Ex-rubro-negro Alcindo vira fazendeiro e mantém status de ídolo no Japão

As pioneiras transmissões do futebol japonês no Brasil tinham, apesar dos maestros Zico e Rui Ramos, Alcindo como protagonista nos anos 90. Com a camisa 7 do Kashima Antlers às costas, foram mais de 50 gols em duas temporadas e, além de título nacional, a chance de reconstruir a carreira por aqui. Sem tanto sucesso entre os brasileiros, ele ainda é ídolo no Japão.

Agora fazendeiro no interior paranaense, o ex-jogador voltou à Ásia para um jogo beneficente no ano passado e foi tietado junto a Zico, seu parceiro inseparável. "Não perderam o carinho por mim", conta ele. Revelado pelo Flamengo e hoje aos 44 anos, ele também atuou por Grêmio, Fluminense, São Paulo e Corinthians. Parou no CFZ, em 2000.

Ao Terra, Alcindo conta mais sobre sua rotina atual e analisa os motivos para não ter vingado no Parque São Jorge. Contratado com grande expectativa em 1996, ele teve passagem curta e não brilhou. Sucesso de verdade mesmo foi no Japão. "Lá eu fui ídolo".

Confira a entrevista com Alcindo na íntegra:

Terra - O que você tem feito nos dias de hoje?

Alcindo - Tenho uma fazenda em São Miguel do Iguaçu, fica bem perto de Foz do Iguaçu, no Paraná. Eu moro na fazenda, mas estou a cinco minutos da cidade. A fazenda é de soja, milho e trigo também.

Terra - Faz muito tempo que você se dedica a isso? E futebol, você ainda tem alguma relação?

Alcindo - Quando parei de jogar, já estava aqui com meu pai. A gente já vem de família que mexia com agricultura. Futebol mesmo só nas peladas da vida, no fim de semana (risos).

Terra - Você tem assistido muito futebol? O que achou de Santos x Barcelona?

Alcindo - O futebol brasileiro passa por uma reestruturação. Não é porque o Santos perdeu que ficou pior, foi uma fatalidade do trabalho. O Muricy Ramalho fez as coisas certas, mas não estavam inspirados, sei lá.

Terra - Qual a maior diferença em relação à época em que você atuava?

Alcindo - Vejo hoje o futebol um pouco diferente em um sentido: os grandes craques agora têm muitas mordomias. Alguns jogadores que podem render mais não se cuidam, passam por problemas que você vê aí na mídia.

Terra - Você está falando de quem? Ronaldinho, Adriano...?

Alcindo - Melhor não falar (gargalhadas). Deixa assim.

Terra - Por falar em Flamengo, como você vê o clube nesse momento?Alcindo - É um dos clubes que mais gosto até hoje. Me firmei lá para a carreira profissional. Tive dificuldades para jogar lá. Se você não suar, não joga. Não é só ter habilidade. Isso é importante, mas tendo vontade, raça, você supera. Aí a torcida gosta e você encontra um lugar na equipe.

Terra - O Fla iniciou 2012 com crise e alguns pagamentos ainda estão atrasados. O que falta para o clube? 

Alcindo - Hoje o Flamengo tem dois ou três no comando. O Zico tentou como diretor fazer tudo aquilo que fez como jogador, mas colocaram tudo contra o trabalho dele. Em pouco tempo, tiraram o Zico. Contra o Júnior, foi a mesma coisa. Tem gente que comanda o Flamengo e nem vive o futebol.

Terra - Chegaram a comparar Renato Gaúcho e você no início da carreira. Aquilo prejudicou? 

Alcindo - Isso não tinha nada a ver mesmo, foi uma matéria que fizeram. O Renato foi um grande craque do futebol brasileiro e mundial, enquanto eu estava no início da carreira. Éramos diferentes, tanto que logo eu virei centroavante. Depois fui para o Japão, fiz a minha vida, tive sucesso por lá.

Terra - Você ainda tem ido ao Japão? Como é recebido por lá? 

Alcindo - Estive em junho por lá depois de dois anos. O Zico e eu fizemos um jogo beneficente para as vítimas do tsunami. O pessoal de lá sempre me procura para dar entrevistas, para saber o que eu faço e não perdeu o carinho por tudo que fiz. Fui um ídolo por lá.

Terra - O Zico é seu amigo, você até encerrou a carreira pelo CFZ. Ele que te indicou ao Kashima? 

Alcindo - Sim, foi ele que me indicou na época. Nos dois primeiros anos por lá, fiz muitos gols. Fui ídolo.

NR: ao todo, Alcindo marcou 55 gols em 82 partidas pelo Kashima.

Terra - Por que as coisas não deram certo no Corinthians? 

Alcindo - Quando vim para o Corinthians, tive um problema no joelho já na segunda semana. Joguei machucado, aí não conseguia fazer nada. Em quatro meses, rescindi o contrato que era de seis meses porque não jogava. Não conseguia render, não adiantava.

Terra - Olhando hoje, fica algum arrependimento ou mágoa? A passagem no Corinthians deixou impressão ruim? 

Alcindo - Não tenho mágoa nenhuma, simplesmente não deu certo. No Grêmio tive uma ótima passagem, no Flamengo também, no Fluminense... paciência, acontece. Fui contratado pelo Corinthians para jogar com Edmundo, Marcelinho, Ronaldo, Henrique, Bernardo, Célio Silva, Zé Elias. No fim, ficamos eu e mais um. Enquanto joguei, o time era terceiro lugar do Brasileiro.