado que deverá ser pago acrescido de multa de 150% e taxa selic desde o momento do ato da sonegação.

Acerca da possibilidade de uma nova investigação no Brasil sobre os escândalos envolvendo a Fifa e nomes de brasileiros, citados nas investigações da Corte Americana, o Ministério Público Federal (MPF) afirmou nesta quarta (27) que "eventuais acordos de cooperação internacional tramitam sob sigilo, sob pena de prejudicar o andamento das investigações". O órgão informou ainda que não vai se pronunciar sobre o assunto.  

Barcelona

Traffic Sports Internacional também já fez negócios com o Barcelona. Esta empresa era proprietária de direitos de três jogadores do Barcelona. Durante o mandato de Laporta, Henrique e Keirrison foram duas contratações muito questionadas porque o técnico Pepe Gardiola não foi consultado. Depois Douglas foi contratado, e tampouco teve avaliação do técnico Luis Enrique.

Vale recordar que o ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell também manteve negócios com empresas brasileiras e foi investigado pela Justiça do país. Inclusive, Sandro Rosell passou a trabalhar na Nike em 1996, intermediando contratos de fornecimento de material esportivo para o Barcelona e para a seleção brasileira, parcerias que vigoram até os dias atuais. Na ocasião, tornou-se amigo do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Após passar três anos morando no Brasil como diretor da Nike, em 2002 voltou para a Espanha e criou a própria empresa, a Bonus Sports Marketing.

No escândalo deflagrado nesta quarta-feira, o Departamento de Justiça americano cita a CBF em suposto suborno pago em negociação da entidade com “uma grande marca esportiva americana”. A Nike é fornecedora da seleção brasileira desde os anos 1990.

A nota fala em um “esquema de pagamento de propinas” relacionado a contratos de marketing e transmissão de jogos da Copa. José Hawilla, dono do grupo Traffic, estaria envolvido nesses pagamentos, segundo o Departamento de Justiça americano.

Sandro Rosell deixou o Barcelona ano passado, um dia após se confirmar a investigação em relação à contratação de Neymar. Em um pronunciamento oficial na sede do clube, após uma reunião com o restante da direção do Barça, o dirigente entregou um pedido de demissão por conta da denúncia que sofreu. 

Segundo investigação, Rosell teria “maquiado” o valor real da negociação para se apropriar de recursos do clube. Oficialmente, o Barcelona diz que gastou € 57 milhões (cerca de R$ 182 milhões) para contratar Neymar, mas o jornal “El Mundo” publicou uma reportagem afirmando que o valor poderia chegar a € 95 milhões (R$ 303 milhões).   

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Escândalo na Fifa

De acordo com fontes locais, pode chegar a 14 o número de acusados. Logo nas primeiras horas da manhã, a polícia suíça deflagrou uma operação no luxuoso hotel Baur au Lac, em Zurique, onde alguns dos cartolas estavam hospedados para o encontro anual de dirigentes da Fifa. No entanto, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, de 79 anos, não está entre os acusados. Até o momento, o número um da instituição é alvo apenas de investigação. 

Na presidência da Fifa desde 1998, quando sucedeu João Havelange, Blatter deve ser reeleito na próxima sexta-feira (29) para seu quinto mandato consecutivo. Seu único adversário na disputa é o príncipe da Jordânia, Ali bin Al-Hussein. As suspeitas de corrupção recaem sobre mais de US$ 100 milhões que teriam sido movimentados nos últimos 20 anos e se referem a contratos de marketing, direitos televisivos e organização de torneios. A Fifa foi investigada há anos pelo FBI e sempre negou as acusações. Agora, os EUA devem pedir a extradição dos suspeitos.

Além do processo nos Estados Unidos, as autoridades suíças recolheram hoje documentos na sede da Fifa em uma investigação sobre a escolha das sedes dos mundiais de 2018 e 2022, que serão disputados na Rússia e no Qatar, respectivamente. Logo após a notícia das prisões, o ministro russo do Esporte, Vitali Mutko, afirmou à mídia local que as investigações não estão relacionadas à organização do torneio no país. "Vimos que algumas pessoas foram presas. Muitas delas não têm relação nenhuma com a análise dos requisitos para sediar o mundial e não eram membros do comitê executivo da Fifa", destacou. 

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Futuro - De acordo com o porta-voz da Fifa, Walter De Gregorio, apesar das prisões, o congresso anual da entidade em Zurique continuará, assim como a eleição presidencial de sexta-feira. De Gregorio também garantiu que as Copas do Mundo de 2018 e 2022 serão disputadas "normalmente". Sobre a situação de Blatter, o porta-voz contou que ele está "calmo" e que "não renunciará ao cargo". Segundo o porta-voz, a Fifa é a parte "prejudicada" no episódio, portanto, está "colaborando" com as autoridades. 

