ASSINE
search button

Adílio lembra de seu Flamengo x Santos histórico: "Me arrepia até hoje"

Eterno camisa 8 rubro-negro se emociona ao lembrar do duelo que se repete hoje

Compartilhar

“Vem tomando pelo Flamengo Leandro, entregando na ponta direita, vem Robertinho, para Adílio, cabeceou é gol!!! Goooooooool do Flamengo, um golaço na cuca legal de Adílio! Merecia, merecia, merecia muito mais! Palmas, palmas, palmas no estádio para Adílio, a maior figura do jogo. É o gol do campeonato, é o gol do tricampeonato”  

Foi desta forma que o narrador Waldir Amaral, figura histórica do rádio esportivo brasileiro pela Rádio Globo, narrou o terceiro gol do Flamengo nos 3 a 0 sobre o Santos que definiram a final do campeonato brasileiro de 1983. Com a vitória, o Flamengo conquistava o tricampeonato brasileiro em uma final histórica contra o mesmo rival deste domingo, pela estreia do campeonato brasileiro de 2013, neste domingo, em Brasília. 

E aproveitando que a final contra o Santos celebra seus 30 anos no dia 29/05, o Jornal do Brasil falou com “a maior figura do jogo”, segundo o histórico Waldir Amaral. Adílio, craque do Flamengo entre 1977 e 1986 e que acaba de virar personagem do livro “Adílio, camisa 8 da Nação”, falou um pouco sobre aquela campanha e aquele título, além de sua expectativa para o Flamengo x Santos deste domingo. 

Na campanha até a final, o Flamengo passou por três fases até chegar às quartas de final contra o Vasco, em que uma vitória por 2 a 1 e um empate em 1 a 1 deram ao Flamengo a vaga para a semifinal contra o Atlético-PR, sensação do campeonato e que contava com os futuros ídolos do Fluminense, Assis e Washington. Depois de um categórico 3 a 0 no Maracanã, o Flamengo se classificou após segurar um 2 a 0 contra no maior público da história do Estádio Couto Pereira, em Curitiba.

Adílio conta que a final contra o Santos, que tinha craques de renome como Pita, Paulo Isidoro e Serginho Chulapa, começou a ser ganha durante a derrota por 2 a 1 no primeiro jogo. O gol de Baltazar, marcado de cabeça aos 22 do segundo tempo, foi considerado pelo Flamengo como uma certeza de que, no Maracanã, o time conquistaria o título:

“O Santos estava ganhando de 2 a 0 no primeiro jogo, e tinha um time fantástico. Quando, com muita dificuldade, conseguimos um gol, isso nos deu praticamente a chance de decidir no Maracanã. Se fosse 2 a 0, 3 a 0 ia ficar difícil. Chegamos no vestiário e falamos um pro outro: ‘No Maraca vai ser diferente’. E no jogo de volta já começamos fazendo gol com 40 segundos, com o Zico, e aí tudo aconteceu”, conta o ex-craque, revelando um detalhe curioso a respeito do momento do gol de Baltazar:

“O próprio ponta-esquerda deles(João Paulo), quando o Flamengo fez o gol, falou: 'Xiii...', porque sabia que pro Flamengo no Maracanã era quase certo. Quem me conta isso é o Leandro, que estava perto dele na hora”, diverte-se. 

O próprio Adílio tem ciência de que esta partida contra o Santos, como aliás já disseram vários colegas de time como Zico e Júnior, foi a maior atuação de sua carreira no Flamengo.

“Foi muito por causa das circunstâncias do jogo. Mas aquele estádio lotado, com a torcida toda apoiando, não podia ser decepcionado, e viemos com tudo para o segundo tempo. O Carlos Alberto Torres(treinador) deu muita liberdade a mim e ao Zico, botou o Élder(meio campo) e o Júlio César(ponta-esquerda), e conseguimos anular o Pita, um dos melhores jogadores deles. Assim, eu fiquei mais livre para jogar e armar o ataque com o Zico e o Baltazar. Aí, deu pra jogar bastante. Também considero um dos melhores jogos da minha vida. Toda vez que relembro esse jogo, eu arrepio todo”.

E revela que um dos motivos que mais o motivaram para o jogo foi o fato de que, no lado santista, estavam pelo menos dois que haviam disputado a Copa de 1982, na Espanha, para a qual Adílio não foi convocado: o meia Paulo Isidoro e o centroavante Serginho, que era inclusive titular daquela seleção:

“Era um jogo que estava todo mundo ali que disputou a Copa do Mundo, e queria mostrar pros paulistas, para todo mundo que eu tinha condições de estar naquele grupo”, disse Adílio, que disputou apenas dois jogos pela Seleção, contra a Seleção Baiana em 1979 e contra a Alemanha Ocidental em 1982, quando deu o passe para o gol da vitória por 1 a 0, feito por Júnior, companheiro de Flamengo.

 O título contra o Santos, com um público de mais de 155 mil torcedores no Maracanã, também foi o último jogo de Zico em sua primeira passagem pelo Flamengo. A negociação do Galinho com a Udinese foi realizada de forma tão secreta que mesmo os companheiros de clube só souberam do negócio após o jogo:

“Depois do jogo nós viajamos para a Alemanha, Eu, Zico, Júnior e Leandro. Lá na Alemanha é que nós ficamos sabendo, porque até então acho que quase ninguém sabia, nem dentro do grupo”, conta o amigo de Zico, que mal lembra do tumulto após o gol marcado por ele.

