Dos afagos de Abel ao fim de lesões: Deco detalha volta das magias

Jogadas inesperadas que levaram o Porto até o mais alto degrau do futebol europeu fizeram Deco virar "o mágico" entre os portugueses. Salvo em momentos muito específicos, a torcida do Fluminense ainda não tinha visto tantas magias surgirem dos pés de seu camisa 20. Até que um par de assistências de raro talento, contra o Internacional, valeram ao atual campeão brasileiro a chance clara de brigar pelo título.

Há sete explicações objetivas para que o futebol precioso de Deco tenha demorado a aparecer: cinco lesões na coxa direita, uma na panturrilha direita e uma na coxa esquerda durante um ano. Mas existe também uma marca que hoje é mais importante, porque ele já não se contunde há dois meses. É a principal sequência desde a estreia com a camisa tricolor em 22 de agosto de 2010.

A trajetória ascendente de Deco se confunde com a reação do Fluminense, líder do returno do Brasileiro com 10 vitórias e um empate em 15 jogos disputados - de 11º colocado a 3º. Suspenso no último sábado, ele viu a equipe patinar e cair diante do lanterna América-MG, mas está de volta com suas magias para tentar recolocar o Flu na luta pelo bicampeonato.

Nesta entrevista exclusiva ao Terra, Deco também recorda em detalhes como surgiu, em meio à decisão do Mundial de Clubes em 2006, uma amizade de laços estreitíssimos com Abel Braga, o tricolor que mais fé colocou na volta da boa fase do mágico da camisa 20 e fez incentivos para que as lesões acabassem. "Duvidei se teria ânimo para voltar", admite. Para o bem do futebol, Deco voltou.

Confira a entrevista exclusiva com Deco na íntegra:

Terra - Como você tem sentido o momento do Fluminense e o seu momento dentro do time?

Deco - Fico muito feliz pelo que tem acontecido. Primeiro porque é o meu melhor momento com o Fluminense. Segundo porque isso coincide com a boa fase do time dentro do Campeonato Brasileiro.

Terra - As duas assistências preciosas contra o Inter marcam de vez sua recuperação?

Deco - Nunca fui de fazer muitos gols. Não tenho tantos na carreira e dar assistências sempre foi a minha característica. Na primeira bola, eu tinha visto o (Rafael) Moura nas costas do zagueiro e tinha que cruzar daquela forma no segundo pau. Peguei bem na bola, tive sorte. No segundo, foi mais mérito do Marquinho, que cruzou pela defesa e deixou o Sobis livre para receber.

Terra - Em 2009, a fuga do rebaixamento e o vice da Copa Sul-Americana com o Cuca. No ano seguinte, a arrancada na reta final para o título brasileiro. Nesta temporada, a classificação improvável na primeira fase da Libertadores e agora a grande campanha de segundo turno. Por que esse grupo se supera tanto?

Deco - É um grupo que já está há muito tempo junto, que viveu situações difíceis e boas, então esses momentos dão força, nos unem bastante. Há essa confiança e sabemos que pode dar a volta por cima e isso tem nos motivado. É um bom momento no segundo turno.

Terra - E qual seria a explicação para essa nova arrancada?

Deco - A chegada do Abel foi fundamental. Ele demorou para ajeitar o time, mas deixou com a cara dele. Hoje, é um momento bom e temos que desfrutar. Chegar a esse estágio com condições de brigar pelo título é muito bom.

Terra - O jogo contra o São Paulo no Morumbi parece ser o grande ponto de partida dessa reação. Antes, se falava bastante até que o Abel poderia sair, e desde então são 10 vitórias em 15 jogos. O que mudou?

Deco - Nós éramos inconstantes. Fazíamos um grande jogo e outro ruim. No momento em que o Abel conseguiu passar tudo o que ele queria e o time incorporou, passamos a jogar bem em casa e fora. E aí os resultados apareceram mesmo. Talvez pode ser esse jogo, talvez não, mas entramos em uma crescente.

Terra - Se fosse comparar o Abel ao Muricy, o que você diria?

Deco - São dois caras muito bacanas. São pessoas muito boas e de um caráter incrível. Como treinadores, ganharam tudo o que tinham direito, são vencedores. As personalidades são diferentes por conta da maneira de cada um. O Abel é extrovertido e o Muricy introvertido no dia a dia. Leva um tempo, mas quando o time deles engrena é difícil parar. Conseguem deixar o time com a cara deles.

Terra - O Abel tem reações sempre muito extremas. Parece haver um carinho especial dele por você e isso ficou muito claro em sua última lesão. Como é o contato de vocês?

Deco - Tivemos um episódio que ficou bem marcado na nossa carreira. Na minha e na dele, tenho certeza. Na derrota do Mundial de 2006, o Barcelona perdeu para o Inter, e eu estava muito chateado pela derrota. Cumprimentei, dei os parabéns pelo time, pela forma como ele montou e organizou, como se preparou, e isso marcou muito para nós naquele dia.

Terra - E isso se mantém no Fluminense?

Deco - Sim, claro. Ele me ligou quando assinou com o Fluminense e lembrou que iríamos trabalhar juntos e que eu não podia desanimar. Aquilo me deu bastante força, porque ele jogou, sabe das dificuldades que o jogador passa. Tanto ele quanto o Sandro (Lima, vice de futebol), que chegou e também me ajudou para chegar nesse momento que todo mundo esperava de mim.

Terra - Qual a relação entre o crescimento do Fred com a ascensão do time?

Deco - Quando o time cresce, que é o caso do nosso, os bons jogadores crescem juntos. Isso é natural. O Fred é um grande jogador e já demonstrou isso em toda sua carreira. O crescimento dele também ajudou a todos. O momento bom dele é maravilhoso para nós, porque é um cara que faz muitos gols. É bom quando você vê um companheiro assim.

Terra - Você acompanhou o trabalho da última e da nova direção. O Fluminense mudou?

Deco - A nós não compete muito falar sobre esse assunto. Vejo é que a diretoria nova trabalha para tentar melhorar as coisas e mudar a cara do clube. O Sandrão foi fundamental para tudo melhorar e as pessoas em geral estão bem impressionadas com o trabalho. Isso é tudo o que posso falar.

Terra - Você completou sete jogos e superou dois meses sem lesão. Isso também é uma vitória pessoal? 

Deco - Eu sabia exatamente o porquê das lesões e precisava de um trabalho específico, que agora estou fazendo e não acontece mais. Tem a lesão rotineira, do dia a dia e que pode acontecer, mas com o trabalho que estou fazendo, as lesões musculares não vão voltar. Agora, não fico contando quantos jogos, porque é fazer o que tem sido feito em conjunto com o Abel.

Terra - A última lesão foi a mais dolorosa?

Deco - No momento de decepção, tudo que é coisa negativa passa pela sua cabeça. Não pensei em parar, mas duvidei se tinha ânimo para voltar. É como eu costumo falar: além de Deus e da minha superação, também teve muita gente bacana que me apoiou e queria meu bem. Então me recuperei e voltei a jogar.