Palmeirenses falam em 'zica', mas juram 'amor de casamento'

A palavra mais ouvida na tradicional lanchonete Alviverde, bar que fica em frente ao estádio Palestra Itália, zona oeste da capital paulista, durante o jogo entre Flamengo e Palmeiras neste domingo foi "zica". Antes do início da partida, o Palmeiras já tinha pouquíssimas chances de continuar na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Apesar disso, cerca de 60 torcedores do clube foram ao local para assistirem juntos ao empate, de 1 a 1, que deixou o time ainda mais perto do rebaixamento.

Apesar de otimistas, os torcedores do clube que foram ao bar, declaradamente palmeirense, não demoraram a usar uma palavra para afastar o azar. Logo com um minuto de jogo, ela surgiu e permaneceu durante toda a partida. "Sai zica", gritou um torcedor no primeiro lance de bola parada do Flamengo.

A outra palavra que dominou as conversas paralelas durante a exibição da partida foi um nome próprio: Vagner Love. O atacante do Flamengo, que foi revelado no clube alviverde, foi um dos mais citados. No entanto, o nome dele vinha sempre acompanhado de um xingamento. "Só usou o (Palmeiras) de ponte. Não gosto dele", gritou um dos palmeirenses mais exaltados antes dos dez primeiros minutos de jogo.

Os mais otimistas preferiam enaltecer o nome do único jogador que ainda parece estar em harmonia com a torcida. No primeiro do tempo do jogo, quando o Palmeiras se mostrava agressivo, o atacante argentina Barcos era bastante elogiado. "Esse Barcos joga demais. Se tivesse dois dele", disse um jovem palmeirense após uma das vezes que o argentino saiu da área para buscar a bola no meio-campo. Os mais exagerados aproveitaram a onda. "Se colocassem o Barcos embaixo do gol, a gente não caia", complementou em seguida outro torcedor.

Aos poucos, os palmeirenses foram ficando mais confiantes. Quase todos os 60 palmeirenses aplaudiram automaticamente quando o meia Tiago Real arriscou um chute de fora da área, que passou a centímetros do travessão. Mas, a explosão veio com o gol de Vinicius, que contou com a falha do goleiro Paulo Victor do Flamengo para marcar.

Os torcedores do Palmeiras já começavam a acreditar na possibilidade de permanecer na elite do futebol brasileiro. "Hoje, Deus está olhando por nós", respondeu um palmeirense a outro que insistia em permanecer pessimista. Os aplausos voltaram quando o árbitro expulsou um dos jogadores do Flamengo. Em seguida, o atacante Maikon Leite perdeu um gol cara a cara com o goleiro, o que lhe deixaria entre os mais odiados por parte dos fanáticos que foram até a porta do Palestra Itália para ver o jogo.

Quando o ex-palmeirense Vagner Love empatou o jogo, a minutos do fim da partida, os palmeirenses voltaram a criticar os jogadores, a diretoria e o clube. No entanto, o atacante do Flamengo foi o alvo em comum. "Fez chinelinho em cima do Palmeiras para ir para o Flamengo. Safado", gritavam alguns torcedores em frente a pequena TV da lanchonete.

Ao final, uma das poucas torcedoras do clube que estava disposta a falar resumiu o sentimento pelo clube, apesar do time estar a um passo de mais um rebaixamento. "É igual amor de casamento. Se seu marido falha, você não deixa de amar", disse a pedagoga Isabelly Wesbek, de 37 anos. Apesar disso, confessou em seguida. "Tomei uma garrafa de vodka de raiva", disse.

Durante todo o jogo, uma unidade móvel da Polícia Militar permaneceu na frente da bilheteria do Palestra Itália, que fica quase na direção da lanchonete onde se concentraram os torcedores. Ainda que irritados, nenhum deles tentou destruir a fachada do clube. O Palmeiras agora tem que torcer contra a Portuguesa, que joga com o Grêmio no Canindé. Em caso de vitória do time lusitano, o Palmeiras estará matematicamente rebaixado para a Série B. Com 34 pontos, o time é 18° colocado. O Flamengo, sem pretensões, é 11º, com 48 pontos.