Allen Chahad, Portal Terra
JOHANESBURGO, ÁFRICA DO SUL - A presença do Iraque na Copa das Confederações é uma espécie de aberração estatística. A seleção de futebol do país conseguiu classificação após a conquista da Copa da Ásia. Contra todos os prognósticos, venceu a tricampeã Arábia Saudita na final, em 29 de julho de 2007. Foi uma das raras vezes que o nome do país correu o mundo como uma notícia boa em tempos de ocupação militar americana no país. Foi também uma das raras vezes que o povo fez festa.
Só para relembrar rapidamente: em 20 de março de 2003, o então presidente dos EUA, George W. Bush, ordenou a invasão do Iraque. No dia 13 de dezembro, Saddam Hussein foi capturado e, em 30 de dezembro de 2006, executado após condenação à pena de morte. O país é um caos até hoje. Atentados, bombas, sangue nas ruas...
- Creio que vocês sabem a situação do nosso país. Mas temos muita força mental e de espírito. Queremos dar muita felicidade ao povo, que está passando por mudanças. Queremos dar ânimo a eles - diz o capitão da seleção iraquiana, Younis Mahmoud, alvo de olhares curiosos de jornalistas de todo o mundo no Estádio Ellis Park, em Johannesburgo.
- Somos ambiciosos. Queremos a classificação para a próxima fase e dar alegria ao nosso povo - avisa Nashat Akram, craque do time - recém transferido do Al-Gharrafa, do Catar, para o FC Twente, da Holanda - que senta ao lado do capitão para falar da expectativa para o jogo de estreia, neste domingo, contra a África do Sul.
Sem interferir muito, ali do lado está o técnico sérvio Bora Milutinovic. Com cinco Copas do Mundo nas costas, ele aceitou o desafio de pegar um time em frangalhos. Depois do título de 2007, conquistado na raça pelos jogadores e o técnico brasileiro Jorvan Vieira, o Iraque chegou a ser suspenso das competições internacionais pela Fifa, o governo local anunciou o desmanche da seleção... Jogadores perderam parentes em atentados terroristas. Para poderem treinar, saíram para países vizinhos.
- Pode dizer que temos problemas, como o financeiro... Mas já estivemos em situações piores. A nossa inspiração para jogar é a possibilidade de ajudar ao nosso povo - discursa Mahmoud.
É a última resposta tranquila do capitão. Próxima pergunta: "Eu já li que na seleção de vocês existem diferenças, já que existem xiitas e sunitas. É verdade?".
Rosto fechado, clima tenso no ar.
- Essa pergunta não deveria ser feita. Isso não interessa - resume Mahmoud, que, depois de inclinar o corpo para alcançar o microfone com mais ênfase, recua claramente insatisfeito.
Akram vê a cena e quer se pronunciar também. Começa a falar, mas seu microfone não está ligado. Faz uma pausa, busca o botão para ganhar voz nas caixas de som da sala. Está ansioso para falar.
- A seleção do Iraque está jogando pelo país. Não importa se é xiita ou sunita. Também temos cristãos no time. E todos nós estamos aqui em nome do nosso país.
Ok, assunto encerrado. Os jogadores não querem perder tempo com uma discussão que existe desde o século VII, quase desde a morte de Maomé, e tem origem na histórica dominação dos sunitas sobre os xiitas. No Iraque, a elite governante sempre foi a minoria sunita. Mas a ocupação americana do país mudou a situação. Ainda longe de um final feliz.