“Assim que eu fiz o gol e fui comemorar, um fotógrafo entrou para tirar foto, e os jogadores do Santos ficaram nervosos, o Paulo Isidoro empurrou um, o goleiro reserva do Santos também veio junto com o Serginho, mas eu só vi isso depois no videotape. Na hora eu só comemorei o gol que sacramentava o título, não tinha tempo para mais nada. 

O eterno camisa 8 rubro-negro revela que o sucesso daquele elenco passa pela velha receita vitoriosa dos campos da Gávea: a mescla entre os atletas saídos da base do clube e os mais experientes. Era uma necessidade, diante das saídas no final de 1982 de nomes como Andrade, Tita, Nunes e Lico, fundamentais nas conquistas anteriores do rubro-negro carioca.

"Quando as gerações do Zico( que ainda tinha Júnior, Rondinelli e Luxemburgo como companheiros) e a minha( juntamente com Andrade, Tita e Júlio César) se encontraram, a gente passou a ganhar tudo, e começou no Carioca. Depois disso, fomos melhorando e botando outros jogadores para nos ajudar a conquistar os títulos", diz Adílio, que revela que, mesmo com uma receita que tinha tudo para dar errado, Carlos Alberto Torres, o Capitão da Copa de 1970, foi fundamental para a conquista do título:  

“Ele armou um esquema até certo ponto arriscado, mas botou o time para frente. O Élder, que era o mais marcador do meio campo e se revezava com o Vítor, também saía muito jogando, e o nosso time ficou mais solto. Nossos laterais eram superofensivos, eu mesmo chegava muito também na frente, e o time fazia muitos gols”, relembra Adílio. Foi, de fato, o melhor ataque do campeonato(com 57 gols marcados em 26 jogos) e o melhor da História do Flamengo em Campeonatos Brasileiros até 2009, quando o clube foi campeão brasileiro com 58 gols marcados, porém em 38 jogos.

E sobre a camisa 8, ele revela que Geraldo, grande amigo de Zico na base e que prometia ser um dos maiores jogadores do país antes de morrer por complicações em uma cirurgia de amídalas, já dizia: a camisa 8 iria pertencer àquele jovem nascido na Cruzada São Sebastião, no Leblon, e que defenderia a camisa rubro-negra por 628 jogos. “Ele disse que a camisa ia ser minha, que eu seria o herdeiro dele. Ele com certeza me ajudou muito lá do plano astral”, contou o ídolo rubro-negro, emocionado. 

Adílio vê Fla forte, mas quer ver Neymar

  Flamengo e Santos se enfrentam neste domingo, no novo estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília ,na abertura do Campeonato Brasileiro.  Mais de 50 mil ingressos já foram vendidos para a partida. Para o jogo e o campeonato,segundo Adílio, o Flamengo continua forte. “É um time que tem tradição no Brasileiro e não fica a dever a nenhum time. Qualquer jogador que vista essa camisa já é um vencedor. O Flamengo tem bons jogadores, jogadores competentes para fazer um bom papel, e eu confio no trabalho do Jorginho e da comissão técnica”, disse o camisa 8, sem no entanto mencionar nenhum jogador específico. “Acho que o grupo é muito forte”, disse Adílio, diplomático.

Sobre o Santos, adversário do Flamengo neste domingo, Adílio foi direto ao ponto: Neymar, tem que ser bem marcado para que o rubro-negro consiga um bom resultado. “Tem que  tomar muito cuidado com ele”, alertou.

O atual atacante do Santos tem uma oferta de R$ 53 milhões do Barcelona, da Espanha, um valor ínfimo perto da multa rescisória de 65 milhões de Euros, e é um dos jogadores mais cobiçados do mundo do futebol desde que virou realidade em 2010. No entanto, engana-se aquele que pensa que Adílio gostaria de ver o jogador pegando um avião o mais rápido possível para a Europa e não enfrentar o rubro-negro:

“Eu gosto e quero ver o Neymar jogando, seja aqui no Brasil ou lá fora. Um jogador da qualidade tem que estar jogando. Gosto muito dele, é um excelente jogador”, elogiou o “Neguinho bom de bola”.

Ajuda de Geraldo

A respeito da camisa 8, que virou título do livro sobre a sua vida, Adílio revela que Geraldo, grande amigo de Zico na base e grande promessa do futebol ao morrer com apenas 22 em 1976, foi um dos seus grandes incentivadores: “Ele disse que a camisa ia ser minha, que eu seria o herdeiro dele. Ele com certeza me ajudou muito lá do plano astral”, contou o ídolo rubro-negro, emocionado.

De fato, aquela camisa tão simbólica só poderia pertencer a camisa 8 iria pertencer àquele jovem nascido na Cruzada São Sebastião, no Leblon, e que defendeu as cores do Flamengo por 628 jogos. Como disse Waldir Amaral no momento de maior glória da carreira de Adílio, “Merecia, merecia, merecia”.