Fla-Flu: ilustres torcedores relembram os jogos que marcaram suas vidas

Clássico 'mais charmoso do mundo' completa 100 anos de rivalidade

No domingo 7 de junho de 1912, em Laranjeiras, Flamengo e Fluminense enfrentaram-se pela primeira vez na história. Como consta do registro da disputa nas páginas do Jornal do Brasil, com um placar de 3 a 2, o dono do campo derrotou o time rubro-negro, formado por 9 ex-jogadores de Laranjeiras. Começou ali o 'clássico mais charmoso do mundo'.

De lá para cá muita coisa aconteceu. Eles se enfrentaram 389 vezes, ao longo dos 100 anos que se comemora neste sábado (7). Foram 139 vitórias do Flamengo e 123 do Fluminense, número inferior ao dos empates: 127. 

No transcorrer destas quase quatro centenas de jogos, o Flamengo fez 568 gols e os tricolores 50 a menos - 518. Em 1963, 51 anos depois do primeiro jogo, houve um recorde mundial de público em partidas entre clubes: 194.603 espectadores, jamais superado. Foi a final do Campeonato Carioca. O jogo terminou com com um empate sem gols, o que garantiu ao rubro-negro a faixa de campeão. Os registros destes jogo foram feitos pelos fotógrafos do Jornal do Brasil.

Para lembrar um pouco dos muitos duelos que os dois times travaram, o JB, com a ajuda do CPDoc JB, resgatou algumas das muitas fotos que mantém arquivadas. E foi buscar o depoimento de tricolores e flamenguistas famosos, sobre as partidas que mais lhes marcaram. 

Versão Tricolor

Nelson Motta, crítico musical, destacou a final do campeonato carioca de 1969, vencida pelo clube das Laranjeiras por 3 a 2. Segundo ele, a vitória marcou o início de uma era de glórias e títulos do Fluminense.

“Fizemos 2 a 0, mas relaxamos e permitimos o empate. Sorte a nossa que o Flávio, uma espécie de Fred Negro daquela época, desempatou no finzinho. Tínhamos um timaço, com Félix, Pintinho e Marco Antônio. A reação do Flamengo valorizou o espetáculo. Foi um jogaço. Comemorei como nunca, na arquibancada”.

Nelson Rodrigues Filho, cujo pai foi um dos cronistas que definiu o clássico com uma frase que até hoje corre de boca em boca - "O Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada" - , cita a vitória na final do Campeonato Carioca de 1983 como o principal embate entre os dois.

“Foi minha melhor experiência como torcedor, uma felicidade incrível. O passe do Delei para o golaço do Assis foi algo primoroso, o início de uma era. A torcida do Flamengo já gritava ‘eliminado’, quando no finalzinho saiu a obra de arte. O coro foi, então, entoado pela nossa galera. Uma alegria indescritível”, relatou.

Beto Silva, do Casseta e Planeta, elegeu a vitória no Carioca de 1984, ano em que o Fluminense já havia sido campeão brasileiro. A equipe era recheada de craques, encabeçada pelo chamado "Casal 20" - Washington e Assis. O segundo marcou de cabeça o gol que deu o bicampeonato estadual ao tricolor.

“Eu lembro de vários Fla-Flus, mas só das vitórias do Fluminense. As derrotas eu esqueço. Este de 1984, outra vez com gol Assis, foi muito emocionante. Eu estava lá. Impossível esquecer”, disse.

Ivo Meirelles, presidente da Estação Primeira de Mangueira, trás na memória o jogo com que Flamengo e Fluminense abriram o campeonato estadual em 1986. A partida marcava a volta de Zico aos gramados, que tinha fraturado o joelho em uma entrada duríssima do zagueiro Márcio Nunes, do Bangu. Sob os gritos de ‘bichado’, o Galinho de Quintino calou a torcida adversária marcando três gols.

“Foi lindo. O Galo só faltou fazer chover e deixou a torcida tricolor caladinha”, provoca.

O sambista Dudu Nobre escolheu a partida de despedida do maior ídolo da torcida rubro-negra. Em dezembro de 1989, Zico deixou os gramados com uma sonora goleada sobre o Fluminense: 5 a 0. O músico lembrou que chegou ao Estádio Municipal de Juiz de Fora no instante em que o Galinho marcava o primeiro gol do jogo.

“Foi inesquecível. Pisei na arquibancada e o Zico balançou o filó. Um golaço de falta. Me arrepio até hoje”.

Toni Platão, músico, recorda o título estadual de 1995, com um gol de barriga de Renato Gaúcho. O jogo terminou 3 a 2 para o tricolor. O desempate saiu aos 42 minutos do segundo tempo.

“O Flamengo, com Romário e Sávio, havia contratado Edmundo, o Animal. O Fluminense vinha mal das pernas. Reza a lenda que Renato Gaúcho pagava os salários de alguns jogadores do elenco. Aquela barriga foi santa, impossível esquecer o que senti no Maracanã naquele dia”.

Diogo Nogueira, músico, recorda que em outubro de 2009 estava entre as 82 mil pessoas que foram ao Maracanã assistir a mais um Fla-Flu. O dia era de Adriano, que assumiu a artilharia daquele Brasileirão com os dois gols da partida.

“O Imperador bagunçou o Fluminense. Foi um jogão e o Mengão deitou e rolou”, lembrou o filho de João Nogueira.

Leila Barros, medalhista de bronze nas olimpíadas de Atlanta e Sidney com a seleção brasileira de vôlei, lembrou um 5 a 3 do Flamengo, no início de 2010, época em que o ataque era chamado de "Império do Amor" - Vágner Love e Adriano Imperador.  O Fluminense vencia por 3 a 1 até o intervalo, mas o Fla fez uma virada heroica, ainda que com um jogador a menos desde os 17 minutos do segundo tempo.

“Eles já cantavam vitória. Mas mostramos nossa força e viramos. Foi muito engraçado. O Emanuel, que torce pro Fluminense, não tinha onde colocar a cara”, disse ela sobre seu marido, campeão olímpico de vôlei de praia.