Corpo de Sócrates é sepultado em Ribeirão Preto

O corpo do ex-jogador Sócrates, que morreu na madrugada deste domingo em decorrência de um choque séptico provocado por infecção de origem intestinal, foi enterrado nesta tarde, às 17h30 (de Brasília), no cemitério Bom Pastor, em Ribeirão Preto. O velório contou com a presença de familiares, amigos, torcedores e dirigentes do Botafogo-SP, clube da cidade que revelou o meio-campista, morto aos 57 anos.

O ídolo do Corinthians não resistiu à terceira internação deste ano. Em agosto, ele já havia ficado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Albert Einstein por nove dias, por conta de uma hemorragia estomacal. Já em setembro, voltou a ser internado por uma crise de cirrose hepática. Após a segunda alta, Sócrates admitiu os problemas com o álcool e disse que fez "escolhas erradas" ao longo da vida.

Um dos maiores craques da história do futebol brasileiro, o alto e habilidoso meia ofensivo defendeu o Corinthians entre 1979 e 1984, vencendo três Campeonatos Paulistas pela equipe alvinegra. Na Seleção Brasileira, foi capitão na Copa do Mundo de 1982 e também disputou a edição de 1986. Outros clubes que Sócrates defendeu na carreira foram Botafogo-SP, Fiorentina (ITA), Flamengo e Santos.

Ex-companheiros lembram histórias curiosas do Doutor

Carlos Alberto Dario de Oliveira, o Alfinete, 50 anos, foi lateral direito do Corinthians entre 1982 e 1983. Nesses dois anos disputou 107 partidas pelo time e conquistou o Campeonato Paulista em ambas as temporadas. Mas seu início no clube não foi tão fácil: se transferiu do XV de Jaú em março de 1982 com a missão de substituir Zé Maria, ídolo da torcida e quarto jogador que mais vezes atuou pelo clube, com 599 exibições.

Logo na chegada a São Paulo, o jovem de então 21 anos foi recepcionado por Sócrates. "Quando fui para o Corinthians ele estava servindo a Seleção Brasileira que se preparava para a Copa do Mundo. Ele estava de folga (do time), mas foi me visitar no hotel. Imagina você chegar e receber do maior nome do Corinthians esse apoio", conta.

Autógrafos com hora marcada por Alfinete

Naquele período, Sócrates já havia sido campeão paulista em 1979 pelo time alvinegro, o qual defendia desde 1978. Alfinete, que dividiu o quarto muitas vezes com o ex-meia em concentrações corintianas pelo interior de São Paulo, relembra que o antigo colega era muito carinhoso com os fãs.

"Ficávamos concentrados no quarto e o telefone não parava de tocar. Era muita gente lá na frente do hotel querendo falar com o Magrão. Ele pedia para eu atender e falar: 'diz que às 11h eu desço'. E depois falava com todos, dava autógrafos", lembra. "Tenho grandes recordações dele, principalmente de uma de suas maiores virtudes: ele era muito atencioso".

Oscar e o nariz quebrado por Sócrates

Titular ao lado de Sócrates da Seleção que foi eliminada na segunda fase do Mundial de 1982 com uma derrota por 3 a 2 para a Itália no Estádio do Sarriá, em Barcelona, o ex-zagueiro Oscar, 57 anos, teve uma convivência marcante com Sócrates - no sentido literal.

"Ele deixou uma marca para mim", brinca. "Uma vez, eu jogando pela Ponte (Preta) e ele pelo Corinthians, teve uma bola longa chutada pelo goleiro, e ele era alto, um pouco maior que eu. Dividimos e eu tive uma fratura no nariz. Meu nariz é torto até hoje".

Oscar iniciou a carreira no clube de Campinas, defendeu o São Paulo entre 1980 e 1987 e se acostumou a enfrentar Sócrates desde a época em que este atuava pelo Botafogo de Ribeirão Preto, time em que o ex-meia foi revelado.

"Ele sempre precisava de marcação especial, tinha uma cultura acima da média dos jogadores da época, o raciocínio muito rápido", prossegue Oscar. "Eu o considerava um dos grandes jogadores para ver e conviver. Não é agora que morreu que vai virar santo. Era um gênio da bola - isso sem levar muito a sério. Treinava na Seleção, se dedicava - tudo bem -, mas não é que precisasse treinar muito fisicamente para se destacar".

Emocionado Palhinha fala em Sócrates "imortal"

Entre os ex-atletas ouvidos pela reportagem, o mais emocionado era Vanderlei Eustáquio de Oliveira, o Palhinha, 61 anos. O ex-atacante, que jogou no Corinthians entre 1977 e 1980, recordou a conquista do Paulista de 1979.

"Passamos grandes momentos nesses dois anos em que tivemos a oportunidade de jogar juntos. O mais importante foi o título de 1979, contra a Ponte Preta, quando ele (Sócrates) marcou um gol e eu marquei outro", cita. Na terceira partida da decisão daquele campeonato, disputada em 10 de fevereiro de 1980 em um Morumbi lotado, o Corinthians superou o adversário campineiro por 2 a 0.

Com a voz embargada, Palhinha, que defendeu ainda a Seleção Brasileira e se destacou pelo Cruzeiro, perguntava qual seria o local e o horário do enterro do ex-meia, informações que no momento em que atendia o Terra ainda não haviam sido confirmadas.

"A tristeza é muito grande, é um transtorno. Uma pessoa igual ao Sócrates, pelo que representou no futebol e como homem, é alguém que se torna imortal. Ficará a imagem de um grande amigo, irmão, dos grandes momentos que vivemos e do relacionamento que sempre tivemos", diz ele, que mora em Belo Horizonte.