Os bastidores da Fifa nas vendas de ingressos para a Copa no mercado negro 

Em junho de 2014, o Jornal do Brasil publicou reportagem sobre o suspeito sistema de venda de ingressos para a Copa do Mundo adotada pela Fifa.  O que era segredo estava nos bastidores obscuros da distribuição dos bilhetes, envolvendo troca de favores e agentes do mercado negro. A verdade foi revelada pelo jornalista britânico Andrew Jennings, em seu livro “Um jogo cada vez mais sujo”, que dá detalhes das transações ilegais que enriqueceram os representantes das maiores instituições ligadas ao Futebol, incluindo os nomes dos brasileiros Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF e João Havelange, ex-presidente da Fifa.

As investigações de Jennings apontam os irmãos Jaime Byrom e Enrique Byrom, do México, como os grandes vilões nas negociações fraudulentas de ingressos da Copa, desde o Mundial realizado em 1986. Os Byrom são acionistas majoritários das empresas Match Services e Match Hospitality, que prestam serviços para a Fifa na distribuição dos tickets e hospitalidade durante as competições. De acordo com Jennings, atualmente há três tipos de contrato entre a Fifa e as organizações Byrom: um que trata da distribuição dos ingressos para os jogos da Copa no Brasil; outro específico para a acomodação do público estrangeiro no país sede e dos próprios brasileiros que vão se deslocar pelas cidades das competições; e um contrato para a ocupação dos novos e luxuosos camarotes de vidro nos estádios, com todas as mordomias oferecidas como comidas, bebidas e decoração arrojada. Esse último contrato foi feito através da Match Hospitality, que tem como um dos sócios o sobrinho de  Joseph Blatter, presidente da Fifa, Philippe Blatter, e movimenta a maior soma de valores.

Segundo Jennings, os Byrom tinham o controle dos ingressos, e o esquema deles no Brasil incluía os Grupos Traffic e Águia. O dono da Traffic, José Hawilla, é um dos detidos em Zurique nesta quarta (27). Hawilla devolveu US$ 151 milhões (R$ 473 milhões) em um acordo com a Justiça, em dezembro do ano passado, quando confessou a sua participação no esquema. Contra ele tem as acusações de extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Em 14 de maio deste ano foi considerado culpado por fraude bancária. 

>> Veja aqui a reportagem

Saiba quem são os 14 acusados de corrupção na Fifa

A operação das polícias da Suíça e dos Estados Unidos, que resultou na prisão imediata de sete dirigentes da Fifa, aponta ainda outras sete pessoas por suposta corrupção em contratos da entidade máxima do futebol.

Conheça os acusados:

- Jeffrey Webb, atual vice-presidente da Fifa e presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, América Central e Caribe (Concacaf). Foi detido hoje.

- Eduardo Li: Detido nesta quarta, é presidente da Confederação de Futebol da Costa Rica, membro do atual Comitê Executivo da Fifa e do Comitê Executivo da Concacaf;

- Julio Rocha: Vindo da Nicarágua, é diretor de desenvolvimento da Fifa e também foi levado pelos policiais;

- Costas Takkas: Preso hoje, é assistente da Presidência da Concacaf;

- Jack Warner: ex-presidente da Concacaf, ex-vice-presidente da Fifa e membro do Comitê Executivo da entidade;

- Eugenio Figueredo: Preso na operação, é atual vice-presidente da Fifa e membro do Comitê Executivo. Também é ex-presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol);

- Rafael Esquivel: atual membro do Comitê Executivo da Conmebol e presidente da Federação Venezuelana de Futebol. Foi preso hoje;

- Nicolás Leoz: ex-membro do Comitê Executivo da Fifa e ex-mandatário da Conmebol;

- Alejandro Buzarco: CEO da Torneos y Competencias, empresa de marketing esportivo;

- Aaron Davidson: presidente da Traffic Sports USA Inc., empresa de marketing esportivo;

- Hugo Jinkis: Empresário e sócio da empresa argentina de marketing, Full Play Group;

- Mariano Jinkis: Empresário e sócio da empresa argentina de marketing, Full Play Group;

- José Margulies: Empresário brasileiro que é dono da Valente Corp. e Somerton Ltd, empresa de transmissão de eventos esportivos.

José Maria Marín: Preso hoje, é o vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). É também ex-presidente da entidade.

Além deles, o jornal "The Guardian" revelou que outros dez dirigentes ou ex-dirigentes serão ouvidos pela Justiça - sem terem sido acusados pelo crime: Vitaly Mutko (ministro do Esporte e chefe da Copa na Rússia 2018), Issa Hayatou (presidente da Confederação Africana de Futebol), (Espanha), Michel D'Hooghe (Bélgica), Senes Erzik (Turquia), Worawi Makudi (Tailândia), Marios Lefkaritis (Chipre), Jacques Anouma (Costa do Marfim), Rafael Salguero (Guatemala), Hany Abo Rida (Egito).